Lixo: a riqueza do futuro

Última parte da missão em São Paulo: empresários paulistas e itabirano com o “cientista do lixo”, Giuseppe Betti

Tivemos os ciclos do Ouro, dos Diamantes, do Minério de Ferro. Agora chegou a vez do Ciclo do Lixo. Dois dias — 1º e 2 de março — foram suficientes para se chegar a essa conclusão inarredável e ter-se a certeza de que o fim das máfias que comandam os detritos nas grandes cidades brasileiras está próximo. Os motivos principais: não há lugar para se colocar mais sujeiras, que contaminam a alimentação, o ar e a água; cresce dia a dia a consciência ambiental; desenvolvem-se rapidamente tecnologias para transformação do lixo em riquezas que geram emprego e renda; cresce assustadoramente o número de municípios saturados, ou seja, onde não há mais espaço para depositar o lixo.
 
Sai na frente o setor privado, a maior prova de que lixo é dinheiro. Na Grande São Paulo e no Estado propriamente dito, a reportagem esteve em Santo André, Guarulhos, Mauá, na Capital e em Praia Grande, município situado a 60 quilômetros do centro da maior cidade brasileira. Visitou um Aterro Sanitário, solução que está saindo de moda, em recuperação, em Santo André; esteve em indústrias automatizadas de transformação de entulhos, plásticos e pneus em objetos de valor; finalmente, conheceu um processo de transmutação do lixo simples, misto, em gás puro para abastecer automóveis.
 
O MILAGRE DE PRAIA GRANDE
 
Praia Grande, município do litoral paulista, na região de Santos, Guarujá e outras procuradas nos finais de semana, principalmente pelos paulistanos, tem 249.551 habitantes e 149 km² de área territorial, segundo o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). DeFato, em companhia do empresário itabirano Sérgio Amaral, foi levada por diretores da Brasivet Ambiental, a conhecer um “cientista” italiano, que mora na cidade há décadas. Giuseppe Bretti, 68 anos, casado, pai de três filhos — dois deles morando e trabalhando no Canadá — nasceu em La Spezia, Itália, veio para o Brasil quando tinha seis anos de idade e, com o pai, deu passos profissionais até a morte do genitor. E continuou o seu trabalho.
 
Ele é dono da Dinamyk Indústria, Comércio e Serviços Ltda., empresa fundada em 1976, cuja especialidade é “tecnologia de soluções”. A Dinamyk, depois dos estudos concluídos, patenteou, em 1978, a sua usina para transformar o lixo em gás. Mas o próprio proprietário da empresa, que trabalha com o terceiro filho — este está de malas prontas para ir, também, para o exterior —  e outros "braços direitos", garante que a solução para o grave problema que assola hoje o mundo inteiro, é ainda mais antigo.
 
No Brasil, colocando a mente para funcionar e com apenas o curso médio, além de alguns meses frequentando aulas de Administração numa faculdade, Beppi, como é conhecido, trabalha numa pequena oficina em Praia Grande, onde desenvolve os seus projetos. Em uma longa entrevista, que DeFato publicará na edição 207, de março, ele conta como nasceu a solução encontrada para o lixo — transformação de detritos orgânicos misturados com madeira ou árvores jogadas fora — em gás puro para abastecer automóveis.
 
Tudo começou nas suas observações sobre as energias utilizadas nas duas grandes guerras mundiais que a humanidade já enfrentou, passando por projetos já feitos para o governo federal sobre o aproveitamento de madeiras jogadas fora, que descem em rios, na Amazônia.
 
No momento, Giuseppe Betti executa um projeto especial para a Jonshon & Jonshon para aproveitar resíduos poluentes das fábricas e tem, também, em andamento, discussões para fazer um protótipo de usina sob encomenda de empresa terceirizada da Rede Globo.
 
Além da entrevista, o italiano naturalizado brasileiro, fez uma demonstração de como transforma, em questão de segundos, o lixo em gás puro e ainda mostrou um motor abastecido com a matéria-prima de lixo orgânico, que ele pega nas ruas de Praia Grande, misturado com outros detritos advindos de poda de árvores e de madeiras descartadas.
 
CONCLUSÃO DA MISSÃO
 
Falam que São Tomé para acreditar precisou ver. DeFato acreditou desde o primeiro minuto de que existe uma solução para os lixos que poluem cidades. Mas precisava ver para fazer crer, pois, afinal, todo mundo pensa diferente. Além de ver que existe a solução para o lixo, a reportagem concluiu:
           
            — desde a implantação do Aterro Sanitário de Ipatinga, visitado por DeFato em 1996, já se sabia que as cidades ficariam saturadas (o grande modelo ipatinguense se localiza no município de Caratinga);
            — a construção do Aterro Sanitário de Itabira, emperrado não se sabe por qual razão — o projeto faz parte das condicionantes da Licença Operacional (LOC) da Vale e é a número 1 — virou um Lixão escandaloso (a poluição dos lençois freáticos é incalculável);
            — Belo Horizonte, que se prepara para a Copa do Mundo de 2014, naquela ano, segundo estudiosos, não terá mais lugar para armazenar os seus detritos, que representam hoje um crime ambiental sem tamanho;
            — São Paulo, incluindo os municípios da sua região metropolitana e outros, de distância média de 100 km, é um modelo do caos que se avizinha;
            — ao mesmo tempo, São Paulo é um laboratório para ser observado até por quem não tem percepção, para se saber que a Máfia do Lixo tem que parar de agir e de impedir marcha da inteligência que Deus deu ao homem para esse mesmo homem viver bem;
             — o lixo é a nova riqueza que vem aí e de valor incalculável;
            — ele vira produtos de valor no mercado e, consequentemente, gera impostos, emprego e renda;
            — está na hora de todos os municípios brasileiros — e Itabira, principalmente, que tem fama de ser um dos pioneiros em aproveitamento do lixo descartável — se unirem, região a região, para se chegar a um denominador comum que DeFato viu e vai mostrar a quem desejar.
 
Para a reportagem, que tem dados que considera valiosos, depois de percorrer 530 quilômetros dentro do estado de São Paulo, o homem bem poderia parar de falar em pessoa, candidatos, ambições políticas e mudar o rumo para discutir soluções que interessam ao bem comum e que sejam produtivas. Os problemas do mundo, todos mesmo, têm solução. O homem, junto com o lixo, precisa se reciclar.