“O Brasil não tem escola”
Reitor Caio Bueno: “Não dá para fazer inovação sem escolas”
Entrevista publicada na edição 246 da Revista DeFato
O presidente do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (CONIF) e reitor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG), Caio Mário Bueno Silva, foi o entrevistado principal de DeFato na edição 246. O professor é um crítico do modelo pedagógico aplicado no país e defende mais investimentos em educação – especialmente os recursos provenientes dos royalties do pré-sal – para transformar a economia do Brasil, hoje baseada em commodities.
Na entrevista a seguir, o reitor fala da ampliação do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e das negociações para implantar em Itabira um campus do IFMG. Caio também crítica, sem medir palavras, o modelo pedagógico brasileiro, a ponto de afirmar que o “Ensino Médio não serve absolutamente para nada”.
Na opinião do reitor, para fazer inovação tecnológica, e consequentemente promover mudanças econômicas importantes, é preciso primeiro estruturar as escolas, capacitar os professores e atualizar os métodos de ensino. Assim, o aluno que termina o Ensino Médio terá condições de fazer um curso técnico ou universitário e atender às expectativas das empresas que precisam de mão de obra qualificada.
Apesar de ser formado na área de química industrial, Caio fez carreira no setor educacional. Foi professor do antigo Cefet Ouro Preto, hoje IFMG, e diretor do campus da instituição na mesma cidade, onde atua há mais de 40 anos. Caio Silva é natural de Varginha, Sul de Minas.
Minas Gerais vive um apagão de mão de obra qualificada. O que o Governo Federal está fazendo para transpor esse obstáculo?
Eu, como presidente do Conselho de Reitores dos institutos federais e como reitor do IFMG, estou em uma grande cruzada em Minas Gerais juntamente com o deputado Reinaldo Lopes. Já conversamos com mais de 200 prefeitos para um trabalho de mudança do perfil da economia de Minas. Em um país cuja economia é baseada em commodities (aqui mesmo em Itabira, baseada no minério de ferro), se continuarmos com esse perfil de economia seremos uma nação do terceiro mundo para sempre. Somos hoje a sexta economia do mundo, pela pujança de nossas commodities e do agronegócio, mas estamos na 85ª posição mundial em desenvolvimento humano, exatamente porque não investimos em educação, em inovação tecnológica. Então a palavra de ordem para mudarmos e diminuir essa diferença entre qualidade de vida e riqueza é investimento. É o país deixar de ser exportador de produtos primários e importador de produtos manufaturados. O desenvolvimento se faz em duas vertentes: investimento e inovação. Investimento os governos estão fazendo – o municipal, estadual e federal –, mas para fazer a inovação temos de ter escolas. O Brasil não tem escola. O país não investiu em escolas. Durante muitos anos tivemos escolas só para elites. Depois tivemos acesso universal, mas as escolas são mal acabadas, escuras, puxadinhos que não têm bibliotecas, não têm professor bem remunerado nem projeto pedagógico, não têm nada. Como é que vamos fazer inovação tecnológica se o que temos de escolas não nos atende?
Falta recurso ou vontade política para solucionar o problema?
O Governo Federal, que é quem tem recurso para fazer isso, entendeu que temos de construir escolas de qualidade no país. Fez expansão das universidades federais, com o objetivo de levar conhecimento técnico a todas as regiões. Primeiro fez o Reuni, que é a abertura da universidade à noite, com aumento de vagas e criação de novos campi (nos últimos 10 anos foram construídos 110 novos campi de universidades federais no Brasil, inclusive aqui em Itabira). Agora, com os antigos Cefets transformados em Institutos Federais, vamos, até o final de 2015, ter em tono de 500 unidades no Brasil. Então, somando as escolas técnicas, os institutos federais e as universidades, estamos hoje em cerca de mil municípios no Brasil, que é em torno de 20%, um número bastante razoável. Consolidando isso aí, começa a capacitação, a qualificação. Para fazer inovação precisamos da educação, então um dos projetos, entre outros, é investir R$ 38 bilhões no programa Inova Brasil, com várias ações, e também no Pronatec.
O aluno que sai do Ensino Médio está preparado para enfrentar uma universidade ou um curso técnico federal?
O que temos no Brasil hoje, quando eu falava no modelo pedagógico equivocado, é um Ensino Médio que não serve absolutamente para nada. O deputado Reginaldo Lopes tem liderado essa discussão no Congresso Nacional. Temos um Ensino Médio em que o aluno tem 15, 16, 18 disciplinas de tudo enquanto é coisa, mas nada amarrado entre si. O aluno termina o Ensino Médio sem saber absoltamente nada, quase analfabeto. Não tem uma formação para o mundo do trabalho e também não vai para a universidade. De 8 milhões de jovens que saem hoje do Ensino Médio, apenas 1 milhão chega à universidade. Nem arrumar namorada o rapaz consegue, porque não sabe fazer nada, não tem profissão, não arruma emprego, não arruma nada. Se antes no Ensino Médio, ele já estava em uma escola sem perspectiva, quando sai fica pior ainda. O que temos de fazer? A gente traz o Pronatec. Uma das ações de melhorias do perfil da sociedade brasileira é qualificar os nossos jovens, os nossos trabalhadores. Estamos com o Pronatec (não só nós do Instituto Federal, mas as universidades, o sistema S, etc.) que é um grande esforço nacional para, até o final de 2015/2016, formar 8 milhões de trabalhadores. Não dá para conseguir desenvolvimento e trazer indústria para Itabira, por exemplo, se não tem aqui o eletricista, o torneiro mecânico, alguém que saiba ler o manual de uma máquina.
O IFMG estuda implantar um campus em Itabira. Como está essa negociação?
Outros agentes do sistema S e outros protagonistas já estão aqui e a gente vem dentro do mesmo objetivo: fazer um estudo da realidade do município, do arranjo produtivo, das potencialidades, dos projetos que teremos em Itabira, e dentro desse retrato da realidade local, propor cursos. Já tivemos várias reuniões com o perfeito Damon e com o vice Reginaldo para tratar de parcerias com o município. Estamos discutindo formas de perenizar uma atuação do Instituto Federal aqui em Itabira. O próprio Pronatec teve algumas dificuldades em um dado momento. Às vezes ofertava cursos de cima para baixo, sem discutir a realidade do município, a demanda real. Então, se precisamos formar técnicos em mecânica, não pode montar um curso de cabeleireiro. O programa patinou um pouco por causa disso. Estava faltando esse diálogo direto com quem realmente conhece o município, que é o prefeito.
Quando os cursos do Pronatec deverão começar?
Dentro do Pronatec, temos cursos de formação inicial, com duração de 160, 200 horas. Levantada a demanda do município, todo mês a gente pode começar a ministrar esses cursos. Temos também os cursos técnicos, que se faz em três períodos, aqueles que o aluno faz quando termina o Ensino Médio – e que não aprendeu nada lá atrás e precisa se qualificar para arrumar uma namorada e um emprego. São cursos técnicos de um ano e meio, dois anos. Temos a pretensão de começar esses em agosto, em Itabira e em outras cidades que a gente está prevendo fazer parcerias. Precisa haver uma parceria com a prefeitura porque não temos ainda campus aqui em Itabira. O instituto tem hoje campi em construção e em funcionamento em 17 cidades, mas não dá para atender todos. Se acertarmos uma parceria com a prefeitura, aqui seria inicialmente um campus remoto. A gente utilizaria um espaço ocioso na rede municipal, que normalmente é toda ocupada durante o dia, mas à noite tem capacidade ociosa. Na parceria, a prefeitura cede o espaço, garante a segurança e etc., e todo o custeio fica por conta do Governo Federal, que paga o professor, dá assistência estudantil, uniforme, livro, etc.
Quando o senhor critica o Ensino Médio, a quem atribui a culpa?
É de um projeto equivocado. Primeiro: a educação precisa de recursos, de dinheiro. Muitas vezes, nessas caminhadas que tenho feito em Minas Gerais, tenho defendido (com a presidente Dilma também) que é preciso investir em educação. Não podemos perder os recursos dos royalties do pré-sal. Defendo que se aplique 100% desse recurso na educação. Nessas conversas com prefeitos, ouço às vezes: “É muita coisa, já investimos 25%, está bom”. Mas às vezes os prefeitos não têm a dimensão. Aí você pergunta: “Qual é o seu orçamento”. Ele responde: “De R$ 10, 20 milhões”. Eu falo para ele: “O meu é de R$ 300 milhões e ainda não dá”. Educação não é abrir uma garagem e encher lá de aluno e de professor, que vira uma escola. Não é isso. Tem de ter projeto, investimentos. Se você vai fazer um laboratório de mecânica para um curso técnico, custa R$ 10 milhões. As pessoas não entendem muito bem isso. Atualmente temos acesso universal à escola, mas uma escola que não serve para nada. Você vende a ilusão para a pessoa de que ela foi à escola, mas ela foi e não aprendeu. Ela não sabe História, não sabe Matemática, Português, não sabe nada. Que escola é essa?
Seria hora de uma reforma geral?
Sim. É preciso investir nos professores, qualificá-los e valorizá-los; fazer cursos adequados à realidade. Temos uma escola em que você pega um aluno e coloca lá em quatro horas e dá 18 disciplinas para ele, um pouquinho de cada coisa, sem saber por que. Ele não sabe para quê serve aquilo; nem o professor sabe. O país precisa parar e reformular o ensino brasileiro, o Ensino Médio. Começamos ao contrário. Temos problema desde a creche, mas começamos pelas universidades. Estamos transformando o Ensino Médio para depois chegar ao Ensino Fundamental, ao invés de começar lá na base para chegar ao topo. Só que a demanda é muito grande e o país precisa crescer. Tem apagão de mão de obra. Hoje você pode chegar aqui na Vale e ver que ela está importando técnicos do Chile, da China e de outros lugares. Não tem mão de obra. Como vamos crescer o país desse jeito? Quando fala que precisamos de patentes, de inovação tecnológica, de melhorar os nossos processos, pergunto: “Mas como, se o trabalhador não consegue ler um manual para ligar uma máquina?”.
Com um Ensino Médio fraco, o governo criou cotas para as universidades federais. O senhor é favorável?
Sou absolutamente favorável às cotas. Esse não é o problema. A questão das cotas é um resgate que precisávamos fazer. A escola de qualidade nesse país sempre foi feita para a elite, para o filho do rico. O pobre e o negro sempre ficaram de fora, em toda a história do Brasil. Pega o Brasil colônia: os filhos dos ricos estudavam nas escolas jesuítas, nas escolas católicas, e o resto era tudo analfabeto. Quando começa a escola pública, no início do século 20, e as primeiras faculdades federais, quem é que foi estudar lá? Filho de rico. Essa situação vem há 500 anos, sempre favorecendo o rico. Você não pode deixar as escolas federais – que são as melhores – virarem um gueto aonde só o rico chega. Tem de ter cota sim. Essa geração não pode ficar perdida. O dia em que a gente tiver todas as escolas públicas de qualidade, aí não precisaremos mais de cotas, mas hoje é preciso ter. E essa história de que aluno que entrou por cota é um aluno de pior qualidade é balela. Isso é discurso da elite rancorosa.







