Itabirana faz desabafo emocionante e alerta sobre vício em apostas online; assista

Emocionada, Jéssica Ramos, de 34 anos, disse que decidiu compartilhar sua história para evitar que outras famílias passem pela mesma situação

Itabirana faz desabafo emocionante e alerta sobre vício em apostas online; assista
Foto: Guilherme Guerra/DeFato

A análise do Projeto de Lei nº 67/2026, que cria uma campanha permanente de conscientização sobre os riscos das apostas online em Itabira, foi marcada por um depoimento que emocionou vereadores e o público presente na reunião de comissões da Câmara Municipal, nesta terça-feira (21). A itabirana Jéssica Ramos, de 34 anos, contou como desenvolveu ludopatia — transtorno caracterizado pela compulsão por jogos de azar — e relatou as consequências devastadoras do vício. Em sua fala, Jéssica se abriu sobre o endividamento, a perda do emprego, o rompimento de relações familiares, pensamentos suicidas e o processo de recuperação que iniciou há sete meses.

Jéssica contou que o primeiro contato com as apostas aconteceu no fim de 2022, após acessar anúncios nas redes sociais. Segundo ela, o jogo passou a ser uma forma de escapar de problemas emocionais que carregava desde a infância. “Quando percebi, já tinha saído completamente do meu controle”, revelou, afirmando que apenas durante o acompanhamento psicológico conseguiu compreender a relação entre traumas e a dependência.

Em 2023, Jéssica engravidou e segundo ela, a compulsão aumentou. Ao querer dar uma condição melhor ao filho e sem perceber, passou a descontar frustrações e problemas decorrentes da gravidez nos jogos, perdendo o controle financeiro de vez. Segundo a itabirana, ela passava madrugadas inteiras apostando e chegou a sacar R$ 8 mil em uma plataforma, mas perdeu todo o dinheiro no mesmo dia. A assistente de departamento pessoal contou que sempre teve bom histórico financeiro, o que facilitava a aprovação de empréstimos bancários que eram destinados às apostas.

O problema também atingiu a vida profissional de Jéssica. De forma corajosa, admitiu que, no auge do desespero, alterou um valor na própria folha de pagamento para tentar quitar parte das dívidas. “Minha intenção nunca foi fraudar ninguém ou roubar. Na minha cabeça, eu conseguiria devolver esse dinheiro depois. Mas, no auge do meu desespero, eu cometi essa infração”. A descoberta da irregularidade resultou em demissão por justa causa. “O que ficou depois disso foram consequências gravíssimas”.

Em lágrimas, a itabirana contou que poucos dias após perder o emprego, decidiu procurar ajuda psicológica, mas no caminho para a consulta, pensou em tirar a própria vida. Segundo ela, o filho foi o motivo que a impediu de cometer o ato: “O que me salvou foi meu filho. Eu pensei: se eu morrer, quem vai cuidar dele?”. Hoje, sete meses após iniciar o tratamento, Jéssica afirma que não joga mais e diz não sentir vontade de voltar às apostas. Apesar disso, ainda enfrenta as consequências do vício. “Moro de favor na casa da minha mãe, perdi meu casamento, perdi amizades. Minha situação financeira não é boa, mas com tudo isso eu estou viva”, revelou.  

Além da dificuldade e perda de vínculos, Jéssica também contou que sofreu preconceito após o ocorrido. “Muitas pessoas se afastaram de mim. “Ah, jogou porque quer”. Outras me deixaram de lado, me chamaram de sem caráter. Mas eu nunca imaginei na minha vida passar por isso. Eu fui criada com dificuldade, mas que eu conquistei antes do jogo foi com muito trabalho”.

“O jogo levou um pouco da minha dignidade. Eu fiquei cega. Não conseguia enxergar um passo à frente.”

Ao final do depoimento, Jéssica defendeu a aprovação do projeto que prevê campanhas educativas sobre os riscos das apostas online e fez um apelo aos influenciadores digitais que divulgam plataformas de apostas. “Quem divulga no Instagram precisa ter consciência. Muitas vezes oferece, através de um link, um caminho que pode levar uma pessoa à ruína pelo resto da vida.” Para ela, a dependência não deve ser tratada como falta de caráter, mas como um problema de saúde mental. “Isso não tem nada a ver com escolha. É sobre a fragilidade da pessoa, sobre a condição mental dela.”

Emocionada, Jéssica disse que decidiu compartilhar sua história para evitar que outras famílias passem pela mesma situação. “Graças a Deus eu não cheguei ao extremo. Vai demorar para eu recuperar minha vida, mas faz parte. Por isso é tão importante conscientizar as pessoas. O jogo pode destruir famílias, como destruiu a minha”, disse, sendo aplaudida por todo o plenário.