Segurança de voo

Há duas áreas de controle de tráfego: a torre e o outro é o APP, ou controle de aproximação

Segurança de voo

Reportagem publicada na edição 265 da Revista DeFato

O ano de 2014 vai ser lembrado por tragédias envolvendo aviões. Algumas quedas foram marcantes, como a que vitimou, no Brasil, o candidato a presidente Eduardo Campos. Lá fora, ainda é mistério o paradeiro do Boing 777 da Malaysia Airlines, que desapareceu em março e não deixou rastros. Apesar da incidência no ano passado, o avião é considerado um dos métodos mais seguros para viajar. Muito por causa de um trabalho de bastidor que pouca gente conhece: o dos controladores de voos.

DeFato conferiu de perto a rotina de trabalho e a seriedade como a função é desempenhada no Destacamento de Controle do Espaço Aéreo (DTCEA) do Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins. A visita foi possível a partir do convite da escola belo-horizontina de aviação “Minas Helicópteros”, que levou seus futuros pilotos para aprender sobre o destacamento.

Área militar, o destacamento de Confins é subordinado ao Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), que é dividido em Centros Integrados de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta). O Cindacta I é o responsável pelo controle do maior tráfego aéreo brasileiro, abrangendo Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal, como principais pontos.

Todos esses setores são responsáveis pelo controle e harmonia do espaço aéreo brasileiro, e não medem esforços para manter a ordem no ar. O ex-comandante do DTCEA Confins, Jerônimo Inácio Nunes, apontou em breve palestra que a todo o tempo as aeronaves estão sob controle dos departamentos e caso haja qualquer irregularidade o piloto é contatado e, se necessário, em último caso, abatido.

Em Confins, aproximadamente 200 pessoas trabalham na “Montanha Sagrada”, apelido carinhoso dado pelo ex-comandante. Diariamente uma rotina deve ser seguida, como por exemplo, soltar o balão meteorológico pontualmente às 9h30, horário em que todas as outras estações fazem o mesmo. O balão coleta informações sobre pressão, umidade, temperaturas, força e direção do vento. Tudo isso é registrado em um programa, que repassa as informações à Brasília.

Além do setor de medições meteorológicas, há duas áreas de controle de tráfego: a torre e o outro é o APP, ou controle de aproximação. O primeiro controla o pouso e decolagens de aviões no aeroporto. A torre responde apenas pelo seu alcance visual, entrando em contato com pilotos para fornecer orientações sobre procedimentos a serem tomados. Já o APP é mais complexo. Nele os controladores de voo ficam “isolados” em uma sala com diversos computadores que apontam as aeronaves nos radares. Lá o silêncio é absoluto e a concentração imprescindível.

A área de atuação do APP abrange um raio de 100 km, o que faz com que vários aviões sejam visualizados em uma mesma telinha. Cada aeronave aparece acompanhada de códigos que auxiliam na identificação. Os controladores, que podem ficar responsáveis por até oito aeronaves simultaneamente, precisam estar atentos para auxiliar os pilotos nas mais diversas situações e definir altura e velocidade para que não haja riscos de acidentes.

O capitão Jerônimo Inácio, que deixou o posto de comandante do DTCEA Confins em dezembro de 2014, destaca que os controladores de voos fazem um trabalho difícil, importante, e quase nunca são lembrados. “Quando o piloto está no céu, ele só fala com duas pessoas: Deus e o controlador de voo”, disse.

Segundo o ex-comandante, muitos pilotos não valorizam o trabalho dos controladores e às vezes até voam de forma irregular para evitar contatos com o solo. “Alguns desligam o transponder (comunicador) por achar que os controladores se intrometem muito. A partir do momento em que estão no ar, as aeronaves são responsabilidade nossa. Quando desligam os instrumentos, estão sozinhos e já não podemos fazer mais nada”, lamentou.

Além disso, Jerônimo enfatizou a importância da segurança de voo. Segundo o capitão, 90% dos acidentes acontecem devido a algum tipo de falha humana. “Ou não houve vistoria adequada por parte do piloto, ou ele se distraiu com um rádio, um celular lá em cima e não percebeu algo”, explicou. Esse é um dos motivos para que os controladores estejam atentos e a comunicação entre solo e ar seja clara. Os controladores conseguem perceber variações nas rotas, altura, redução de velocidade e mudanças no clima, mas tudo depende do que o piloto repassa anteriormente.

Para evitar as falhas no DTCEA Confins, um psicólogo fica por conta dos controladores. Em momentos mais críticos, o profissional fica na sala do APP observado o semblante dos militares. Qualquer traço de tensão ou estresse, o psicólogo chama o comandante para substituir o controlador. “Não podemos permitir que haja falhas, então se há alguém tenso, essa pessoa é substituída e passa por um acompanhamento psicológico”, revelou o comandante.

Aluno da escola de aviação, o itabirano Lucimar Madeira, 38 anos, avalia a visita como positiva e acredita que serviu para valorizar mais o trabalho realizado no Controle. “Existe uma estrutura que a gente não vê, que nos assessora para dar tranquilidade para voo. Quando a gente entra como passageiro em um avião, a gente não sabe a complexidade que o voo envolve”, comentou.

Ramo em crescimento

Ex-militar e dono da escola de aviação, José Ernani da Silva conta que o ramo da aviação está em constante crescimento. No fim de sua carreira militar, Ernani conta que em Confins havia cerca de cinco voos por dia, e hoje o aeroporto conta com 240 pousos e decolagens diárias. “O mercado não para. Fábricas continuam a montar aeronaves, e cada uma dessas precisa de, no mínimo, três tripulações para fazer rodízio”, argumentou apontando a área de voos comerciais.

Com 15 anos de experiência e mais de 5 mil aviadores formados, Ernani vê a construção de novos aeroportos como grandes oportunidades de desenvolvimento econômico para as cidades. Ele afirma que a possibilidade de São Gonçalo do Rio Abaixo construir um aeroporto regional ajudará a aquecer a economia das cidades próximas. “Primeiro que você diminui o tempo de viagens. Se precisar ir a São Paulo, por exemplo, não tem que enfrentar estrada. E segundo que facilita viagens empresariais, facilitando negócios, principalmente em uma região com mineradoras e universidades”, avaliou.

E quantos mais voos, mais trabalho para os controladores.