Reportagem publicada na edição 261 de Revista DeFato
Itabira sempre teve muita tradição na disputa dos Jogos do Interior de Minas Gerais (Jimi). Presente em todos os esportes da competição, a cidade passou a treinar ginástica há 13 anos, quando pela primeira vez a modalidade foi inserida nos jogos. Com dois meses de preparo, o educador físico Márcio Rosa Guerra, 55 anos, selecionou 12 jovens estudantes para competir. A partir de então o município passou a investir e hoje colhe frutos de um trabalho persistente.
Desde o início os treinamentos acontecem no Valério. No começo a estrutura era precária. A área de treinamentos para as acrobacias dos ginastas era a mesma utilizada pelo Judô – hoje desativado. “Foi no chão duro do tatame que começamos a fazer os primeiros saltos”, contou Márcio. As condições melhoraram algum tempo depois, quando o Sesi, ao sair de Itabira, doou alguns equipamentos, como plintos, bancos romanos, minitrampolim, prancha e colchões.
O trabalho dá tão certo que a equipe já conquistou todos os títulos possíveis, desde jogos escolares, campeonatos mineiros, brasileiros e até um mundial. “Hoje estamos entre as cinco equipes do Brasil, que são Minas Tênis Clube, Contagem, Ouro Preto e Itabira, todas mineiras”, revelou o professor de educação física que coordena a equipe até hoje.
As aulas são gratuitas e atualmente 70 alunos treinam de segunda à sexta, divididos entre o período da manhã e da tarde. Com investimentos de R$ 420 mil da Prefeitura para a compra de novos equipamentos, a expectativa de Márcio Guerra é que o número de participantes aumente para mais de 100.
A rotina de treinamentos é pesada e apenas crianças de 5 a 10 anos de idade são aceitas na equipe. Isso porque a partir dos 11 anos já existem competições com certo grau de exigência que um iniciante não conseguiria cumprir. “Na fase pré-infantil a criança trabalha a lateralidade, o sentido de espaço e tempo, coordenação motora, rolamento simples, corrida lateral, o básico do esporte”, explicou o treinador.
Além disso, outra exigência é que a criança esteja estudando para poder participar da equipe. Márcio explica que apresentar o boletim não é exigência, já que seu interesse é que a criança aprenda a criar responsabilidades. “Se o aluno perder nota, não vou tirá-lo do treinamento. Ele precisa vir, aprender a ter disciplina e ver que os colegas conseguem treinar e ter notas boas. Se ele sair daqui, vai ficar na rua, sem ocupação”, disse.
Não é só Márcio que treina os jovens atletas. Wesley Alexandre, 26 anos, fez parte da primeira turma de ginástica e hoje trabalha como coordenador técnico e ensina tudo o que aprendeu às crianças. Além deles, dois alunos da equipe que integram a Seleção Brasileira são contratados para orientar os mais inexperientes. “Tudo que os orientadores fazem foi planejado por mim e pelo Wesley, então eles nos ajudam muito a desenvolver as aulas”, contou Márcio.
Para Wesley, o trabalho é gratificante, pois bons frutos sempre são colhidos. “As pessoas acham que o esporte não é uma forma de educação. Pelo contrário, é sim. Forma cidadãos e pessoas de bom caráter”, exaltou o coordenador técnico.
Outros pontos positivos são destacados pelo auxiliar. Para ele, os alunos aprendem a trabalhar sob pressão. “Você treina para superar seu limite e o do próximo. E às vezes você treina um exercício o ano inteiro, e no momento do campeonato você erra. É importante aprender a lidar com isso, até para situações da vida”, disse Wesley.
De Itabira para o mundo
Em novembro acontece o Mundial de Ginástica de Trampolim, em Daytona, nos Estados Unidos. A competição se divide em três modalidades: trampolim, tumbling e duplo minitrampolim. Cinco atletas da equipe itabirana foram convocados para a Seleção Brasileira e disputarão nos aparelhos tumbling e duplo minitrampolim, assim como Wesley, convocado como treinador dos aparelhos citados.
Jhonatham Eustáquio Machado, 18 anos, (Duplo Minitrampolim Adulto); Eli Vinícius Amorim Almeida e Gustavo Soares de Oliveira, ambos com 16 anos, (Duplo Minitrampolim Juvenil); Larissa dos Santos Gomes, 15, (Tumbling Juvenil); e Rinaldo Ribeiro, 18, (Tumbling Adulto) são os itabiranos que disputarão medalhas na competição.
Para o treinador Márcio Guerra, a perspectiva no mundial não é subir no pódio, mas figurar entre 20º a 25º na classificação. Em 2013, quando seis itabiranos disputaram a competição na Bulgária, a melhor colocação da equipe foi o 25º lugar e a pior o 29º. Logo, qualquer classificação acima disso será vista como positiva. “Se um atleta ficar em 20º, por exemplo, já é uma vitória imensa, se tratando de mundial, onde mais de 40 países e mais de 160 atletas competem por aparelho”, estipula o professor.
Neste ano, a grande esperança é Jonathan. Segundo o treinador, a expectativa é que ele fique entre os 12 primeiros colocados. “É uma expectativa nossa, com pé no chão, mas a gente passa isso a ele para que ele sinta a responsabilidade e se aplique mais nos treinos”, explicou Márcio.
Treinando há seis anos, Jhonatham – que também é um dos orientadores contratados – diz estar ansioso para a competição, já que nunca viajou para o exterior. No Brasil, já competiu em várias cidades por campeonatos nacionais. A ginástica transformou a vida dele. Além da parte financeira, o atleta passou a ter uma ocupação. “Eu passava muito tempo na rua, e agora não mais. Além disso, fiz amizades e viajo para vários lugares”, contou o rapaz.
Mesmo com todo sucesso, pouca gente sabe da existência da ginástica na cidade, ainda que os atletas tenham participado de desfiles como do aniversário da cidade e da Independência do Brasil. O professor espera que os jovens se interessem mais pelo esporte, e que o trabalho seja valorizado cada vez mais. “Muita gente julga que por ser de graça não daria certo, e nós provamos o contrário”, completou Wesley.