Homicídios ocultos representam 65% das mortes estimadas em BH, aponta Atlas
Levantamento estima 676 homicídios na capital em 2024, apesar de 235 registros oficiais, e acende alerta sobre a leitura da violência letal
Belo Horizonte aparece no Atlas da Violência 2026 com um dado que muda a leitura sobre a segurança pública na capital. Embora os registros oficiais indiquem 235 homicídios em 2024, o levantamento estima outros 441 homicídios ocultos. Com isso, o total estimado chega a 676 mortes, e 65,2% desse número vem de casos que não foram classificados inicialmente como homicídios.
O Atlas da Violência é elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A edição de 2026 usa dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação, ambos do Ministério da Saúde, para analisar homicídios e outras formas de violência no país.
O Atlas chama de homicídios ocultos os casos de mortes violentas por causa indeterminada que, após análise estatística, apresentam características compatíveis com homicídio. O cálculo busca corrigir distorções provocadas por falhas na classificação das mortes no Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde.
A taxa estimada de homicídios em BH ficou em 28 mortes por 100 mil habitantes em 2024, colocando a capital mineira acima da média nacional estimada, de 23,4 por 100 mil, e mostra que parte da violência letal pode estar fora das estatísticas oficiais mais diretas. O relatório sugere que BH pode estar enxergando mal parte da própria violência letal, já que uma parcela das mortes violentas entra no sistema de saúde sem definição clara.
A taxa estimada de homicídios em Belo Horizonte subiu de 17,6 em 2023 para 28 em 2024, alta de 59,1%. Na comparação com 2019, o crescimento é de 50,5%. Em relação a 2014, ainda há queda de 18,8%, o que mostra um quadro desigual. A capital está em situação melhor do que há uma década, mas piorou no curto prazo.
O cenário de Minas Gerais segue a mesma lógica. O estado aparece entre os menores índices oficiais de homicídio do país, com 12,8 mortes registradas por 100 mil habitantes em 2024. Quando os homicídios ocultos entram na conta, a taxa estimada sobe para 18,5.
Minas também teve o maior aumento percentual do país na taxa estimada entre 2023 e 2024, com alta de 25%. O número de homicídios ocultos no estado passou de 358 para 1.218 em um ano, crescimento de 240,2%. O salto reforça a necessidade de olhar para a qualidade da informação, e não apenas para o número oficial de crimes.
A Região Metropolitana ajuda a explicar por que a segurança em BH não pode ser tratada de forma isolada. O Atlas aponta taxas estimadas elevadas em cidades próximas, como Ribeirão das Neves, com 42,3 homicídios por 100 mil habitantes, Betim, com 35,2, Sabará, com 34,3, Vespasiano, com 32,2, Ibirité, com 31,9, Contagem, com 29,1, e Santa Luzia, com 26,6.
O relatório também reforça que os jovens seguem como um dos grupos mais expostos à violência letal no Brasil. Em 2024, 19.801 pessoas de 15 a 29 anos foram assassinadas no país, o equivalente a 46,5% das vítimas de homicídio. Em Minas, a taxa de homicídios de jovens foi de 24,5 por 100 mil, abaixo da média nacional, mas acima da taxa geral do estado.
A leitura sobre segurança pública, nesse contexto, vai além do policiamento. O enfrentamento da violência também passa por permanência escolar, renda, mobilidade, cultura, esporte, proteção social e presença do poder público em territórios vulneráveis. As escolas integrais no estado, por exemplo, sofreram cortes e redução de 1.223 para 813. A redução representa menos tempo assistindo a mais de 30 mil crianças e adolescentes.
O Atlas também traz um recorte das desigualdades de raça e gênero. Em 2024, mulheres negras representaram 67,5% dos homicídios femininos no Brasil, com taxa 66,7% maior que a de mulheres não negras. Embora o dado seja nacional, ele ajuda a orientar a análise de cidades marcadas por desigualdades territoriais, como Belo Horizonte.
Outro ponto tratado pelo relatório é o paradoxo entre queda de homicídios no longo prazo e aumento da sensação de insegurança. Entre os fatores apontados estão a centralidade política e midiática do tema, a migração de crimes patrimoniais para o ambiente digital e a transformação do crime organizado, que passou a atuar em mercados legais e ilegais. Para Belo Horizonte, mesmo quando alguns indicadores tradicionais melhoram, a população convive com medo no transporte público, furtos, assaltos, golpes virtuais, violência contra mulheres, conflitos no trânsito e sensação de desordem urbana.




