“A maior angústia é ver a escola vazia”

Secretário municipal de Educação, José Gonçalves Moreira, fala das dificuldades enfrentadas durante a pandemia do novo coronavírus

“A maior angústia é ver a escola vazia”
Secretário Municipal de Educação, José Gonçalves – Foto: Carol Vieira/DeFato

Entrevista publicada na edição 73 do Jornal DeFato Cidades Mineradoras

A pandemia da Covid-19 mexeu para valer com o setor da educação. O isolamento social imposto pelo novo coronavírus mandou os alunos para casa e forçou professores e dirigentes a se adequarem a tecnologias que muitos ainda não tinham usado no ensino. Para o secretário municipal de Educação de Itabira, José Moreira Gonçalves, a principal angústia destes tempos é ver as escolas vazias. Na entrevista a seguir, o professor, ex-diretor escolar e atual responsável pela pasta que define os rumos do ensino básico na cidade fala das mudanças provocadas pela pandemia, de como espera o futuro e de outras dificuldades. Leia!

O que tem sido mais difícil neste período?

O processo de educação é sempre difícil. A arte de ensinar uma pessoa não é fácil. E com a Covid, com esta pandemia que está nos assolando, isso fica ainda mais difícil. Hoje, neste momento, a coisa mais difícil é ver as escolas vazias. As escolas estão fantasmas. Você tem a escola, mas não tem o aluno; tem a creche, mas a criança não pode usar. É um desespero geral. Uma angústia. O que eu posso dizer é que a angústia talvez seja o mais difícil disso tudo. É a perda da escola, a perda do emprego, enfim, é a perda do sentimento de união de todos nós, mas que a gente tem que procurar manter vivo. Porém é das dificuldades, costuma-se dizer, é que nascem as soluções para os problemas.

O que tem sido feito pela secretaria para minimizar os impactos neste período de pandemia?

A Secretaria Municipal de Educação, ouvindo toda Prefeitura e diante desta pandemia, tem procurado se reinventar, usar uma maneira de trabalhar que até então a gente não havia experimentado. Então, a gente vem trabalhando com o chamado ensino remoto. Temos mandado os cadernos de exercícios para as casas, onde a criança faz esses exercícios e terá que devolvê-los prontos. E, aliado a isso, a gente tem aprendido a trabalhar com a internet, a trabalhar com as novas tecnologias. Nós estamos gravando aulas para colocar no Facebook, que é um instrumento, e mantendo grupos de whatsapp para ter o contato. Estamos também gravando CDs para entregar há alguns alunos onde a internet não chega e onde há aparelho desse tipo. E, por fim, estamos recuando um pouco ao passado: vamos recorrer ao rádio. Vamos usar as ondas do rádio para chegar em pontos da cidade onde nenhum outro meio chega. Estamos gravando a Escola no Rádio para poder transmitir em breve.

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Especialistas têm avaliado que a Covid-19 escancara ainda mais o abismo entre o ensino público e o privado. Concorda com essa observação?

Sem dúvidas. Esta doença deixou ainda mais clara esta grande barreira, ou este grande abismo, que há entre escolas públicas e escolas particulares. Na escola privada, as pessoas que lá estudam, além de terem um padrão de vida melhor, com mais recursos, estão em escolas que são redes menores e que possuem mais recursos justamente porque o aluno paga por isso. Então, essas instituições possuem instrumentos que nós, das escolas públicas, que são redes muito maiores, ainda não conseguimos atender. Aliás, falta-se neste país um projeto nacional de desenvolvimento. E quando eu falo de projeto de nação, falo que nós temos que ter um projeto de desenvolvimento de estrada, de energia, de indústria, de comércio interno e externo, e uma educação que seja planejada por, no mínimo 30 anos. A China está colhendo os frutos do desenvolvimento hoje porque lá atrás, desde 1970, fez um planejamento de 30 a 40 anos. Não importa qual seja o governo, o que importa é dar continuidade a uma linha de trabalho. E nisso o Brasil falha demais.

Há uma previsão de retornar com as aulas na rede municipal em Itabira? Como tem sido essas discussões?

Realmente não há uma previsão de retorno às aulas. Enquanto esta doença estiver se espalhando, enquanto não se acalmar, enquanto a curva de crescimento não baixar, não tem como retornar às aulas presenciais. Estamos aguardando, inclusive, uma comissão, que foi criada pelo Governo do Estado, que dará uma resposta no dia 27 deste mês com uma preliminar de como seria essa flexibilização. Mas isso também vai depender do avanço da doença, depende da Saúde. Já está se falando até mesmo de não ter Carnaval no ano que vem porque ainda não existe a vacina. Então, eu não vejo, neste momento, um retorno breve para as aulas.

Acha que este período de pandemia poderá provocar mudanças mais profundas na educação do futuro?

As mudanças vieram para ficar. Estamos mexendo mais com o computador, com a internet e com os novos meios de comunicação. Isso não vai acabar quando a covid terminar. São novas ferramentas e cada vez mais haverá mudanças. É um alerta para que esse novo ministro das Telecomunicações (Fábio Faria) trabalhe para que a internet chegue à casa de todos os brasileiros. E, do mesmo jeito que todos os brasileiros têm uma televisão, um fogão e uma geladeira em casa, o computador precisa ser importante também. Mas isso depende de uma política federal. O computador tem que fazer parte da vida das pessoas, mas, para isso, nós temos que ter distribuição de renda e acesso para a população. Daí vem a geração de emprego e outros quesitos mais. É aquilo que eu falei lá atrás: falta neste país um planejamento de curto, médio e longo prazo.

Todas essas movimentações no MEC, com saídas e chegadas de ministros, impactam nas gestões dos municípios?

Sobre o MEC, nós não podemos esperar nada. Nós já estamos no quarto ministro da Educação e até hoje, por parte do governo federal, não veio nenhuma orientação, de espécie alguma. Acabaram com o projeto de alfabetização dos governos anteriores e não colocaram nada no lugar. Em Itabira, nós, da Secretaria Municipal Itabira, desenvolvemos o nosso projeto de alfabetização, que iríamos colocar em prática agora, mas veio a Covid e interrompeu. Mas, com relação ao MEC, está deixando o Brasil órfão. Estão brincando de serem ministros da Educação. Quatro ministros em um ano e meio e nenhuma orientação, seja sobre a Covid, seja sobre flexibilização, formação de professor, cursos, como atuar, séries finais… nada. O MEC só existe de fachada no momento. Eu nunca vi, nestes meus 25 anos enquanto professor, o MEC inoperante como está agora. Nós temos a discussão do Fundeb, que é o fundo que patrocina a educação e está para terminar neste ano, e em momento algum o MEC abordou este assunto. Espero que este novo ministro (Milton Ribeiro) que entrou agora, que é ligado à Universidade Mackenzie, que é uma universidade antiga no Brasil e de alto nível, possa começar a dar um rumo.

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