Pós-mineração: Vale sequer discute fábrica de briquetes em Itabira
A curta e direta declaração foi dada pelo diretor operacional do Complexo de Itabira, Diogo Monteiro, em um momento em que Itabira busca alternativas para reduzir sua dependência da mineração

Na última semana, a Vale apresentou à imprensa os avanços tecnológicos da Usina Conceição II, em Itabira. Porém, ao ser questionada sobre o futuro industrial do município berço de origem da empresa, a resposta da mineradora foi bem menos animadora. Perguntado sobre a possibilidade de implantação de uma fábrica de briquetes de minério de ferro na cidade, o diretor operacional do Complexo de Itabira, Diogo Monteiro, afirmou: “Para Itabira a gente ainda não discutiu esse processo”.
A curta e direta declaração foi dada em um momento em que Itabira busca alternativas para reduzir sua dependência da mineração e construir uma economia mais diversificada. Apesar dos discursos da Vale sobre inovação, descarbonização e geração de valor na cadeia mineral, a cidade não aparece no radar da companhia para receber um dos seus projetos industriais mais promissores.
O briquete de minério de ferro é apontado pela própria empresa como uma solução inovadora para reduzir as emissões de carbono na produção de aço. A tecnologia já saiu do papel. Em 2023, a mineradora inaugurou, no Complexo de Tubarão, no Espírito Santo, a primeira fábrica do mundo dedicada à produção do material.
A instalação de uma fábrica desse porte poderia representar uma nova vocação econômica para o município, criando empregos industriais, atraindo investimentos e fortalecendo a estratégia de diversificação econômica em meio às discussões sobre o pós-mineração. Mesmo assim, a resposta de Diogo Monteiro demonstra que a proposta sequer está sendo debatida pela mineradora para o futuro da cidade.
A situação reforça uma crítica recorrente feita por lideranças locais: embora Itabira continue sendo uma das principais bases operacionais da Vale, os investimentos ligados às etapas mais avançadas da cadeia produtiva seguem sendo direcionados para outras regiões. Enquanto isso, o município continua desempenhando o papel que exerce há mais de oito décadas: extrair minério e enviá-lo para outras localidades, sem participar de forma significativa das etapas mais avançadas e lucrativas da cadeia produtiva.

Nos últimos anos, o prefeito Marco Antônio Lage (PSB) e o presidente do Sindicato Metabase, André Viana, transformaram a pauta dos briquetes em uma das principais reivindicações junto à Vale. “A gente espera que Itabira continue sendo um centro de excelência no desenvolvimento da indústria mineral. Isso é importante. A fábrica de briquetes, por exemplo, que a Vale está abrindo em várias regiões, inclusive fora do país, a gente acha que é possivelmente plausível, necessário, que uma fábrica de briquetes seja instalada em Itabira”, disse o prefeito Marco Lage, em entrevista concedida ao portal Cidades e Minerais.
“Itabira errou drasticamente no passado quando não conectou mineração com siderurgia. Então, nós somos uma cidade pioneira no extrativismo mineral. Tivemos uma estatal sendo fundada na cidade, com uma bênção, que era uma ferrovia que interliga dois estados, até hoje o existente, que é a Estrada de Ferro Vitória a Minas”, afirmou André Viana em setembro de 2025, quando a Vale reinaugurou a Mina Capanema, localizada entre Santa Bárbara, Ouro Preto e Itabirito, em Minas Gerais. A retomada da operação marcou o anúncio de investimentos de R$ 67 bilhões até 2030.
Ainda segundo André Viana, a produção de briquetes representa uma oportunidade histórica de reposicionar o município no cenário da indústria mineral e siderúrgica.
“A Vale lançou agora um produto extremamente sustentável, que é o briquete de minério de ferro, que retira da siderurgia o carbono, ou seja, a agenda ESG da descarbonização. Já tem uma usina no porto de Tubarão [em Vitória, no Espírito Santo]. São sete usinas no mundo e por que não discutir uma em Itabira ou em Minas Gerais?”, questionou à época.




