Candidatos despejam fortuna em aviões, publicidade e eventos para ganhar voto

O treino da equipe mirim do Vila Nova Esporte Clube, em Timóteo, no Vale do Aço, já estava atrasado em 20 minutos e nada de o técnico chegar. “Hoje não vai ter treino, falaram que um helicóptero vai chegar”, iniciou a conversa Vitor, de 6 anos. “Mentira”, interveio Caio, de 8. “Um deputado vai descer”, […]

O treino da equipe mirim do Vila Nova Esporte Clube, em Timóteo, no Vale do Aço, já estava atrasado em 20 minutos e nada de o técnico chegar. “Hoje não vai ter treino, falaram que um helicóptero vai chegar”, iniciou a conversa Vitor, de 6 anos. “Mentira”, interveio Caio, de 8. “Um deputado vai descer”, insistiu o colega. “Mas porque não desce na escola? Lá não atrapalhava ninguém”, respondeu. “O helicóptero vai pousar com sua idiotice”, resmungou o subversivo Mateus, de 8 anos. “Se eu soubesse, ficava em casa quietinho”, disse outro. Em meio à indefinição, a criançada decidiu jogar bola. Cinco minutos depois, a aeronave vermelha coberta por adesivos com propaganda eleitoral apontou no horizonte e interrompeu a brincadeira dos garotos, pousando no meio do campo. Os meninos estavam errados, não era deputado. Mas um candidato ao cargo: Renzo Braz (PP), número 1.121, “Trabalho e Renovação”.

A força da primeira campanha da vida de Renzo reside no sobrenome de sua família, dona de 50 concessionárias de carro responsáveis pela venda de 70 mil veículos por ano. Ele pertence ao seleto grupo dos candidatos de campanhas milionárias que percorre o estado despejando dinheiro em publicidade, cabos eleitorais, comitês e eventos com aliados. Diversas vezes sem informar à Justiça Eleitoral, como determina a lei. Renzo estipulou em R$ 5 milhões o limite de gasto na campanha para deputado federal, mas jura ser necessário desembolsar apenas um quinto desse valor até outubro. Estimativa difícil de se concretizar, pela agenda que vem cumprindo nos últimos meses. 

Em um único dia, ele é capaz de percorrer de helicóptero três, cinco, até oito cidades para colher os esperados 100 mil votos distribuídos em mais de 200 cidades que estão no seu alvo. Do Sul de Minas ao Vale do Jequitinhonha, passando pela Zona da Mata, Vale do Aço e Vale do Rio Doce. Os caminhões da empresa de transporte que também pertence à sua família distribuem cartazes, banners e santinhos por todo o estado. Mas, oficialmente, o candidato informou à Justiça não ter gasto ainda um tostão na campanha. “Pode ter havido um erro da contabilidade, gastei sim”, disse o candidato na última quarta-feira em Timóteo, no Vale do Aço, onde desembarcou para um encontro com empresários, aposentados e caminhadas pelos bairros da cidade. 

O deputado estadual Ruy Muniz (DEM) deseja o mesmo cargo de Renzo e também conta com a força do dinheiro para buscar apoio político pelo estado. Para isso, ora usa um avião particular para os deslocamentos, ora vai de helicóptero. Na primeira prestação de contas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Muniz informou ter gasto até o momento apenas R$ 6,8 mil em sua campanha. Nada perto do que tem gasto, de fato, com as viagens pelo estado. Apenas a agenda dos últimos três dias incluiu caminhadas e distribuição de material de campanha em Januária, Salinas, Taiobeiras, Espinosa e Monte Azul, no Norte de Minas, e Capelinha e Minas Novas no Vale do Jequitinhonha. Hoje é a vez de Diamantina, na Região Central. 

Enquanto os dois investem na campanha pelo ar, o vereador Luis Tibé (PTdoB) se concentra na busca de votos por terra. Basta uma espiada nas principais ruas de Belo Horizonte para observar o poderio da campanha que distribuiu toneladas de material pela cidade e conta com uma frota de 40 carros de vários modelos, todos plotados com a imagem e o número do candidato. Oficialmente, ele desembolsou até agora apenas R$ 3,2 mil. A despesa restante, cerca de R$ 160 mil, teria sido paga por outros candidatos. Também com comitê principal na capital mineira, mas disposto a fazer a candidatura a deputado federal crescer por todo o estado, Newton Cardoso (PMDB) declarou ter gasto até agora apenas R$ 35,6 mil na campanha, apesar de já haver material com sua imagem espalhado por várias cidades e aumentar a cada dia a frequência das viagens de helicóptero. 

“Para cada tostão, um milhão”, reclama um dos adversários de Renzo Braz em Muriaé, na Zona da Mata, comparando os gastos de sua campanha com as do iniciante na política. Quando candidatos com dinheiro tomam as bases eleitorais de adversários menos afortunados, a lamentação cresce nos bastidores. “Tenho que fingir que não é comigo e procurar outras bases. O que tá perdido, deixo para lá”, conta um candidato a deputado da região. “Renzo Braz não é paraquedista na política, ele veio para ficar. É casado com a filha do seu Torres, que trabalhou na Acesita, todo mundo lembra dele”, diz o aliado e candidato a deputado estadual, Sérgio Mendes (PSB), ao apresentar o colega a um grupo de aposentados que jogava futebol em Timóteo. 

Ao fim do encontro, um dos espectadores se aproximou e pediu ajuda de Renzo para financiar um micro-ônibus para a cooperativa de trabalhadores da qual faz parte. Dono de concessionárias, o candidato disse que não poderia atendê-lo. “Deixa eu pegar o documento para te mostrar qual é a cooperativa”, disse o homem mexendo na carteira. Uma nota de R$ 10 quase caiu. “Uai, tenho que segurar esse dinheiro, sô”, disse. “Segura não, deixa comigo que a gente precisa pra campanha”, respondeu Renzo de bate-pronto, antes de dar uma longa gargalhada. Apenas ele e o assessor entenderam a ironia do gesto.