Insuficiência acadêmica! Erros simples de medicina causaram 30% de reprovação no Enamed

Um aluno contou a revolta de colegas quando uma professora de patologia errou a prescrição de um medicamento em sala de aula

Insuficiência acadêmica! Erros simples de medicina causaram 30% de reprovação no Enamed
Avaliação dos formandos de medicina provoca preocupação nas entidades da área- Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Questões básicas no atendimento médico, como identificação de dengue, dor de cabeça e prescrição de medicamentos foram as responsáveis pelo desempenho insuficiente de 30% no exame nacional do Enamed, aplicado a estudantes no ano de 2025.

O programa Fantástico, da Globo, apresentado aos domingos, teve acesso às respostas da prova e mostrou os erros em questões básicas do dia a dia médico, que explicam o péssimo desempenho que preocupa a quem depende desse atendimento.

Mais de 39 mil alunos prestaram o exame para Medicina em 2025 e os números mostram reprovação de mais de 30% dos cursos sobre o segmento.

O Fantástico teve acesso exclusivo a um relatório do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), responsável pela aplicação do exame, sobre o desempenho dos alunos em questões consideradas básicas para um médico.

Veja alguns dos erros cometido pelos quase 13 mil alunos reprovados, que acertaram menos de 60% das provas.

Uma questão do Inep considerada fácil perguntava o que um médico deveria fazer diante de sintomas graves de dengue, como febre, dores intensas e vômitos fora de controle, 66% dos estudantes erraram a resposta.

Dengue é uma questão muito comum no nosso país. Isso pode significar você mandar para casa um paciente com tratamento inadequado, que pode evoluir mal, por exemplo, para uma dengue hemorrágica, num caso grave“, diz Alexandre Telles, presidente do sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro.

Outra questão tratava de dor de cabeça, descrevendo simbolicamente uma mulher de 55 anos sem histórico de doenças crônicas, com dor persistente dos dois lados da cabeça, alterações da visão e cansaço. A resposta era pedir um simples exame de sangue para identificar uma possível inflamação nos vasos sanguíneos. 65% dos reprovados erraram a questão.

Telles afirma que os dados surpreendem, “porque se o estudante de medicina, que daqui a pouco vai ser médico, não sabe manejar um dor de cabeça, reconhecer sinais de gravidade e sinais de alerta, isso é muito preocupante”.

O Ministério da Educação afirma que algumas dessas instituições que obtiveram notas 1 e 2 na avaliação da Enamed vão sofrer sanções, como proibição de matricular novos alunos. Outras deverão reduzir números de vagas, e todas vão passar por processos administrativos para corrigir problemas pedagógicos e estruturais.

Victor Miranda, que cursa último semestre de Medicina na Universidade de São Paulo, a Unicid, é bolsista do ProUni e tirou nota 8,2 no Enamed, acima da média, embora a sua faculdade tenha se classificado com nota 2, afirma que “o que acontece com a minha faculdade acontece com várias faculdades privadas ao longo do Brasil, porque também eu acho que é uma questão da mercantilização da medicina, a medicina virar um sinônimo de lucro”.

Victor acredita que a falta de um hospital-escola teve um impacto negativo na formação e que estágios feitos em unidades de saúde superlotadas de alunos, não teve oportunidade de dominar procedimentos básicos.

A Unicid afirmou, em nota, ter um longo histórico de excelência e que em uma avaliação do curso feita in loco, recebeu nota 5.

O Ministério da Educação cobra conhecimentos que devem ser dominados por quem já atendeu pacientes, como a prescrição de medicamentos.

O Enamed não tem prova prática.

O caso de uma paciente portadora da doença de Parkinson, em que era exigido reconhecer os sintomas e identificar os medicamentos indicados para o tratamento, teve 56% de erro nos remédios a ela oferecidos.

Um aluno, de uma universidade reprovada no Rio de Janeiro, contou a revolta de colegas quando uma professora de patologia errou a prescrição de um medicamento em sala de aula.

O presidente do Conselho Federal de Medicina, José Hiran Gallo, afirma que a entidade estuda medidas para impedir que estudantes de faculdades reprovadas no Enamed possam se profissionalizar, e defende um projeto de lei em tramitação no Congresso que cria um exame obrigatório para a obtenção do registro profissional após a formatura.

O diretor do sindicato representante das universidades privadas discorda dos resultados do Enamed.

“O Enamed é um importante instrumento de diagnóstico, mas ele não é, sozinho, o instrumento que avalia todas as instituições. O sistema de avaliação é mais complexo do que isso. Ele envolve avaliações presenciais, no ato de autorização, durante o curso. Envolve a avaliação do corpo docente e da estrutura”, diz Rodrigo Capelato.

“Dizer que, numa prova, 13 mil não estão aptos me parece um exagero”.

*Fonte: G1