Energia limpa

Athos e Rafael propõem geração de energia a partir do gás gerado no aterro sanitário de Itabira

Energia limpa
Reportagem publicada na edição 261 da Revista DeFato
 
A geração de resíduos sólidos entre as populações tem crescido na mesma proporção em que a demanda por energia se expande no mundo atual. Então, por que não unir as duas coisas? Em boa parte dos países, o lixo produzido e o esgoto sanitário têm se convertido em solução energética. Essa ideia, agora, chegou a Itabira.
 
A ideia atraiu até pesquisadores internacionais. Em 14 de agosto, um trio de estudantes se reuniu com o prefeito Damon Lázaro de Sena (PV) para apresentar um projeto que visa verificar o potencial de geração de biogás na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE). O alemão Klaus Nelting, a equatoriana Cynthia Caicedo, e o colombiano Carlos Lizarazo são da universidade Hannover, uma das mais conceituadas da Alemanha. Em Itabira eles trabalham em parceria com o brasileiro Thiago Braga, representante da empresa Methanum.
 
O objetivo do projeto é intercambiar conhecimentos em tratamento de esgoto e conhecer os diversos parâmetros operacionais da ETE de Itabira. Todo trabalho de coleta e análise de dados deve durar seis meses. Segundo os pesquisadores, o gás pode ser transformado em energia elétrica, térmica e também em combustível veicular.
 
Depois de pronto, o trabalho indicará a viabilidade da exploração e comercialização do produto. Por enquanto, é apenas uma pesquisa. A expectativa é boa. Segundo Jorge Borges, diretor do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), 98% da matéria orgânica pode ser transformada em gás que é formado, em média, por 70% de metano. 
 
O prefeito Damon gostou da ideia e disse que, em breve, a ETE Laboreaux vai começar a tratar 100% do esgoto da cidade. Ele informou que já estão assegurados recursos para expandir a capacidade de operação da estação. Segundo Damon, o projeto une o útil ao agradável, ao propor preservação do meio ambiente aliada à geração de energia limpa. O trabalho de pesquisa é realizado por meio da agência alemã G&Z, em parceria com a Prefeitura e com o Saae.
 
Outro projeto
Proposta semelhante à dos pesquisadores internacionais têm o engenheiro ambiental Athos Moisés Lopes Silva, mestrando em Saneamento Básico, e o engenheiro eletricista Rafael Átila Silva. Itabiranos, os dois possuem a ideia de transformar em energia o gás metano gerado no Aterro Sanitário de Itabira.
 
O trabalho é intitulado “Estudo do Aproveitamento do Metano Produzido no Aterro Sanitário de Itabira – MG como Fonte Geradora de Energia Elétrica” e já foi apresentado no Simpósio Científico de Gestão Ambiental (Siga), nos dias 16 e 17 de agosto, no campus de Piracicaba da Universidade de São Paulo.
 
Athos esclarece que a finalidade do trabalho é quantificar e estimar a produção do metano presente no biogás do aterro municipal e analisar se a quantidade gerada é capaz de produzir energia elétrica, por meio do processo de conversão energética. “Ou seja, converte-se a energia química do metano em energia térmica, a térmica em mecânica e, por fim, a mecânica em elétrica”, explica.
 
De acordo com os itabiranos, a energia elétrica gerada por meio desse processo poderá ser destinada a residências e indústrias, da mesma maneira como é produzida a energia em uma hidrelétrica. A diferença é que vai partir de um aterro. “A intenção é diversificar a matriz energética do município, para a cidade não ficar tão atrelada apenas a hidrelétricas”, diz Athos. O estudante acredita que, caso o projeto entre em prática, a cidade não ficará tão vulnerável ao racionamento de energia em períodos de estiagem.
 
O aterro sanitário entrou em atividade em novembro de 2012. A projeção de vida útil é de 20 anos, a partir do ano de sua abertura. De acordo com o projeto apresentado pelos engenheiros, tomando por base o consumo médio mensal de 161 Kw/h por residência (EPE, 2013) e com base na energia disponível calculada em Kw/h, é possível estimar a energia mensal disponível.
 
Com esse consumo, já no primeiro ano de operação pode se obter energia suficiente para alimentar o equivalente a 1.727 casas. No ápice da operação, a perspectiva seria o equivalente a 2.526 residências. Levando em consideração uma média de quatro moradores por casa, estima-se que aproximadamente 6,9 mil pessoas podem ser beneficiadas com essa energia, podendo chegar a até 10.100 pessoas quando aterro estiver em seu último ano de operação.
 
A intenção dos jovens é apresentar o projeto aos empreendedores locais ou para o governo municipal. “Como o aterro é administrado pela Itaurb, pensamos que seria interessante uma Parceria Público Privada (PPP). Assim, alguma empresa poderia investir nessa fonte energética. O metano é uma fonte riquíssima de energia e vale a pena aproveitá-la”, avalia Athos.
 
Produção no aterro
O metano, presente no biogás produzido em aterros sanitários, representa uma opção para a produção de eletricidade. A geração de energia elétrica por meio desse subproduto pode permitir autossuficiência energética em sua operação, ou mesmo, geração de um excedente a ser vendido para a rede de distribuição local.
 
O conteúdo energético do metano presente no biogás produzido nos aterros é semelhante ao gás natural e, assim como os combustíveis, também é inflamável quando colocado sob pressão.
 
Os resultados obtidos no trabalho demonstraram que o aterro sanitário do município teve capacidade de gerar no ano de abertura (2012), 29.931.828 m³ de metano, atingindo um valor de 43.594.073 m³ no ano de fechamento (2032). O valor médio de produção obtido foi 37.571.288 m³.
 
Com base na taxa de crescimento populacional anual, de 0,7% (IBGE, 2013) e a geração per capita de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) de Itabira foi possível estimar a população e a quantidade gerada ao longo dos anos estudados. De acordo com a Itaurb, o percentual de RSU coletados e dispostos no aterro sanitário é de 62,6%.