Tão perto e tão longe

Os vinte e poucos quilômetros que separam Itabira e João Monlevade se multiplicam quando o assunto é interação para solucionar problemas semelhantes entre as duas cidades

Tão perto e tão longe

Reportagem publicada na edição 264 da Revista DeFato

Quando inaugurada em 2008, a LMG-779, rodovia popularmente chamada de estrada do Forninho, se apresentava como um grande atalho entre Itabira e João Monlevade. E, de fato, era. Não havia mais a necessidade de enfrentar a BR-381, o destino estava logo ali, a 26 quilômetros. Meia hora, quarenta minutos, no máximo. As duas cidades nunca estiveram tão próximas.

Além de tão próximas uma da outra, Itabira e Monlevade compartilham problemas semelhantes. As duas cidades são as maiores da região do Médio Piracicaba e, por isso mesmo, acabam como “para-raios” de problemas de outros municípios. Os impactos são sentidos, especialmente, nas áreas de saúde, segurança pública, economia e mobilidade.

Mas a proximidade física e os problemas em comum parecem não ser suficientes para que os governantes das duas cidades pensem em soluções conjuntas. São raros os encontros entre os prefeitos de Itabira, Damon Lázaro de Sena (PV), e de Monlevade, Teófilo Torres (PSDB). As reuniões mais corriqueiras são na sede da Associação dos Municípios da Microrregião do Médio Piracicaba (Amepi). Mas lá são discutidos assuntos gerais, de toda a região.

Apesar de admitir que o relacionamento com João Monlevade “não é da intensidade que deveria ser”, o prefeito de Itabira afirma que tem, sim, contato com Teófilo Torres. Segundo Damon, as duas cidades não ficam cada uma em seu quadrado. “Os nossos quadrados tem uma área de intercessão, que é a Amepi. Lá acontecem muitas reuniões e a gente discute muitas coisas. A gente discute a questão da iluminação pública, agendas de eventos e outras coisas. Tem uma discussão ampla, envolvendo não só Itabira e João Monlevade, mas também os outros municípios da região”, comentou.

Mobilidade urbana

No fim de setembro, o prefeito de Itabira esteve em João Monlevade para um “intercâmbio de ideias”. Damon participou de uma das etapas do seminário “Monlevade em foco: os próximos 50 anos”, promovido pela Câmara de Vereadores. O tema da noite era “mobilidade urbana”. O pevista sentou-se à mesa ao lado do presidente do Legislativo monlevadense, Guilherme Nasser (PSDB), e do secretário-executivo da Amepi, Eduardo Quaresma, que proferiu palestra naquela oportunidade.

“Mobilidade é resultado de política pública. A solução não pode ser pensada de forma privada, deve-se pensar em todos. É necessário diminuir a necessidade de viagens motorizadas, repensar o desenho urbano, reconhecer a importância do deslocamento do pedestre, reduzir impactos ambientais da mobilidade urbana, proporcionar mobilidade às pessoas com deficiência, priorizar transporte coletivo e redes integradas”, enumerou o engenheiro Eduardo Quaresma.

Mobilidade é mesmo um problema nas duas principais cidades do Médio Piracicaba. De acordo com dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), os dois municípios juntos possuem mais de 90 mil automóveis em circulação. São 55.076 em Itabira e 38.038 em Monlevade. A média é de um veículo para cada dois habitantes nas duas localidades. A título de comparação, Belo Horizonte, com seus mais de 1,6 milhão de automóveis,possui média de um veículo para 3,5 habitantes.

Itabira, recentemente, conseguiu regularizar o estacionamento rotativo, deficiente há muitos anos. O serviço integra uma série de medidas a serem tomadas para melhorar o trânsito na cidade. Em João Monlevade essa questão ainda é um problema sem solução. Em fevereiro, a prefeitura anunciou que faria uma campanha para o retorno da cobrança e que o sistema voltaria a operar em março. Mas chegou dezembro e a ideia ainda não se concretizou.

O prefeito Damon enalteceu o intercâmbio em Monlevade. Para ele, “infraestrutura urbana, mobilidade e acessibilidade são problemas crônicos das cidades brasileiras”. “Temos situações em Itabira e João Monlevade que são bons exemplos e essas duas cidades possuem importância ímpar na região. Temos que ter entendimento, diálogo e bom senso para a resolução dos problemas”, afirmou.

Segurança pública

Cidades com crescimento populacional apresentam sobrecarga em serviços públicos. Geralmente, um dos pontos mais afetados é o da segurança. Quanto mais gente, mais criminalidade. Ainda mais porque, quase sempre, as polícias Militar e Civil apresentam efetivo reduzido, incompatíveis com a quantidade de pessoas que moram na cidade.

Itabira possui mais crimes na contagem numérica, mas, proporcionalmente, pode-se afirmar que João Monlevade está mais violenta. Entre janeiro e outubro de 2014, na comparação com o mesmo período no ano anterior, as ocorrências aumentaram 78,4% em terras monlevadense. Em Itabira, a elevação foi de 39,3%.

De acordo com dados divulgados pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), João Monlevade registrou 182 crimes violentos nos dez primeiros meses de 2014, contra 102 em 2013. Desse montante, 141 ocorrências (ou 77%) foram de roubos. Até outubro, 12 pessoas tinham sido assassinadas em bairros monlevadense.

O comandante da 17ª Companhia Independente da Polícia Militar de João Monlevade, capitão Jayme Alves da Silva, argumenta que a situação da cidade fica mais complicada por causa de sua posição geográfica. O município é cortado pela BR-381 e está próximo de regiões com grande fluxo, como a Metropolitana de Belo Horizonte e o Vale do Aço.

“João Monlevade é uma cidade com pouco mais de 70 mil habitantes, mas que possui uma população flutuante muito grande. A gente está bem no meio da BR-381, que liga nossa capital ao Vale do Aço. O movimento de pessoas aqui é muito grande. Evidentemente, passa muita gente boa, mas também passa muita gente ruim. E alguns passam e experimento praticar crimes aqui”, comenta o comandante da PM.

O capitão Jayme também considera a chegada de muitos trabalhadores forasteiro um fator que causa dificuldades. Segundo ele, a Polícia Militar tem se voltado mais para combater os roubos. Somente até o fim de outubro, 92 armas de fogo tinham sido apreendidas na cidade. Em todo ano anterior foram 81. “Muitos dos envolvidos dos assaltos em João Monlevade, quando a gente vai ver, não são filhos de Monlevade. São pessoas de regiões em que a força policial é bem maior. Eles arriscam praticar delitos em cidades menores. Vão em Nova Era, São Domingos do Prata e a própria João Monlevade. Só que eles têm levado bomba, porque cometem crimes e estão sendo presos”, afirma.

As blitzen passaram a ser mais frequentes em João Monlevade. Em frente à sede da PM, na avenida Wilson Alvarenga, foi montada uma espécie de barricada. O foco, segundo o comandante, é a abordagem a motociclistas. “Motocicletas com dois indivíduos do sexo masculino são por nós rotineiramente abordados. Os assaltos e homicídios acontecem sempre com fugas em motocicletas”, aponta.

Em Itabira a situação também não é boa. Entre janeiro e outubro, 425 crimes violentos foram registrados na cidade. No ano passado, nesses mesmos dez meses, foram 305. Assim como em Monlevade, os roubos lideram: 337, o que equivale a 79% das ocorrências. As autoridades de segurança pública consideram crimes violentos: estupros, extorsão mediante sequestro, roubos e homicídios tentado e consumado.

Recentemente, em maio de 2014, durante um movimento em Itabira, o delegado regional adjunto Juliano Alencar reclamou da falta de efetivo na cidade.  “Acredito que, ao invés de sete delegados, hoje Itabira precisaria de pelo menos 14 ou 15, para que, pelo menos, oito ficassem diretamente na atuação e investigação de crimes da cidade. Eu acho que estamos muito abaixo do que precisa”, disse.

No início de outubro, tomou posse em Itabira o secretário municipal de Ordem Pública. O escolhido foi o ex-comandante do 26º Batalhão da Polícia Militar, coronel Júlio Maria Abílio. Ele ficará responsável pela Guarda Municipal, que está para vir, e também pela Transita. “A missão que me foi confiada pelo prefeito é de aplicar inovações em um programa voltado para a ordem pública, enfatizando sempre mais segurança, bem como a de introduzir novas formas de atuação exigidas pelo momento atual”, afirmou o secretário, no dia da posse.

Economia

Na área econômica, as duas cidades vizinhas possuem outra característica semelhante: a forte dependência de um setor específico. Enquanto Itabira é berço da mineradora Vale, João Monlevade tem uma das usinas mais importantes da gingante do aço ArcelorMittal. Duas das maiores empresas do mundo em municípios tão próximos.

Itabira é a cidade mais rica da região. Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) apontam que o Produto Interno Bruto (PIB) do município era de R$ 4.791.751.000,00 em 2011. A renda per capta alcançavaR$ 43.300,39 por habitante naquele ano. O PIB de João Monlevade era de R$ R$ 1.692.051.000,00, ou R$ 22.821,76. É o terceiro maior PIB da região, atrás de Itabira e São Gonçalo do Rio Abaixo.

As cidades vizinhas possuem características diferentes na composição econômica. Itabira tem seu PIB predominantemente industrial. Do montante de mais de R$ 4 milhões, 68% tem origem na Indústria. A segunda maior fonte é o setor de Serviços, com 28,1% de participação. Esses números refletem no cenário da exportação. Itabira é a quinta cidade de Minas Gerais que mais vende para fora do país. O produto mais comercializado, claro, é o minério de ferro. Hoje,essa commodity representa 99% do que o município exporta. A China é a principal compradora.

O PIB de João Monlevade é dividido entre Indústria (43,21%) e Serviço (43,17%). Os números mostram a força do comércio no município. As empresas são beneficiadas pela geografia do centro comercial, formado por ruas e avenidas estreitas e com grande movimentação de consumidores. Não é raro pessoas saírem de Itabira para ir à cidade vizinha fazer compras. Um dos principais destinos é o Hiper Comercial Monlevade.

Para o sócio-proprietário do hipermercado, a razão para atender tantos clientes itabiranos pode estar no serviço diferenciado. Ele acredita que as pessoas vão à cidade vizinha procurar novas opções. “O asfaltamento do Forninho aproximou muito as duas cidades. Eu mesmo já saí de Monlevade para buscar opções em Itabira. Tem muita gente que faz isso”, argumenta.

Saúde

O setor da saúde é outro que fica sobrecarregado em cidades polo como Itabira e João Monlevade. Ambas atendem pacientes de municípios vizinhos e sofrem com a reclamação dos próprios habitantes. Some a isso a população flutuante e terá um sistema complexo e tumultuado.

Em Itabira o Pronto Socorro faz aproximadamente 7,3 mil atendimentos por mês. De acordo com o secretário municipal de Saúde, Reynaldo Damasceno, o sistema itabirano acolhe pacientes de outros 12 municípios. Em números gerais, isso representa 116 mil habitantes locais e mais 130 mil de fora.

“Além disso, quando a crises nos hospitais São José, de Nova Era, e Margarida, em João Monlevade, a demanda aumenta”, aponta o secretário. Segundo Reynaldo, até demandas do Vale do aço são absorvidas por Itabira em casos extremos. Para manter a estrutura do Pronto Socorro Municipal, a Prefeitura desembolsa cerca de R$ 1,3 milhão por mês.

Em João Monlevade a situação não é diferente. O sistema municipal de saúde absorve até 6 mil atendimentos por mês. Além dos monlevadenses, também são atendidos pacientes de Bela Vista de Minas, Rio Piracicaba, São Domingos do Prata, São Gonçalo do Rio Abaixo e outras cidades.

A discussão atual em João Monlevade é a respeito da unificação dos sistemas de urgência e emergência do município. Na prática, seria integrar o Pronto Atendimento (PA) ao Pronto Socorro (PS) do Hospital Margarida. A instituição filantrópica passa por graves problemas financeiros e, recentemente, chegou a cogitar fechar alguns serviços. A Prefeitura contribui com R$ 230 mil por mês, além de custear o transporte de pacientes para outras unidades de saúde.

Essa situação da saúde é apenas mais um exemplo de como uma maior integração entre João Monlevade e Itabira seria benéfica. Na terra de Drummond, os sistemas de urgência e emergência já são unificados e o exemplo do município vizinho poderia servir para Monlevade.  Essa discussão, no entanto, não acontece.

Para o prefeito de Itabira, a conversa intensa não acontece por causa das situações das cidades. “Tanto eu quanto o Teófilo recebemos as cidades com altas demandas e não dá tempo para sentar e discutir essas demandas”, argumenta. “A nossa relação é muito boa. Uma relação pessoal de amizade e de entendimento. Se necessário for, eu com certeza procurarei o Teófilo para discutir alguns assuntos. Da mesma forma o Teófilo, se for importante para João Monlevade buscar discutir alguma questão com Itabira, tem a total liberdade para fazer isso”, finaliza.

Itabira

116.745 habitantes

38.038 veículos (outubro de 2014)

PIB: R$ 4.791.751.000,00 (2011) 

PIB per capta: R$ 43.300,39

IDHM: 0,756 (2010)

7,3 mil atendimentos/mês no sistema de saúde

 

João Monlevade

78.040 habitantes

55.076 veículos (outubro de 2014)

PIB: R$ 1.692.051.000,00 (2011)

PIB per capta: R$ 22.821,76

IDHM: 0,758 (2010)

6 mil atendimentos/mês no sistema de saúde