A contadora de histórias

Tatiana quer que seu livro se torne instrumento para que ações enérgicas sejam tomadas para mudança de realidade da BR-381

A contadora de histórias
Reportagem publicada na edição 261 da Revista DeFato
 
Plantar uma árvore, escrever um livro e ter filhos. Dizem por aí que a vida da gente só estará verdadeiramente completa se esses três objetivos forem concluídos até o fim de nossa existência. Um desses passos já foi dado pela jornalista itabirana Tatiana Santos. A profissional aproveitou o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da faculdade de Jornalismo do Unileste, no Vale do Aço, para elaborar um projeto que marcasse a sua passagem pela instituição. Resolveu, então, sair pela BR-381 atrás de histórias e descobriu personagens que vivem, diariamente, os perigos da “Rodovia da Morte”.
 
O resultado dessa “empreitada educacional” é o livro “Vidas que vêm e vão: personagens da BR-381”. A obra, com 60 páginas, é a compilação das melhores histórias coletadas por Tatiana nos dias em que percorreu a rodovia atrás de personagens. Sempre na companhia de seu pai, José da Conceição Santos, e a bordo do “velho Fiesta verde”, a jornalista passou por mais de uma centena de quilômetros entre João Monlevade e o Vale do Aço. Escutou muita gente, conheceu muitas realidades.
 
“Alguns relatos eram de dor, como o da mulher que perdeu dois sobrinhos e um mês depois, um filho de apenas 24 anos na 381. Essa foi a história que mais me tocou. Pude também conhecer pessoas que demonstravam medo extremo, como a universitária que trancaria a faculdade por este motivo”, comenta a jornalista. De certa forma, a história de Tatiana se confundia com a da estudante amedrontada. A itabirana também percorria a BR-381 todos os dias para cursar a faculdade.
 
A “intimidade” criada a com rodovia foi um dos motivos que levou a jornalista a escolher o tema do livro. Outro aspecto levado em conta é a importância da BR-381 para a região e para o país. “Contrariamente ao que a mídia mostra e ao que já é sabido por todos (acidentes, falta de estrutura, mortes), queria apresentar outro lado da rodovia. Minha proposta era falar sobre um lado mais ‘humano’, contar os relatos de pessoas que, por algum motivo, têm que conviver com as dificuldades da rodovia”, diz a autora.    
 
O trabalho
O Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) é a última etapa da faculdade e a mais temida pela maioria dos estudantes. Aquela que pode jogar por terra todos os anos dedicados aos estudos, mas, por outro lado, que também pode consagrar o aluno. Tatiana resolveu apostar no lado bom e contou com a orientação do professor William Caldas Trevizani para desenvolver o livro sobre a BR-381.
 
“Eu tinha receio de que, com um trabalho tão amplo, pudesse me perder nos prazos. Tinha total consciência de que esse tipo de projeto daria bastante trabalho, até mesmo pelo tempo restrito, por ter que viajar para o Vale do Aço todos os dias. Mas acabei optando pelo livro, e no momento em que me decidi não olhei para trás, pensei somente no resultado”, conta a jornalista. Tatiana Santos é repórter do Grupo DeFato e precisou se desdobrar entre as atividades profissionais e universitárias para concluir o projeto.
 
As pesquisas pela BR-381 não foram tão difíceis quanto a jornalista imaginava. Tatiana diz que até se surpreendeu com a abertura que as personagens davam. “Não sei se porque tinham uma ‘voz entalada’ na garganta ou se era porque queriam contribuir com a estudante que os abordava, mas ajudaram muito”, comenta. “Deixaram que eu entrasse em seus mundos, desenterrasse histórias e extraísse sentimentos como revolta, medo e tristeza”, completa.
 
Os frutos de tanto esforço já são colhidos pela jornalista. Desde que apresentou o trabalho à Banca Examinadora, em dezembro de 2013, Tatiana tem recebido incentivo para que publique o livro, mesmo  que de maneira independente. O projeto também rendeu matérias em veículos de comunicação do Unileste e na mídia do Vale do Aço. A obra, por enquanto, está disponível para pesquisas na biblioteca da faculdade, mas a autora pretende fazer com que o livro ganhe rumo. Para isso, quer buscar parceiros e inscrever-se em leis de incentivo à cultura, como a Lei Drummond, de Itabira.
 
Tatiana quer que seu livro se torne instrumento para que ações enérgicas sejam tomadas para mudança de realidade da BR-381. Para que sentimentos de dor e tristeza, como os que ela descreve na obra, fiquem apenas nas memórias de quem vivencia o cotidiano dessa rodovia. Para que quem vá, sempre volte.
 
O trabalho tem tido uma repercussão muito positiva e fico muito, muito satisfeita com isso. Trabalhar, se dedicar e colher os frutos é maravilhoso. É sinal de que todo o esforço tem sido reconhecido”, orgulha-se Tatiana. E por falar em frutos, depois do livro é hora de começar a pensar em plantar a árvore. Ou de ter filhos. Para ter uma vida completa.