Bagagem cheia
Thales já esteve nos EUA como estudante e também como trabalhador temporário. “Fui aprendendo a me virar”
Desejo aprimorar meu inglês, conhecer novas culturas, lugares diferentes e ter um diferencial no meu currículo”. Assim a estudante monlevadense Regislene do Carmo define sua expectativa quanto ao intercâmbio que vai fazer no final de 2011. Ela ficará até março do ano que vem nos Estados Unidos, participando do programa Work Experience (experiência de trabalho).
Ela conta que, já no primeiro semestre, vinha cumprindo os trâmites necessários para concretizar a viagem. “Fui até uma agência de BH para uma entrevista presencial, na qual foi avaliado meu domínio do idioma inglês. Passei por uma entrevista oral e escrita com os avaliadores”, relata. Regislene acrescenta que, para requerer o visto de trabalho temporário nos Estados Unidos, é necessário ter o job offer (oferta de emprego) acertado. Somente em setembro a jovem terá a confirmação de qual será seu emprego e em qual cidade vai morar. Entre outubro e novembro, terá que ir ao consulado americano, em São Paulo, para requerer o visto. A agência contratada apresentará a ela a oferta de trabalho e o valor do salário que vai receber no primeiro emprego fora do país.
Geralmente, quem participa do Work Experience, trabalha na alta temporada de inverno americano, em estações de esqui, resorts e restaurantes, exercendo as mais diversas funções. “É uma ótima oportunidade porque irei conviver com turistas do mundo todo”, explica a futura intercambista. Os participantes saem do Brasil já sabendo se vão morar em local oferecido pelo empregador ou se é necessário alugar alguma casa (república mobiliada) com outros intercambistas.
Para entrar no país, é recomendada a quantia mínima de mil dólares – considerada uma reserva para o intercambista se manter até o recebimento do primeiro salário.
DOSE repetida
O estudante monlevadense Thales Lopes tem apenas 19 anos, mas já é veterano em intercâmbios. Aos 16, ele participou do High School Program, voltado para estudantes. Fez o último ano do equivalente ao Ensino Médio e viveu com quatro famílias em diferentes cidades de Michigan, nos Estados Unidos. No ano passado, ele também participou do Work Experience. “Trabalhei como salva-vidas em um resort/parque aquático. Ao mesmo tempo, era caixa de uma lanchonete”, relata. Thales destaca algumas peculiaridades dos EUA. Lá, por exemplo, não é comum frequentar bares. Nas horas vagas, ia a lanchonetes e shoppings com os amigos. Seu lazer era jogar boliche, ir ao cinema e a festas particulares. “Sair à noite é mais difícil nos EUA. A restrição de bebidas alcóolicas para menores é muito mais severa do que aqui”, conta.
Thales mantém contato com estrangeiros que conheceu nos períodos de viagens. Para o estudante, a estadia em Chicago foi a mais marcante. “Me lembrou um pouco Belo Horizonte e São Paulo, por causa dos prédios. Mas há um diferencial: Chicago é mais organizada do que as cidades brasileiras”, compara.
O estudante foi se adaptando à cultura e ao modo de vida americano aos poucos. O seu primeiro mês foi de choque cultural. No segundo, já estava mais à vontade no novo país e com o povo. Já adaptado ao idioma, foi aprendendo a “se virar”.
Choque cultural
Para o coordenador da escola de idiomas Fisk, de João Monlevade, Jader Souza, é importante que o intercambista procure antecipar informações sobre a cultura do país a ser visitado. O choque cultural pode ser evitado com pesquisas sobre os costumes do local de destino e sobre o perfil da família anfitriã, quando é esse o caso. Jader aconselha organização quanto aos preparativos: “Serão necessários passagem, passaporte com visto do país de destino, cartão de vacina, autorização dos pais ou responsável, histórico escolar, declaração de renda, currículo, formulário de entrevista, fotos e contrato da agência de intercâmbio”, enumera.
Quanto aos custos, o educador esclarece que, na maioria dos casos, é possível recuperar o investimento. Em média, são investidos cerca de R$ 8 mil em programas de experiência de trabalho temporário nos EUA. O intercambista tem condições de, em apenas três meses de trabalho, reaver o dinheiro. Já nos programas de curso do Ensino Médio, chega-se a gastar cerca de R$ 30 mil.
Brasileiros lá fora
Cida Magalhães é proprietária do Number One em Itabira. Ela observa que, no exterior, os brasileiros conseguem se identificar de longe. “É característico da personalidade o comportamento irreverente, que se manifesta em gestos extrovertidos”, descreve. Em 2010, o estudante Vinícius Pires trabalhou nos EUA e conta que no dia seguinte à sua chegada em Nova York, ele e alguns amigos foram fazer um tour pela cidade. “Perdidos no Central Park, num inverno congelante, ouvimos a guia gritar pelo megafone: ‘Brazilian, you are late!’ (Brasileiros, vocês estão atrasados!)”, diverte-se.
A confusão não para por aí. Certa vez, ele e uma compatriota resolveram ir a uma festa brasileira. “A balada não foi das melhores. Não tinha nada de música brasileira”, disse Vinícius. Na volta, eles não encontraram hotel para ficar. Dormiram no chão da Penn Station (estação de trem da Pensilvânia), sendo acordados a cada meia hora por um policial, que perguntava a que horas tomariam o trem.
Os mal-entendidos costumam ocorrer também pelas diferenças na legislação. Por isso, o professor Mauro recomenda atenção aos intercambistas, pois no exterior as leis costumam ser mais rígidas.
Pelado! Pelado!
O professor Mauro Lage, proprietário de uma escola de idiomas em Itabira, já fez intercâmbio nos EUA e passou por situações bastante inusitadas. Certa vez, ele tirou a camisa enquanto caminhava na rua em pleno verão – algo comum no Brasil. Ao perceber todos os olhares em sua direção e os gritos de “Pelado! Pelado!”, ele se viu obrigado a colocar a camisa. Nunca mais repetiu o erro. Também ficou marcado o momento em que foi tirar fotos 3×4. “Achei bastante curioso quando, ao entrar na cabine, a fotógrafa ordenou: ‘Smile!’ (sorria). No Brasil, temos o hábito de tirar fotos sérias. Foi bem diferente”, lembra.