A etimologia escancara o nepotismo do prefeito de Itabira
Confira o novo texto do colunista e jornalista da DeFato Online, Fernando Silva

A etimologia é uma área muito atraente da gramática. Essa disciplina pesquisa a origem e o desenvolvimento das palavras, ao longo da história. É um estudo fascinante. Os vocábulos parecem ter vida própria. São como pessoas. Nascem, crescem e morrem. Alguns têm existência efêmera. São modismo passageiros, a maioria neologismo criado na cultura popular ou fruto de campanhas publicitárias. A nova geração desconhece termos como bocomoco, cafona, bocó ou chumbrega.
Os dicionários também são depósitos de inutilidades. Milhares de palavras permanecem adormecidas no recôndito do volumoso livro. Ninguém as usa. Muitas não passam de múmias egípcias. Não prestam nem para nomear obscenidades cotidianas. Certos vocábulos foram estrelas de uma época distante, mas paulatinamente (eis aí algo fora de moda) desapareceram na inevitável bruma do tempo. Um dia tudo finda, até mesmo as palavras.
Na atualidade, “nepotismo” virou estrela de primeira grandeza. Brilha como nunca na mídia. Fala-se muito nessa expressão, hoje em dia. Nepotismo é mal visto. É péssima companhia para homens “públicos”. A Justiça até tenta livrar alguns mandatários dessa infame presença. A mulher de olhos vedados, porém, se perde em devaneios. Noves fora as evasivas.
Legalmente, até que ponto o nepotismo é admissível? As respostas dos magistrados são cheias de dúvidas e contradições. Em alguns casos, pode. Em outros, talvez. Em determinados locais, é permitido. Acolá, é improbidade. Os “renomados” ministros do STF pouco decidiram sobre a “complexa” ladainha. Não conseguiram formar jurisprudência a respeito. Ainda assim, a coisa é indecente e imoral.
Atitudes práticas, às vezes, ajudam no entendimento desse cabide de emprego familiar. Veja um exemplo bem provinciano. O novo prefeito de Itabira foi a mão na roda para a demonstração dessa lengalenga. Marco Antônio Lage nomeou um sobrinho para chefe de Gabinete. A decisão é compreensível. Afinal, chefes de Gabinete são anjos da guarda dos mandarins das cidades. Os dois (prefeito e chefe de Gabinete) são parceiros em compartilhamentos de importantes documentos oficiais. É um relacionamento de extrema confiança.
A presença desse parente em primeiro grau- no escalão superior do poder- caracteriza uma prática nepótica? Talvez, sim. Talvez, não. O MP continua na muda. Não se manifesta a respeito. Então, aparentemente, está tudo bem.
Mas, e etimologicamente? Nesse caso, o tal “Novo Marco” pisou na bola. A nomeação do sobrinho configura claro nepotismo. Observe o seguinte: o vocábulo tem a sua origem no italiano “nipote”, que significa sobrinho. A história é interessante. Na idade média, um padre era nomeado bispo pela “Santa Sé”. Logo que assumia a função, o novo titular da mitra diocesana tratava de arrumar empregos para todos os seus sobrinhos (nipoti) nas igrejas da sua prelazia.
Está claro: nepotismo é “boquinha” pra sobrinhos. Então, pode-se afirmar: o prefeito de “Mato Dentro”- tio do chefe de Gabinete- praticou um clássico nepotismo, independente da opinião da Justiça.
E, só para intrigar e instigar: como se classifica a desenvoltura de certa primeira-dama, de uma “cidadezinha qualquer”, com plenos poderes, ainda que sem cargo oficial: nepotismo ou eminência parda?
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.
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