A hora do SKATE

Maylson faz manobra na Praça do Rotary, uma das referências na cidade

A hora do SKATE

No fim da década de 1960, o skate chegou ao Brasil como uma novidade trazida por filhos de diplomatas americanos, e foi batizado, inicialmente, como surf de calçada. Mais de 40 anos depois, o esporte ainda ganha adeptos em todo o país. Segundo a Confederação Brasileira de Skate (CBSk), são quase quatro milhões de praticantes.

Itabira também faz parte desse universo. Maylson José de Oliveira, 19, é mais um entre centenas de adeptos. Ele pratica o esporte há cerca de cinco anos. No início, sem o consentimento da mãe, comprou o equipamento que viria fazer parte daquilo que chama de sua “filosofia de vida”. Pelo menos três vezes por semana, o jovem pode ser visto na Praça do Rotary, na pista do bairro Juca Batista e em outros locais do centro da cidade fazendo suas manobras radicais.

O skate debaixo dos braços, roupas largas, boné e uma linguagem peculiar fazem parte do estilo de sua tribo. “Estamos unidos em busca de cada dia melhorar nosso desempenho, com o compromisso de fazer o que realmente gostamos, respeitando as pessoas e os lugares por onde passamos”, diz o esportista.

Uma prova do crescimento do número de adeptos na cidade (ainda sem estimativas oficiais) é a implementação do projeto Fé Radical. Há cerca de três meses, a Associação Metodista de Assistência Social (Amas) e a Associação dos Skatistas de Itabira (Askita) firmaram parceria para difundir a prática do esporte, com enfoque, também, no estudo bíblico. Os beneficiados são crianças e adolescentes da cidade e região. No Fé Radical, antes de cada treino — realizado às segundas-feiras, entre 18h30 e 20h30 —, os praticantes se reúnem para receber orientações. “Além de aplicar as regras do esporte, lemos uma passagem da Bíblia e refletimos. Passamos ainda valores como disciplina e normas de conduta fora das rampas. No fim, fazemos orações”, explica o coordenador da Askita, Vítor Martins.

De acordo com o regimento da associação, para ser integrante do projeto é obrigatório que o jovem esteja matriculado e tenha bons resultados na escola. Eventos com a finalidade de interação estão na programação do projeto, como palestras educativas, festas da comunidade e, principalmente, competições. Segundo Vítor, na cidade existem duas minirrampas: uma no bairro Campestre e outra no Praia, além da pista mais completa do Juca Batista, de grande porte.

Problema a ser resolvido

“Na faculdade, um professor perguntou qual a coisa de que mais tínhamos orgulho de ter feito na vida. Enquanto todos responderam que era fazer Medicina, respondi andar de skate”. A afirmação é do itabirano Samir Ferreira de Brito, 31, empresário do ramo do skate e estudante de Medicina. A resposta inusitada veio do fato de ele se dedicar, há 17 anos, ao esporte. Mesmo morando em Patos de Minas, Samir não deixa de vir a Itabira a cada 15 dias para administrar seu negócio e, claro, dar seu rolé. O skatista vê a cidade como um cenário favorável para a prática do esporte. “As pistas têm ótimas medidas, dentro dos padrões profissionais. A do bairro Juca Batista é uma das maiores e mais bem projetadas do Brasil. Em Minas Gerais está entre as cinco maiores, com 1.005 m2”, explica.

O itabirano participou de vários campeonatos em Minas Gerais, entre 1996 e 2011, conquistando alguns títulos. Porém, não há só elogios a fazer. Justamente o melhor ponto para a prática do esporte, a pista do Juca Batista, segundo Samir, frequentemente fica cercada de mato alto, o que dificulta o acesso ao local, com risco de proliferação da dengue e de animais peçonhentos, além de se transformar em reduto para usuários de drogas, à noite. “A iluminação durou um ano e meio, enquanto havia vigilância noturna. Nós, praticantes, e a Associação dos Skatistas do Juca Batista já gastamos muito em manutenção. No entanto, toda vez que consertamos, ladrões levam a fiação e até o relógio do padrão. Por isso, não usamos mais o local à noite”, revela.

De acordo com o secretário municipal de Esportes e Lazer, Oldeni José dos Santos, a Prefeitura tem por regra repassar a administração de quadras de esportes e afins às associações de bairros. Sendo assim, a Associação dos Amigos do Bairro Juca Batista é a responsável pela manutenção da pista. O secretário também informou que a capina havia sido realizada no início do mês. Já em relação aos vândalos e aos roubos, Oldeni afirma que não há previsão de contratação de um vigia.

Já o vice-presidente da Associação de Moradores do bairro Juca Batista, Juvenil Dias, diz que tal responsabilidade jamais foi repassada. “Não há nenhum convênio assinado. Compete, sim, à Prefeitura, já que a obra foi construída com recursos públicos, com ajuda da iniciativa privada. Seria realmente importante que houvesse um vigia, pois lá é ponto de usuários de drogas, prostituição, depredação e alunos que matam aula”, denuncia.

A Polícia Militar (PM), por sua vez, informa que o trabalho de patrulhamento é feito de forma efetiva não só no Juca Batista, mas em todos os bairros da cidade. O trabalho, segundo a polícia, é intensificado na medida em que são identificadas as áreas de maior ocorrência de crimes. A PM pede à população que denuncie as ações suspeitas. Isso pode ser feito pelo 190 ou pelo 181, Disque Denúncia, no caso de o denunciante não querer se identificar. 

Enquanto a questão não se resolve, os mais interessados são vistos com cada vez mais frequência compondo o cenário urbano. Às vezes, dividindo espaço com carros e pedestres, mas sem deixar a paixão pelo esporte de lado.