Entre rimas, poesias e reflexões, Thiago SKP lança no Flitabira o seu primeiro livro: “O Avesso do Verso”

Obra do rapper e escritor itabirano combina poemas, contos e textos reflexivos; lançamento será neste sábado, às 17h, na Central de Autógrafos do festival

Entre rimas, poesias e reflexões, Thiago SKP lança no Flitabira o seu primeiro livro: “O Avesso do Verso”
Foto: Jéssica Santos/DeFato Online
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A palavra ocupa um lugar central na trajetória de Thiago SKP. Presente nas letras de rap, nas atividades educativas e nas oficinas culturais, ela agora ganha um novo formato na vida do artista: o livro. Em sua estreia como escritor publicado, o rapper itabirano apresenta “O Avesso do Verso”, uma obra que reúne experiências pessoais, observações do cotidiano e reflexões sobre questões sociais, culturais e humanas.

O lançamento será realizado neste sábado (31), às 17h, na Central de Autógrafos do 6º Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira), que começou na quinta-feira (29) e segue até domingo (1º). A publicação marca uma etapa importante na carreira de Thiago SKP, que já transita há anos entre a música, a literatura marginal e a educação.

Ao falar sobre o conteúdo do livro, o autor o define como uma reunião de sentimentos, percepções e ideias que encontrou espaço no papel. A obra traz algumas poesias que já integraram composições musicais, mas é formada principalmente por textos inéditos. Há poemas, contos e prosa reflexiva, com abordagens que passam pelo preconceito linguístico, pelas diferenças entre religião e espiritualidade e por temas que, embora façam parte da vida cotidiana, nem sempre recebem a atenção necessária.

“São fragmentos da minha alma em pedaços de papel, assim, simplificando, são as coisas que eu sinto, que eu vejo. Tem desde poesias que fazem parte de música, mas a maioria são poesias inéditas. Algumas em que a gente coloca técnicas mais complexas, mas o principal é a essência do que a gente quer dizer”, explica Thiago.

A variedade de formatos foi uma escolha para oferecer diferentes possibilidades de leitura. Em vez de seguir uma única estrutura, o escritor optou por alternar textos mais densos com poemas e narrativas curtas. A intenção é permitir que cada leitor encontre uma porta de entrada para as ideias apresentadas.

“Eu acho que é interessante. Tem hora que você lê um texto mais denso, você já vê uma poesia mais divertida, você já vê um conto. Então traz uma dinâmica. Embora eu adore livros de texto corrido, adore livro de poemas, eu quis trazer como meu primeiro livro toda a versatilidade que eu tenho enquanto escritor, enquanto MC, enquanto poeta”, conta.

Segundo ele, a diversidade de linguagens não significa uma mudança de essência. Seja em um poema, em um conto ou em um texto reflexivo, o objetivo permanece o mesmo: provocar identificação e estimular o pensamento crítico. “Uma pessoa vai se identificar mais com o texto, outra mais com a prosa, outra mais com a poesia, e em todos ela vai achar algo em comum ali, que é a minha essência”, afirma.

Capa feita à mão e participações de Djonga e Afonso Borges

A identidade visual de “O Avesso do Verso” também carrega uma escolha que dialoga com a proposta artística do autor. A capa foi criada pelo artista Valtin Kioma, responsável por uma pintura feita manualmente.

O rapper destaca que a produção seguiu um caminho artesanal, mesmo em um período marcado pela presença de ferramentas de inteligência artificial na criação de textos e imagens. Para ele, o trabalho de Valtin representa a valorização do processo artístico feito à mão.

A publicação é da editora Ramalhete, com edição de Álvaro Gentil. O livro conta ainda com apresentação de Afonso Borges e prefácio do rapper Djonga, duas participações que o autor considera especialmente significativas.

Thiago relata que admira Djonga tanto pela trajetória pessoal quanto pelo trabalho musical. Já a relação com Afonso Borges envolve o reconhecimento e o incentivo recebidos ao longo de sua caminhada artística. Foi Afonso quem o apresentou ao editor Álvaro Gentil, abrindo caminho para a publicação.

“Nem no meu melhor sonho eu imaginava esse time todo presente no meu livro”, comenta.

Para o escritor, a presença de artistas e profissionais que respeita reforça a importância de uma obra que pretende provocar reflexões e ampliar o alcance das ideias. Ele também associa a literatura à resistência e à capacidade de produzir mudanças a partir do contato de cada leitor com uma história ou um pensamento.

“Eu acho que a literatura, assim como qualquer arte, é a resistência da ponta da espada, é aquele efeito borboleta que você manda um sopro no livro e aquilo se transforma num furacão dentro da pessoa, num tornado de reflexões, de pensamentos que acabam virando atitudes”, afirma.

Lançamento no Flitabira tem significado especial para o artista

A escolha do Flitabira para apresentar “O Avesso do Verso” ao público de Itabira tem um significado que vai além da participação em um evento literário. O festival, que chega à sexta edição, tornou-se um espaço de encontro entre autores consagrados, novos escritores e leitores, além de abrir oportunidades para diferentes expressões da literatura.

Thiago SKP já participou de outras edições, seja em mesas de debate ou em oficinas. Ele ressalta a receptividade da organização ao seu trabalho e ao espaço dedicado à literatura marginal, vertente que aborda experiências e realidades frequentemente distantes dos circuitos literários tradicionais.

Desta vez, porém, a participação ganha uma dimensão particular: o artista chega ao festival como autor de seu primeiro livro, justamente no dia 31 de outubro, data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, o principal símbolo cultural de Itabira.

“Para mim é uma honra, que também está sendo a data de nascimento do meu livro, ‘O Avesso do Verso”. O Flitabira é um marco. A gente tem uma livraria grandona no meio da avenida, a gente tem a visita de vários autores gigantes, que talvez só mais para frente a gente vai ter noção da dimensão disso”, diz.

Ele também reconhece a importância de apresentar seu trabalho em um festival que considera um dos principais encontros literários do estado. A participação, segundo Thiago SKP, representa um momento que ficará registrado em sua trajetória. “Eu estar presente lá, lançando meu livro em uma data tão especial, para mim vai ser histórico, vai estar ali na minha biografia”, destaca.

Da cultura hip-hop ao incentivo à leitura

A relação de Thiago SKP com os livros começou a ganhar força a partir de sua aproximação com o rap. Ao iniciar sua trajetória no hip-hop, ele encontrou no próprio movimento um incentivo à leitura, com referências a autores, biografias e obras que ajudaram a ampliar sua visão de mundo.

A experiência despertou nele o desejo de compartilhar esse caminho com outras pessoas. Desde 2008, quando a Escola Municipal Marina Bragança de Mendonça abriu espaço para suas primeiras atividades no ambiente escolar, o artista passou a integrar livros às oficinas de rap que já realizava.

A proposta era mostrar que a literatura não pertence a um único perfil de leitor e que existem diferentes formas de escrever, narrar e expressar experiências. Nesse contexto, a literatura marginal aparece como uma possibilidade de aproximar os jovens de histórias que dialogam diretamente com suas realidades.

“Quando a gente fala na quebrada, nos meus amigos ali que me cercam, quando a gente fala de livro, eles imaginam que eu vou chegar de terno e gravata falando ‘batatinha quando nasce’. E não! A literatura tem de todo tipo, tem de todo gênero, inclusive o que a gente faz, que é a literatura marginal, que fala o cotidiano de quem está à margem, que é uma forma de falar do nosso dia a dia”, explica.

Nas atividades com estudantes, Thiago SKP procura apresentar não apenas os próprios textos, mas também os autores que influenciaram sua formação. Entre as referências que cita estão Sérgio Vaz, Tony C, Renan Inquérito, e Ferréz.

O trabalho inclui a apresentação de técnicas de escrita, construção de rimas e elaboração de textos. Mas, para ele, o mais importante é incentivar cada participante a encontrar a própria maneira de se expressar.

O rapper também observa que a escrita pode assumir uma função que ultrapassa o resultado artístico. Em muitos casos, o papel se transforma em espaço para desabafos e para a expressão de sentimentos difíceis de compartilhar em outros ambientes. “Às vezes, o papel não é só a parte artística, às vezes é um desabafo”, relata.

Thiago acredita que apresentar a literatura a partir de referências próximas da realidade dos jovens ajuda a romper a ideia de que os livros são destinados apenas a determinados grupos sociais. “Esse caminho não é uma coisa elitista, não é uma coisa dos caras de terno e gravata, que falam de forma pomposa. Não! É a nossa vida! Faz do seu jeitinho, escreve da sua forma, porque ninguém é igual você no mundo”, afirma.

Rap e literatura partem da mesma essência

A experiência como MC e escritor também faz Thiago SKP refletir sobre as diferenças e aproximações entre a composição musical e a produção de textos. Para ele, a principal distinção está na organização das palavras: enquanto as letras de rap são construídas com rimas, os textos em prosa podem seguir um caminho mais livre.

Isso não significa, porém, que a preocupação com a mensagem seja diferente. Tanto na música quanto na literatura, o artista procura estabelecer uma conversa com quem recebe sua obra. “Eu tento fazer como se fosse uma troca de ideia. Imagina que não tem câmera, não tem nada, a gente está aqui tomando uma cerveja, conversando e eu ligasse o meu gravador. Quando chegasse em casa, eu lapidasse essa palavra, porque eu quero que as pessoas entendam o que eu estou falando”, explica.

O cuidado com a escolha das palavras também aparece nos recursos poéticos. Metáforas, trocadilhos, rimas e jogos de linguagem são ferramentas que, na avaliação do artista, ajudam a abordar assuntos difíceis sem retirar deles a força e a profundidade.

Thiago SKP utiliza como exemplo uma situação de violência para mostrar como a construção poética pode alterar a maneira como determinado acontecimento chega ao público. Uma frase direta pode causar impacto, mas a transformação dessa mesma ideia em uma imagem poética permite outro tipo de aproximação. “Eu acho que são caminhos que trazem uma forma leve de trazer coisas pesadas. A arte toca as pessoas de forma diferente”, afirma.

Para ele, os recursos da escrita também permitem que o autor experimente outros pontos de vista e conduza o leitor a enxergar uma realidade por perspectivas diferentes. A técnica pode despertar a atenção inicialmente, mas é o conteúdo que permanece e provoca reflexão. “Eu acho que a arte fisga a sua atenção, ela pesca a sua atenção, e aí o que vem junto é todo o conteúdo que você consegue trazer para dentro do barco”, resume.

Laboratório propõe criação coletiva de textos

Além do lançamento do livro, Thiago SKP terá outra atividade na programação do Flitabira. No sábado (31), às 16h, ele conduz o laboratório de escrita criativa “Conversas com Versos”, na Biblioteca Pública Municipal Luiz Camillo de Oliveira Netto.

A proposta é diferente de uma oficina convencional. Em vez de apenas apresentar técnicas e conceitos, o artista pretende compartilhar seu próprio processo de criação e desenvolver exercícios em conjunto com os participantes. A atividade envolve recursos como metáforas, analogias, jogos de rimas, etimologia e a história das palavras.

Thiago explica que o laboratório foi pensado para pessoas com diferentes níveis de experiência: desde quem nunca escreveu até quem já produz textos e deseja conhecer outras possibilidades de construção literária. “Eu abro a minha mente, a pessoa vai estar dentro da minha cabeça, eu explico como eu faço uma analogia, como eu faço uma metáfora, como eu faço um jogo de rimas e a gente vai construir juntos a partir daquilo”, conta.

O projeto já passou por diferentes cidades e recebeu públicos variados, incluindo professores, MCs, estudantes e poetas. Em Itabira, a atividade terá um significado especial para o artista por acontecer em sua cidade e no mesmo dia em que apresenta seu primeiro livro.

A procura pelas vagas também foi destacada por SKP. Segundo ele, os ingressos disponibilizados foram esgotados, inclusive após a abertura de vagas adicionais.

Mais do que ensinar técnicas, o objetivo é fazer com que cada participante experimente a escrita e encontre caminhos próprios para desenvolver suas ideias. O artista pretende simplificar conceitos que podem parecer complexos e demonstrar como eles podem ser aplicados na prática.

“Eu espero mesmo, de coração, que a galera que vá se sinta impactada e, principalmente, se sinta inspirada, porque o ‘Conversas com Versos’ é um laboratório em que a nossa ciência é transformar em combustível e em inspiração”, conclui.