Duas vezes ecológico

Projeto experimental de produção de biodiesel em Itabira a partir de óleo residual

Duas vezes ecológico

Matéria publicada na edição 248 da Revista DeFato

De um lado os milhares de litros de óleo de cozinha que são descartados diariamente. Do outro a tecnologia que permite transformar esse resíduo em combustível ecologicamente correto. E no meio um desafio: encontrar uma maneira viável de unir o útil ao necessário e beneficiar o meio ambiente.

Essa é a situação desenhada pelo professor do campus itabirano da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), Rafael Balbino, em um . Doutor Balbino leciona a disciplina Energias Renováveis nos cursos de engenharia da universidade e é autoridade no assunto. Além de entender de biocombustíveis, também é especialista em energias eólica, hidráulica e solar.

Como praticamente todos os produtos sustentáveis no Brasil, o biodiesel ainda está longe de ser economicamente competitivo. Seu custo de produção é maior que o do etanol e nem se compara ao diesel tradicional, que sai bem mais em conta nas bombas. Como geralmente é produzido a partir do óleo de mamona ou de dendê, que exige disponibilidade de terra para cultivo, mão de obra, etc., o custo acaba inviabilizando seu uso em grande escala.

Mas quando a matéria-prima é o óleo de cozinha, esse gasto reduz significativamente. E se já houver uma estrutura de coleta que, com poucas adaptações, consiga recolher o óleo e levá-lo ao laboratório, melhor ainda.

No entendimento do professor, dá para fazer diesel ecológico a preço competitivo em Itabira se houver, por exemplo, uma parceria com a Itaurb. Como a empresa de limpeza urbana já faz coleta seletiva em todos os bairros, bastaria uma adaptação nos caminhões e o óleo usado nas residências, pastelarias e restaurantes não seria desperdiçado. A transformação aconteceria no laboratório da Unifei pelos próprios alunos com o apoio técnico dos profissionais da universidade.

Se houver uma parceria do município (Balbino já enviou o projeto à Secretaria de Meio Ambiente), a produção experimental será destinada à frota da Prefeitura. Mas para isso acontecer, além de viabilizar o recolhimento e transporte da matéria-prima, outro desafio tem de ser superado: a aquisição de equipamentos para estruturar melhor o laboratório da universidade, hoje incapaz de produzir em escala.

Potencial

Antes de tudo, é preciso mapear o quanto de óleo residual Itabira produz por dia, mês e ano. Considerando o tamanho da cidade e a quantidade de estabelecimentos comerciais que usam frituras, é possível imaginar que o potencial é grande. Se for, o próximo passo é estudar a viabilidade econômica dele frente ao combustível convencional e buscar recursos para pôr o projeto em prática.

Testes feitos com o óleo garantem que sua eficiência é de 90%. Ou seja: de cada 10 litros de matéria-prima se consegue 9 litros de combustível ecológico. E tem mais. Durante o processo de transformação química, chamado de transesterificação, é possível extrair também a glicerina, que pode ser usada na produção de cosméticos ou explosivos.

Se for adiante, a iniciativa pode se desdobrar em uma nova alternativa econômica para Itabira. Vale lembrar que uma resolução da Agência Nacional do Petróleo (ANP) determina pelo menos 5% de biodiesel em cada litro de diesel comum. Com o incentivo certo, projetos como o do professor da Unifei pode chamar a atenção de investidores, ganhar força e ajudar a transformar a econômica da cidade – preservando o meio ambiente.

Savi

Reconhecida pelas diversas ações ambientais desde sua fundação, a Sociedade Ambiente Vivo (Savi) também tem a pretensão de produzir biodiesel até o final do ano. A ONG já arrecada, desde 2005, óleo de cozinha para fazer sabão ecológico, com o objetivo de conscientizar as pessoas quanto à preservação ambiental. “Um litro de óleo pode contaminar até 100 mil litros de água”, diz Amarildo Milânio, diretor da entidade.

Por mês, a Savi arrecada até 600 litros do produto. Até o final do ano a intenção é chegar a 5 mil, contando com a boa vontade das pessoas de levar o material até o posto de coleta (Avenida das Rosas, 105, sala 1, Centro, Itabira).

Assim como o sabão, a produção do combustível ecológico da Savi não tem intenções comerciais. O que vale mesmo é a preservação da natureza. Ao saber do interesse da entidade, enquanto concedia entrevista a DeFato, professor Balbino pegou o contato do presidente Jean Charles e disse que ligaria depois para alinhar os interesses. Pode ser o início de uma parceria promissora.