De obras ele entende
Em Ipoema, Carlos Melles executou seus últimos atos como secretário de Obras. Político retoma as atividades de deputado com a sensação de dever cumprido
Entrevista publicada na edição 256 da Revista DeFato
Deputado federal por cinco mandatos consecutivos desde 1994, Carlos do Carmo Andrade Melles (DEM), engenheiro agrônomo e empresário, também tem acumula experiências em cargos executivos na esfera pública. Conhece bem os governos federal e estadual. Foi ministro do Esporte e Turismo (2000 a 2002) de Fernando Henrique Cardoso e secretário estadual de Transportes e Obras Públicas na gestão de Antônio Anastasia em Minas Gerais.
Natural de São Sebastião do Paraíso (MG), Carlos Melles, 67 anos, formalizou seu último ato como secretário da Setop em Ipoema, distrito de Itabira, no dia 29 de março, durante as comemorações do 11º aniversário do Museu do Tropeiro. Ao lado do secretário de Estado Extraordinário para Coordenação de Investimentos, Fuad Noman, anunciou o projeto do aeroporto regional, inaugurou rodovia e assinou ordem de serviço para outras importantes obras.
Após a solenidade, concedeu entrevista a DeFato, durante um almoço reservado na casa do subsecretário de Infraestrutura da Setop, Álvaro Goulart. Melles estava de saída do Governo de Minas, assim como outros secretários que pretendem disputar as próximas eleições (foi substituído pelo itabirano Fabrício Torres Sampaio). Entre os assuntos abordados por ele, destaque para a importância da infraestrutura dentro do desenvolvimento social, as parcerias público-privadas e a aprovação do Marco Regulatório da Mineração pelo Congresso Nacional, que, na opinião dele, dificilmente sairá.
A que se deve a realização deste evento em Ipoema com quatro importantes anúncios?
Esta região está muito bem representada não só pelos vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais, mas, sobretudo, na área executiva, por pessoas com a densidade e influência, como são o Fuad Noman e o Álvaro Goulart. Isso dá uma conjugação de esforços muito grande. O Damon (Lázaro de Sena, prefeito de Itabira) tem sabido conduzir bem a liderança de Itabira em relação à região. E os prefeitos da região também têm se comportado de maneira solidária. Viemos aqui reparar algumas coisas. Primeiro fazer a inauguração do trecho entre Bom Jesus do Amparo e Ipoema, que já estava pronto há alguns anos, mas faltava tempo para inaugurar. Então fizemos a inauguração simbólica desse trecho. Fizemos também a assinatura, eu diria que é quase início de obra, do aeroporto regional. O projeto já está muito bem adiantado e tem, vamos dizer assim, a aprovação política do governo. Todo mundo fala aeroporto de Itabira, mas ele vai estar fora, pouco dentro no município de Itabira. Mas vai servir a toda a região, inclusive com a possibilidade de ter um acesso de 20 e poucos quilômetros até João Monlevade. Isso é uma política que vem sendo desenvolvida pelo ex-governador Aécio Neves, que continuou com o governador Anastasia. Por políticas bem feitas, Minas tem o maior número de aeroportos asfaltados do país. Temos mais de 100 aeroportos. Este ano estamos aplicando mais de R$ 250 milhões do Estado, e o Governo Federal deverá entrar com um aporte de até R$ 800 milhões para fazermos a regionalização de voos. Queremos construir 33 novos aeroportos.
Mas foi assinada aqui a autorização para o estudo de viabilidade…
Na realidade é uma obra muito fácil de fazer. Estamos fazendo é o projeto executivo mesmo. Feito o projeto, os aeroportos têm custado, em média, dependendo da obra, de R$ 10 a R$ 20 milhões. Se for um aeroporto fácil fica até mais barato. Ainda não tenho noção do preço que pode ficar o aeroporto daqui. Se fosse pelo projeto anterior, ficaria em mais de R$ 50 milhões pela movimentação de terra. O aeroporto mais caro de Minas Gerais estamos fazendo em Itajubá, com investimento em torno de R$ 70 a R$ 80 milhões. O Estado tem recurso, tem o programa. Outra obra que viemos falar e fazer, lançando o projeto já também, é a pavimentação de Ipoema a Senhora do Carmo. Era uma demanda intensa para o desenvolvimento do turismo – em Ipoema, um centro mais festivo, e no Carmo, mais religioso. É uma região que a Estrada Real contempla de maneira muito forte e temos o prazer muito grande de fazer com que isso aconteça. Isso aqui vai ser outro mundo. Cada vez mais as pousadas vão oferecer um bom conforto, uma gastronomia diferenciada. E aqui tem um outro atrativo que são as belezas naturais. É uma região muito preservada. Temos aqui a Mata do Limoeiro. Tenho a impressão de que vamos ter ao longo destes anos um desenvolvimento econômico e social na melhor indústria do mundo, que é a indústria do turismo. É um ramo que leva muito dinheiro e traz uma característica de melhoramento muito grande do desenvolvimento da região.
Sou um deputado que por muito tempo foi distrital. Sou muito partidário no sentido de representar uma região. Anoitecer, amanhecer, ter compromisso com sua região. Confesso que depois que passei pelo Ministério do Esporte e Turismo e contemplamos Minas com mais de 700 obras, passei a ser uma pessoa mais conhecida no estado. Agora, como secretário de Transportes e Obras, a gente procura se envolver, atender bem. Estamos colocando, no geral, mais de 10 mil mata-burros, duas mil pontes, bueiros, isso também tem dado aos prefeitos muita satisfação na realização das obras. Algumas regiões têm me convidado a estar olhando um pouco mais sob o aspecto político. E tenho muito prazer em servir. Esse é meu grande desafio. Quando tenho uma demanda como essa, que traz melhorias da qualidade de vida para as pessoas, desenvolvimento e prosperidade, confesso que fico muito propenso a estar junto e querer ajudar. Vamos saltar, se Deus quiser, para mais quatro anos de um governo sério, preparado. Os mineiros aparentemente querem continuar com a governança e com a governabilidade nesse nível que o senador Aécio implantou e que o governador Anastasia continuou. Governo de planejamento, de investimento, governo que olha para as pessoas, que faz para as pessoas. O governador Anastasia conseguiu deixar os mineiros mais orgulhosos, mais felizes, mais valorizados. Acho que isso vai ser uma continuidade.
A logística no Brasil é um gargalo para a produtividade. Como está Minas em relação ao Brasil?
Está avançado em termos de planejamento, com os programas plurianuais do governo, sobretudo o programa de logística e desenvolvimento. Tanto é que asfaltamos 5,5 mil km em 220 cidades que não tinham acesso. Agora, com o Caminhos de Minas, são 8,5 mil km e 340 cidades beneficiadas. São obras que certamente vão trazer muita prosperidade. O Proacesso teve uma vocação muito social. Ele leva saúde, educação, transita a produção, a riqueza do município. No Caminhos de Minas você vê cidades onde já tem asfalto interligadas, e isso aumenta a vocação natural, de intensificação comercial e melhoria da produção. Falo que o Caminho de Minas tem uma vocação econômica maior que o Proacesso. Em relação à logística, temos um gargalo aqui na região que eu me debrucei sobre ele, que é a BR-381. Mas estou saindo feliz. Pode colocar na revista DeFato que a rodovia vai sair. Aliás, já saiu. Foram três anos e meio que estivemos juntos. Há uma vontade do Governo Federal que ela saísse. Não tinha jeito de ser privatizada porque ninguém quis, a rodovia é tão ruim que ninguém quer. Mas o arranjo que tivemos com o ministro Paulo Sérgio, hoje com o ministro César Borges, resultou em todos os lotes licitados. Se você perguntar: por que não saiu antes? Deficiência de planejamento, de governança. O Governo Federal tem pecado nisso. Nesses últimos anos ele não tem sido feliz. Aí faz o PAC da Mobilidade, o PAC do Crescimento. O nome é bom, a vontade é grande, mas o resultado é insatisfatório. Eu volto para a Câmara feliz, não só pelo relacionamento suprapartidário que tenho, pelos cargos que exerci, mas pelo tempo de convivência em que a gente acaba formando grupos suprapartidários. Tenho grandes amigos dentro do PT, dentro do PMDB, na base que não é aliada e eu diria que contribuímos muito.
Privatizar é uma boa saída para melhorar a nossa mobilidade?
O Governo Federal está perdendo o medo de privatizar e está aprendendo a fazer parcerias público-privada, o que Minas faz desde o começo. Minas fez uma coisa que pouca gente percebe o quanto é bom. Acabaram aqueles problemas de cadeia, gente pondo fogo, presos mal acomodados. Você vê que as penitenciárias hoje dão dignidade ao povo, se é que a gente pode usar essa expressão. Tem alimentação, condição de trabalho, de sobrevivência, o que nas outras não tinham. Você tinha uma cela para dez com 40 presos. Até nesse processo o governo fez bem privatizando as penitenciárias. Então no caso da mobilidade, que nessa região nossa é vital, as melhorias estão chegando, tanto é que estamos falando aqui de estradas de Minas e o tanto que melhoraram a região. Agora imagina na hora que a 381 for duplicada e privatizada, o quanto será importante em termos de desenvolvimento na região.
Muitas cidades na nossa região sofrem com o desabastecimento de água. O senhor é favorável a privatizar esses serviços?
Sou a favor da boa gestão. A boa gestão, sendo da iniciativa privada ou de governo, é o que importa. Acho que o Governo de Minas é um exemplo para o Brasil de que o público pode ser bem gerido. Se você tiver o público bem gerido, é absolutamente aceitável e a gente pode aplaudir, porque costuma ficar até mais barato. Mas como o Estado não tem recursos para investir em tudo que a população precisa, obviamente tem de se utilizar a terceirização, através de parcerias com a iniciativa privada. As parcerias público-privadas me parecem um caminho sem volta. Quando se trata de bens da população, como o abastecimento de água e a energia, se a gente deixar ao sabor da política local, a população pode sofrer pelo capricho de cada um que está governando. Então, em princípio, sou absolutamente a favor da boa administração: pública ou empresarial. A iniciativa privada tem mostrado que vale a pena uma negociação com empresas boas, com projetos bons. Hoje a gente pode fazer comparações para saber se um está cobrando mais caro a energia, o tratamento de esgoto ou o metro cúbico de água. Mas é um problema que vale a pena ser resolvido pela eficiência da gestão.
Como melhorar o planejamento logístico de cidades mineradoras, como Conceição do Mato Dentro, e evitar os efeitos colaterais da mineração?
Hoje eu vi com que intensidade o prefeito Damon chamou, convocou e justificou a presença em Ouro Preto dos municípios mineradores. Vou falar uma coisa que não é boa: o Marco da Mineração não vai sair. Não vai sair porque não tem vontade política. E onde não tem um marco regulatório, uma clareza de planejamento, acontece o que aconteceu em Conceição do Mato Dentro e que há essa reclamação profunda. A gente não gosta de mexer na natureza. Se você perguntar a toda criança, ela é favorável ao meio ambiente porque todos nós entendemos que preservar a natureza é preservar a criação. Isso é quase que espiritual. E quando você mexe no meio ambiente e com a destruição aparente que o progresso exige, se ele não for muito bem planejado, isso agride qualquer população. É preciso ter um cuidado muito grande. Eu vivenciei na minha infância a inundação de Furnas. Inundação ainda é diferente da mineração. Você some com a paisagem, mas a água deixa aquilo bonito. Quando se mexe na extração mineral, deixa tudo destruído. Acho que precisamos ter um presidente da República mineiro para fazer um marco regulatório e exigir realmente que as empresas não façam o que a população não queira.
Como o senhor deixa o Governo de Minas? Dever cumprido?
O Governo de Minas, por sua capacidade fiscal, contraiu empréstimos da ordem de R$ 11 bilhões, dos quais R$ 7,4 bilhões estão dentro da Setop. Então você imagina o quanto a secretaria é importante dentro do Estado para a infraestrutura. Mesmo se a gente não quisesse falar, é a maior secretaria que o Estado tem, é a secretaria que resolve, que convive com as pessoas, que dá infraestrutura. Eu uso um nome feio, mas ele sintetiza: a Setop é uma barriga de aluguel para as outras secretarias por fazer todas as obras, todas as estradas, presídios, hospitais, escolas e todo o sistema de manutenção. Enfim, ela é muito grande, tem muito recurso e isso traz uma visibilidade. Isso é bom, mas o resultado é ainda melhor. Quando você entrega quase 100% do Proacesso; quando se começa a licitar quase 2 mil quilômetros do Caminhos de Minas, que custará de R$ 3 a R$ 4 bilhões; quando você faz o Vetor Norte, entregando agora este mês para a Copa do Mundo. Essas coisas todas são muito importantes. É como o governador falou: a gente sai feliz com um sentimento de dever cumprido. O Aécio Neves fala uma coisa muito interessante. No oitavo ano de seu mandato, ele queria terminar o governo empinado, em crescimento. Eu diria que nós estamos deixando – se o Aécio entregou com 45º de inclinação positiva –, com 70º, porque os recursos são muito grandes e estão sendo aplicados em todas as áreas. Isso graças a um trabalho continuado desde 2003. O Estado tem a melhor classificação de risco possível: AAA. Para você ter uma ideia, o Brasil tem hoje BBB. Isso dá musculatura ao Estado e possibilidade de obter mais recursos de médio e longo prazo. Obrigatoriamente temos de falar que fizemos investimentos altíssimos, com muito boa qualidade e aplicação, porque temos uma equipe das mais eficientes que eu conheço.