Terceira onda permite que minério com baixo teor de ferro seja enriquecido

A alta dos preços do minério de ferro no mercado internacional e o consumo ávido da indústria chinesa dão valor à matéria-prima de baixíssimo teor de ferro encontrada nas reservas do Quadrilátero Ferrífero e do Norte de Minas Gerais, considerada a nova fronteira da mineração no estado. Pilhas de minério pobre acumulado como rejeito e […]

A alta dos preços do minério de ferro no mercado internacional e o consumo ávido da indústria chinesa dão valor à matéria-prima de baixíssimo teor de ferro encontrada nas reservas do Quadrilátero Ferrífero e do Norte de Minas Gerais, considerada a nova fronteira da mineração no estado. Pilhas de minério pobre acumulado como rejeito e camadas ainda intocadas do subsolo, com 20% a 40% de ferro, começam a ser exploradas pela Vale e o grupo Votorantim, tornando realidade uma terceira onda de aproveitamento de grandes jazidas.

Os novos projetos que vão transformar em produto comercializável, dentro de no máximo três anos, milhares de toneladas hoje sem interesse dos compradores, também dependiam do avanço da tecnologia. E, em boa parte, são técnicas desenvolvidas pelos próprios brasileiros. A mineração deixa para trás, assim, a crença de que minério não dá duas safras. Hoje, dá até três. Pode-se dizer que se trata do minério 3.0.

Dos anos 1940 ao fim da década de 1960, a primeira fase da mineração em Minas explorou a hematita, rica em ferro, com teores superiores aos 60%. Com a escassez desse material nos anos 1970, foi a vez dos chamados itabiritos friáveis (que se fragmentam com facilidade) e de baixos teores. Foi a segunda onda. Vencido o desafio tecnológico, a terceira onda cria fonte de receita a partir dos itabiritos compactos, material duro que precisa ser moído para retirada da areia que se acumula junto ao ferro. Em Itabira, a Vale se prepara para fornecer em 2013 o primeiro carregamento dos itabiritos pobres que vão passar por um processo de retirada de impurezas para elevar os teores de ferro de no máximo 40% aos 62% a 65% que o mercado pede e valoriza.

O projeto, batizado de Conceição-Itabiritos, consiste na primeira usina no país de tratamento de minério de baixo teor numa escala gigantesca de 12 milhões de toneladas por ano, informa o gerente geral de operação do complexo Conceição da Vale, Rodrigo Chaves. “Estamos abrindo as portas para outras iniciativas dentro dessa terceira onda de exploração e com menor impacto sobre o meio ambiente”, afirma. A própria Vale estuda o uso dessa tecnologia em reservas que ainda contêm minério mais rico na Região Central de Minas, a exemplo das minas do Pico, Fábrica e Feijão, na região de Ouro Preto, Itabirito e Congonhas, mas que têm no seu entorno áreas cobertas por itabiritos pobres.

Para se ter uma ideia dos preços do minério de ferro valorizado no mercado internacional, o material com teor de 62% de ferro era vendido a US$ 130 por tonelada no mercado spot (à vista) na sexta-feira. A usina da Vale na mina de Conceição vai consumir US$ 1,2 bilhão nos próximos três anos, abrirá 3,2 mil empregos temporários na construção e outros 320 postos de trabalho permanentes na operação e manutenção.

No Norte de Minas Gerais, o projeto da Votorantim Novos Negócios, em associação com a chinesa Hombridge, é explorar minério de ferro com teores de até 20% de ferro, empreendimento que deverá entrar em funcionamento dentro de quatro anos. O minério deverá sair da usina de beneficiamento com 65% de ferro, atendendo a demanda no mercado internacional, segundo o diretor executivo da empresa, Haroldo Fleischfresser. “Nossa parceria com o consórcio chinês – o grupo é integrado, ainda, pela Xinwen Mining – envolve tecnologia nova já disponível e capital”, afirmou o executivo.

Vida últil

A nova tecnologia que enriquece o minério pobre em ferro permite, ainda, a ampliação da vida útil das minas. Em Itabira, a Vale definiu seu horizonte de exploração em mais 50 anos – pelo menos. “Agora, falamos em 50 anos. Pode ser que daqui a uma década, a vida das reservas seja mais longa. O mercado de consumo e a rota tecnológica de aproveitamento do minério é que vão ditar esse tempo”, afirma. “Minas tem os melhores centros de desenvolvimento de tecnologia mineral no país – a Fundação Gorceix e a UFMG”, diz Fernando Coura, presidente do Sindiextra, o sindicato que representa o setor.

Além da Vale e da Votorantim, há mais dois exemplos de mineradoras envolvidas no desenvolvimento de tecnologia para aproveitamento de minérios pobres, a Anglo American, em Conceição do Mato Dentro, na Serra do Espinhaço, e a Kinross, multinacional do segmento de ouro, no Noroeste de Minas. Em Itabira, o projeto da Vale mostra também ganhos ambientais. A nova usina será alimentada pelas pilhas de minério de ferro pobre, que foram acumuladas nos últimos 25 anos, como material estéril.