Água e a mineração em Morro do Pilar
Empresa vai captar menos de 2% da vazão média do rio Santo Antônio
O renomado professor e ex-ministro Paulo Paiva diz que é impossível falar de Minas Gerais sem considerar a mineração. Para ele não é escolha, é destino. Principal pilar da economia do estado, a atividade enfrenta grandes desafios e está sempre na mira dos órgãos reguladores, da mídia e da comunidade em geral. Não seria diferente com a Manabi, empresa que busca o licenciamento ambiental para seu projeto minerário na região de Morro do Pilar.
Entre outros assuntos, o uso da água certamente é o que mais tem gerado discussões. Para operar a planta de beneficiamento e tocar o mineroduto, a empresa vai captar água nos rios Preto e Santo Antônio. Serão 3 mil metros cúbicos por hora, sendo 90% dessa captação no rio Santo Antônio. Diante das manifestações contrárias ao uso dos recursos hídricos da bacia, a Manabi afirma que sua outorga preventiva (autorização concedida pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas – Igam) representa aproximadamente 2% da vazão média do rio. De acordo com o gerente-geral de Processos e Tecnologia da empresa, Camilo Silva, é algo “quase imperceptível”.
O percentual de água a ser usado na polpa de minério, que será transportada por um mineroduto, representa cerca de 40% da quantidade total captada. Os outros 60% serão utilizados na planta de beneficiamento e disposição de rejeito. Dentro da usina, a água será recirculada seis vezes no processo de beneficiamento antes de ser efetivamente consumida. “Ela entra apenas como um fluido. Não faz parte de reações químicas, não sofre nenhuma deterioração. Apenas se mistura ao sólido e depois, utilizando equipamentos especiais se faz a reutilização dessa água”, explica o gerente.
Outro detalhe que diferencia o projeto da Manabi dos demais é a técnica usada na disposição dos rejeitos. Exploração de minério de ferro requer, tradicionalmente, barragem de contenção, e o material fino descartado no processo de beneficiamento fica misturado à água. Uma prática pouco eficiente e arriscada do ponto de vista ambiental. A Manabi vai usar o empilhamento drenado, em que o rejeito é separado e a água volta ao processo de produção dentro da unidade industrial.
Na visão do engenheiro civil especializado em obras hidráulicas, Mário Cicareli, diretor da empresa Potamos Engenharia e Hidrologia, a mineração é usuária dos recursos hídricos como qualquer outra atividade industrial. E mais. Na opinião dele, a mineração é mais eficiente no consumo dos recursos hídricos quando comparada, por exemplo, à agricultura ou à pecuária. “A produção de um bife gasta, em média, 18 mil litros de água. Para você ter uma ideia, uma tonelada de minério gasta 500 litros”, compara Mário. O engenheiro afirma também que qualquer fazendeiro de médio porte de Minas Gerais, que usa irrigação no processo de produção agrícola, gasta mais água que uma operação do tamanho da Vale, em Itabira, que produz cerca de 40 milhões de toneladas de minério de ferro por ano.
O próprio Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), em um de seus seminários, recomendou às mineradoras um empenho especial na disseminação de informações sobre o real impacto da atividade no uso da água. Segundo especialistas, há muita desinformação sobre os reais problemas hídricos no país. A Organização das Nações Unidas (ONU) revela que aproximadamente 70% de toda a água disponível no mundo é utilizada para irrigação. No Brasil, esse índice chega a 72%.
Produção de água
Além do uso racional, a mineradora também vai desenvolver diversas ações, em parceria com instituições e produtores rurais da região de Morro do Pilar, visando a preservação das nascentes e das áreas de recarga dos lençóis freáticos. Em muitas regiões, devido à devastação causada, em parte, pela pecuária, o ciclo hidrológico fica comprometido. Ou seja, a chuva cai, mas, ao invés de penetrar no solo e recarregar as reservas subterrâneas, acaba escorrendo rapidamente para o rio, causando erosões e enchentes. Enquanto isso, as fontes vão secando por causa da escassez dos lençóis freáticos.
Os projetos que a mineradora pretende desenvolver em parceria com os proprietários de terreno visam proteger as chamadas áreas de recargas e proporcionar a absorção da água da chuva, evitando danos ambientais. Seguindo um plano de desenvolvimento sustentável, é possível aliar desenvolvimento sem prejudicar a disponibilidade de água à população.