Paixão pela bola

Atletas especiais atingem superação pelo esporte

Paixão pela bola
Desde 1894, ano em que o desportista Charles Müller trouxe da Inglaterra as duas primeiras bolas para o Brasil, o país aprendeu a se mobilizar pelo futebol e a transformá-lo em tradição e cultura. Segundo o Atlas do Esporte no Brasil, trata-se da modalidade esportiva mais praticada no território nacional. São mais de 30 milhões de adeptos, entre profissionais, amadores e atletas de fins de semana, o que corresponde a 16% da população. Em cidades da região, não é diferente. A paixão pelo esporte está impregnada em alguns dos times mais populares e queridos. A bola, na verdade, é quase um pretexto para promover confraternizações. Conheça alguns desses times e suas histórias a seguir.
 
Amizade para vencer
O time de futebol de salão XX de Julho, de Ferros, tem o companheirismo como valor fundamental para existir. Fundada em 1996 por Cláudio Luiz Duarte de Brito, Claudinho, 41, a equipe foi nomeada em alusão ao Dia do Amigo, celebrado em 20 de julho. Aliás, foi exatamente numa reunião entre amigos que tudo começou. “No início éramos seis. Agora, somos cerca de 25, pois temos também a equipe juvenil, conhecida como Meninos do XX”, orgulha-se o fundador e treinador, também eletricista aposentado.
 
Uma das referências da equipe é Wallison Kener Santos Duarte, Keninho, 31, jogador do XX de Julho desde o início. “Ele é muito técnico, essencial para a nossa equipe conquistar os títulos”, elogia Claudinho. Considerado craque pelos companheiros, o balconista é humilde ao afirmar que não se sente como tal e prefere enaltecer o grupo. “Nós jogadores e comissão técnica temos a liberdade de conversar, brincar, sempre respeitando um ao outro. É isso que torna o time unido para ser campeão”, diz o jogador.
 
Em Ferros, as partidas são disputadas, geralmente, às quartas-feiras, no poliesportivo da cidade. Uma torcida jovem e inflamada sempre marca presença. “Nossa torcida tem um número muito grande de crianças apaixonadas pela equipe”, comemora o fundador. De acordo com Claudinho, o XX de Julho está sempre disputando campeonatos em cidades da região, especialmente em Itabira e Serro. Nessas idas e vindas, inúmeros casos curiosos, como o de Ronny, um dos melhores jogadores do time. Durante a comemoração de um belo gol, o atacante se surpreendeu ao descobrir ter havido balançado as próprias redes. Coisas do futebol.
 
Boleiros Grisalhos
Para quem gosta de usar a gíria do “futebol coletivo e solidário”, um dos casos notáveis é o do Máster Vinho Velho, de Bela Vista de Minas. Como o nome sugere, a experiência é atributo do time, mas o que mais chama a atenção é o fato de algumas famílias “monopolizarem” as camisas na hora da escalação. Só os Vianna e os Ávila contribuem com oito jogadores: Darci, Dário, Gilmar e Hamilton, pelos Vianna; e Marcondes, Aloísio, Ney e Tãozinho, pelos Ávila.
 
Criado em 1997, o time segue mesmo à risca o dito popular: “Quanto mais velho, melhor”. Pelo menos é o que assegura o meia-armador Sebastião D’Ávila Silva, Tãozinho, de 48 anos. Atualmente, o Vinho Velho conta com 22 jogadores associados, com média de 45 anos. 
 
Os amistosos são frequentes e os atletas já viajaram para jogar em várias cidades do estado. “Após uma crise, em 2008, restringimos nossas viagens e agora jogamos somente em cidades próximas de Bela Vista. A exceção é a partida que fazemos anualmente em Vitória, contra a Siderúrgica Tubarão”, explica Tãozinho.
 
O Vinho Velho costuma inspirar tanta paixão que o forrozeiro Hamilton Viana da Silva, Pixanga — vocalista do Trio Forró e Paixão —, homenageou a equipe com música. No último CD, exalta o time na faixa Farrear é Bom Demais. “Não falamos em Máster Vinho Velho, mas, sim, na família Vinho Velho”, declara o zagueiro forrozeiro.
 
Um dos adversários costumeiros do Vinho Velho é o Máster de Futebol de São Domingos do Prata. No caso deles, os cabelos brancos são pré-requisistos para participar das atividades do clube. São 23 atletas com mais de 50 anos, todos ex-jogadores de clubes amadores da cidade.
 
O compromisso maior é com a busca por novas amizades, mas o esporte também é levado a sério. Tanto que uma diretoria foi montada para organizar jogos de ida e volta com equipes do Médio Piracicaba e Vale do Aço. “É um intercâmbio e os jogadores têm que pagar a praça”, explica o diretor-presidente, Élcio Avelino Coelho, 59, também jogador e técnico da equipe. Todas as despesas das viagens são divididas entre os integrantes. “Após as partidas, escrevemos nossa resenha para registrar como foi o jogo, com direito a um bom churrasco”, diz.
 
De acordo com o vice-presidente do clube, o jornalista Robson Machado, 51, a ideia de montar um time independente surgiu da dificuldade em se encontrar atletas para compor a categoria nos outros clubes da cidade. “O Prata tem três times de máster, que integram também pessoas com 35 anos. Mas sempre acontecia de ficarem desfalcados. Assim, decidimos aceitar somente jogadores acima dos 50 e formamos um novo time”, explica.
 
Foi justamente nesse ambiente de confraternização que Antônio Gricélio Gomes Filho, o Neneca, 50, encontrou forças para vencer o alcoolismo. O aposentado, ala direita, se destaca não somente pela qualidade do futebol, mas pelo exemplo de superação. Há seis anos não bebe e utiliza o esporte como meio de se reintegrar à sociedade. “Antes todo mundo corria de mim porque eu ficava chato quando estava bêbado. Hoje é diferente. Fiz amigos e todos gostam de mim”, afirma.
 
Charme e habilidade
O começo da história do time de meninas de João Monlevade surgiu em junho de 2011, quando se matricularam na escolinha do clube do bairro Vila Tanque. Desde então, os domingos passaram a ser dedicados aos treinamentos, orientados pelo técnico Charles Antônio Aguiar. 
 
Entre dribles e chutes a gol, elas mexem nos cabelos, arrumam os coletes e não perdem a concentração. Aliás, cumprem rigorosamente as ordens do professor. “É muito mais fácil trabalhar com elas do que com os meninos, em função da responsabilidade e persistência. Elas são mais dedicadas”, garante Charles.
 
 Com experiência de 12 anos no esporte, treinando times femininos e masculinos, o técnico revela que suas atletas convivem com a discriminação. “Mas a gente já está conseguindo quebrar esse paradigma. Com charme e beleza, elas conseguem jogar um esporte universal e até melhor que muito marmanjo”, conta.
 
A ala direita da categoria infantil, Ana Clara Ávila de Souza, 12, garante: “Não temo o preconceito e a escolinha nos motiva”. Segura do que deseja para si, ela diz não perder um jogo da Selação Brasileira de futebol feminino e tem a atacante Marta como referência para conseguir realizar seu sonho. “Ela é responsável por ajudar as atletas dessa modalidade a consquistar o respeito das pessoas”, diz a menina.
 
 Também inspirada nas conquistas de Marta, a adolescente Brenda Pereira Gomes, 16, se entregou ao esporte de corpo e alma. Sua primeira tentativa, no entanto, não foi bem-sucedida. No segundo dia de treino torceu o tornozelo ao disputar a bola com uma adversária. “Fiquei duas semanas com o pé inchado. Minha mãe, preocupada, me tirou da escolinha”, lembra a ala esquerda juvenil, hoje focada em ser uma jogadora profissional.
 
 Já Heylamara Débora Dias, 22, mais experiente, tem mantido contato com a bola desde os cinco anos, quando jogava com os meninos de sua rua, no bairro Lucília. Nunca ligou para críticas e demonstrou todo o seu gosto pelo esporte nas aulas de Educação Física da escola, com performances que chamavam a atenção dos professores. O potencial da jovem, capaz de jogar como zagueira, pivô ou ala, em 2004 rendeu-lhe um convite para ingressar na Seleção de Futebol Feminino de João Monlevade. No entanto, não foi seduzida pela oportunidade e diz não ter interesse em se profissionalizar. “Não quis porque eu sempre jogo por amor”, revela.
 
 Com o físico e a cabeça das atletas em dia, o técnico Charles sabe que a tendência do trabalho é melhorar. Sobra tempo para se concentrar na avaliação do potencial de cada uma das meninas, passar os fundamentos básicos do futsal, além do treinamento tático. “Em breve iniciaremos vários desafios. Nossa meta é jogar em alto nível contra equipes de Monlevade e região”, planeja o técnico, confiante no amor que elas dedicam ao esporte.
 
Um time especial
A equipe de esportes da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Itabira, mais do que uma associação esportiva, é um importante meio de socialização para os usuários da entidade. Há alguns meses foram montados dois times de futsal. Ao todo, 24 associados participam.
 
De acordo com o técnico e instrutor de Educação Física, Vanderci Geraldo dos Santos, o amor pelo esporte que todos demonstram é elemento fundamental para provocar mudanças na vida dos alunos. “A capacidade de transformação que o futebol proporciona é muito grande. Eles não têm aquele espírito de competição, jogam porque gostam”, conta Vanderci.
 
Segundo o instrutor, o objetivo do time, além da socialização, é ajudar a promover a autonomia dos alunos, sem abrir mão do aspecto pedagógico. “Dentro das limitações de cada um, todos são capazes de jogar em alto nível”, afirma.
 
Entre os jovens, com leve deficiência intelectual, está Alexandro Tenório Souza, de 24 anos. Ele trabalha como recepcionista na Apae e foi contratado para trabalhar em uma construtora de Itabira, já se mostrando independente e capaz de exercer uma função social. Sua participação no time exercita ainda mais a sua autonomia. Jogando como defensor, a cada dia consegue superar um pouco mais as suas limitações. “É muito bom o esporte, porque vamos pegando o jeito de jogar do outro time e melhorando o nosso”, explica o jovem.
 
O time da Apae joga partidas contra equipes do ensino regular, escolinhas de futebol e equipes de outros projetos. Para Alexandro, os jogos são oportunidades para se fazer novas amizades. “O time adversário ajuda nos jogos, não tem preconceito, joga de igual para igual”, diz o desportista.
 
Outro atleta dedicado é o goleiro Sidney Amorim Fernandes, 32. Portador de Síndrome de Down, faz parte de projetos da Apae desde a infância. Ainda pequeno, desenvolveu o gosto pelo futebol e, de acordo com os orientadores, é muito responsável e faz questão de cumprir todos os horários de treino.
 
 Além dos ganhos no condicionamento físico, o futsal lhe proporciona a elevação da autoestima e melhora a sua interação com a família, mais confiante em suas capacidades. Um exemplo disso é o fato de ele ter viajado a Belo Horizonte para jogos da XVII Olimpíada Estadual da Apae, sem que fosse preciso acompanhantes da família. “O jogo me ajuda muito, pois melhora o meu corpo, consigo correr mais”, diz o goleiro.
 
Ansioso pelas próximas segundas e quartas-feiras, dias em que ele e outros jovens se tornam mais fortes para vencer limitações e preconceitos, Sidney sorri quando é estimulado a se imaginar em quadra disputando uma competição. Ele é mais uma de tantas provas que o esporte é capaz de dar, como sendo um grande caminho para a integração.