Denúncia de abuso sobe 46%, mas 90% das vítimas se calam
FOTO: rodrigo clemente Frieza. Ao ser preso ontem, Valdeci Nunes Oliveira disse que eram as vítimas que o incitavam rodrigo clemente Frieza. Ao ser preso ontem, Valdeci Nunes Oliveira disse que eram as vítimas que o incitavam O cenário para atrair as vítimas não podia ser mais propício: uma sorveteria – lugar preferido de […]
O cenário para atrair as vítimas não podia ser mais propício: uma sorveteria – lugar preferido de tantas crianças e adolescentes. O que o proprietário do local não imaginava é que uma de suas vítimas iria superar o medo e denunciá-lo.
O testemunho de um garoto de 15 anos com problemas mentais foi fundamental para que Valdeci Nunes de Oliveira, 49, fosse preso por pedofilia. Ele confessou ter abusado de outros dois meninos de 12 anos no bairro Cabana, na região Oeste da capital. Sobre ele ainda pesam outras seis suspeitas de abuso sexual contra menores.
O número de denúncias de crimes sexuais contra crianças e adolescentes recebidas pelo "Disque Denúncia" do Estado cresceu em 46% nos primeiros quatro meses deste ano se comparado ao mesmo período de 2009 – passando de 888 para 1.298.
Hoje, no Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, o número positivo ainda não pode ser comemorado. Embora pareça alto, representa apenas 10% das crianças vítimas de algum tipo de abuso em Minas Gerais.
Isso porque, segundo estimativas de especialistas, há uma subnotificação de aproximadamente 90% nesses casos.
A data é uma forma de chamar a sociedade para participar dessa luta, denunciando abusos contra crianças. "A subnotificação é alta porque esse tipo de violência ocorre em um ambiente privado, fechado. O vizinho até percebe que está acontecendo algo, mas acha que é um problema daquela família, que não deve intrometer", explica a subsecretária de Direitos Humanos, Maria Céres Pimenta.
Para a psicóloga da Associação Municipal de Assistência Social (Amas) e técnica da equipe executiva do Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual (Pair), Célia Nahas, outra explicação para a subnotificação é o medo. Muitas pessoas temem ser identificadas como as denunciantes e sofrer retalhações por isso.
"O abuso sexual pode estar ligado com o tráfico ou estar em um núcleo familiar extremamente violento. E isso assusta", explica.
Na capital, o número de crianças vítimas de abuso sexual também é alto. De acordo com dados da prefeitura, de janeiro a agosto de 2009 foram atendidos 1.030 casos de violências, sendo que 90% das denúncias foram de abuso sexual e 10%, de exploração sexual.
Meninas negras, pardas e desfavorecidas economicamente são as maiores vítimas de exploração sexual (90%) no país. De acordo com Célia Nahas, a melhor arma na luta contra essa realidade é a denúncia, que pode ser via conselhos tutelares ou também pelo telefone 08000 311119.
Durante depoimento no 19º Distrito da Polícia Civil, o comerciante Valdeci Nunes de Oliveira, 49, confessou ter tido relações sexuais com pelo menos três menores, no bairro Cabana, região Oeste de Belo Horizonte. Segundo o pedófilo, eram as vítimas que o incitavam e ele não pedia nada em troca dos favores sexuais.
"A impressão que eu tive é que ele não reprova o próprio ato. Pelos detalhes que contou, ele não achava que estava cometendo crimes", revelou o delegado Milton Jerônimo Paulo, que está à frente das investigações.
Para o delegado, a sorveteria era o principal meio que o réu confesso usava para atrair as vítimas, todas do sexo masculino. "Ele não usava de violência. Conquistava a confiança dos garotos e, por meio de uma falsa amizade, os obrigava", relatou Paulo. (TR)
Você sabia que poderia ser preso por pedofilia? Eu não pedia nada para esses meninos. Eles é que vinham na sorveteria e se ofereciam para mim. Tinha um que até ameaçava chamar a polícia se eu não fizesse o que ele queria. Acho que eles ficavam sabendo que eu gostava e me procuravam. Eu não precisava nem convidar.
Mas você acha normal se relacionar com crianças? Eu nunca fui de sentir prazer com mulher. Com homem eu tive alguns relacionamentos, mas também não gostava muito. Há uns três anos eu comecei a ter relacionamentos com crianças e descobri que eu gostava mesmo era de ver meninos sentindo prazer. Achava isso normal, mas eu nunca fiz nada que eles não quisessem.
De acordo com a polícia, você veio para o bairro Cabana há cerca de dez anos e usava a sorveteria para atrair suas vítimas. É verdade? Eu não montei a sorveteria para isso. Sempre fui comerciante, eu já tive locadora e bar. Depois que eu fiz um curso sobre sorvetes, eu descobri que o mercado era bom e resolvi investir. Como qualquer outro comerciante faria. Os meninos é que vieram até mim, não fiz nada para atraí-los.
Mas por que você pedia para que os meninos não contassem para ninguém o que acontecia no banheiro do seu estabelecimento? Por que eu imaginava que os pais deles não iam gostar de saber. Eu também não queria que minha família descobrisse. Eu sempre sofri muita cobrança de arrumar uma mulher, de ter família, de ser uma pessoa normal.
E agora, o que você sente? Eu entendo que errei e vou pagar por isso. Sinto muito medo, não quero morrer na cadeia.
Está arrependido? Acho que sou uma pessoa doente. Descobri que meu gosto não é normal.
