A noite de Fernando Silva em Itabira

Fernando Silva autografou centenas de livros, vendidos ao preço simbólico de dez reais

 Nada de caras fechadas. Suspense? Nem pensar. Apesar do maior número de homens, as mulheres presentes não demonstraram insegurança. Afinal, a crônica que deu nome ao livro, lançado por alguns de seus amigos, já tinha sido publicada na imprensa local há cerca de dois anos. De curiosidades mesmo foi o discurso lido do autor, que deteve o público em bons momentos de deleite e acabou se constituindo como mais uma de suas peças raras.
 
A Casa de Drummond jamais sorrira tanto, era comentário geral. Se o poeta nela estivesse haveria de dizer: “Nem tão orgulhosos somos, nem tão de ferro assim”. Outras personalidades citadas na noite, como Guimarães Rosa, Machado de Assis, Vitor Hugo e até Maquiavel, não tanto concordariam com a radical humildade do autor de “Sou um homem infiel” (112 páginas, 320 Assessoria & Criação, Belo Horizonte, 2008, R$10,00) reais. Até o preço do exemplar traduz a modéstia do jornalista, assessor de Comunicação da Prefeitura de Itabira, que ele próprio justificou: trata-se de uma editoração e edição patrocinadas por amigos.
 
Além do prefeito João Izael, que saudou os artistas da terra e mencionou seu orgulho em receber elogios noutras cidades — a última foi Itajubá, que reverenciou Itabira, recentemente, na festa de aniversário da Unifei — estiveram presentes, em grande maioria, jornalistas da cidade e mineiros, dentre os quais Carlos Felipe, Maria Helena Linhares e Chico Maia, além de artistas, como Newton Baiandeira, que abriu o evento e deleitou todos com “O Trem que leva Minas” e a itabiraníssima Rosa Márcia, a chave de ouro da solenidade, sem contar o artista Ângelo Pagnataro e outros também artistas e intelectuais. Presenças importantes: da esposa Maria Áurea Magalhães Silva e de familiares.
 
Para dar um toque ainda mais destacado à simplicidade, o artista itabirano, destaque do teatro local, Gilberto Pelluchi, declamou e “deu mais vida” à crônica principal do livro, que está na página 91.
 
DISCURSO DE SIMPLICIDADE
   
Fernando Silva não é um escritor ainda. Quem o disse foi ele próprio. Apesar de suas crônicas semanais publicadas no Diário de Itabira e no site Via Comercial, as quais chamou de “abobrinhas”. Na abertura de sua fala chamou a atenção por lembrar um velho axioma: “Uma pessoa só se sentirá plenamente realizada quando fizer um filho, escrever um livro e plantar uma árvore”. Amante das árvores, nunca plantou sequer uma, “não tenho filhos, pelo menos oficialmente” (gargalhadas no ambiente). Mas e o livro? “Jamais, até então, tive a ousadia de escrever um livro; sentia muita vergonha em cometer tamanho acinte”. E confessa que o livro foi de iniciativa do jornalista Vanderlei Timóteo, que o prefaciou, e da participação dos amigos João Izael, Sebastião Campos e Peron Colombo.
  
Mas o autor não receia em dizer que foi ou é íntimo de artistas, intelectuais, religiosos, livres pensadores, estudantes, políticos que transitam ou transitaram pela praça Tiradentes, em Ouro Preto, sem se intimidar em completar que também mendigos, bêbados, loucos e prostitutas.
 
Aguardado por alguns ainda incompletos na declaração do nome da obra, Fernando Silva explicou a razão de ser “um homem infiel”: “Na verdade, aqui se fala da infidelidade de um coração dividido entre Ouro Preto e Itabira”. Mas também para amainar a sua exagerada modéstia, outra confissão: de que convive cotidianamente com os seguintes companheiros de cabeceira: Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Tolstoi, Vitor Hugo, Heminguay, Maquiavel, Balzac e Saramago.
  
O coquetel, servido durante os momentos em que o autor autografava a obra, serviu para alongar a descontração numa noite muito aguardada e que, afinal, se completará, em breve, em dada ainda a ser escolhida, em Ouro Preto, terra natal do itabirano-ouro-pretano Fernando Antônio Silva.