Amantes do bom e velho Fusquinha

O médico José Luiz Scaglioni e seu inseparável Fusca vermelho “Ferrari”

Amantes do bom e velho Fusquinha
Ele sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, à concorrência dos carros confortáveis e continua despertando emoções por onde passa. Conhecido como Besouro, Barata, Porsche Bolha ou simaplesmente Volks, o Fusca carrega ao longo de décadas histórias e mais histórias envolvendo gerações. Quem nunca teve um Fusca na família, provavelmente conhece alguém que tem. É o carro mais querido do Brasil, não há outro.
 
De mecânica simples (há quem diga que ele tem pelo menos 280 peças a menos que outros carros populares), o Fusca tem fama de valente. Não enjeita barro, poeira, nem estrada esburacada. Seus defensores comentam que, se os pneus estiverem bons e o motorista for destemido, até 4×4 fica com inveja.
 
Em Itabira, vez ou outra os membros do Clube do Fusca se reúnem para exibir seus modelos. Um desses encontros aconteceu no dia 28 de fevereiro, na Praça do Areão. Veio gente de tudo que é cidade. Além dos fusquinhas, Opala, Maverick, jipes, TL e outros carros de épocas foram exibidos sobre o gramado da praça e em frente à concessionária da Fiat. Colecionadores e apaixonados pelos veículos bateram papo, trocaram experiências, deram entrevistas, posaram para fotos e contaram histórias. Um evento para apreciar.
 
Parte da família
O personal trainer Jefferson Luiz Clemente Ferreira, membro do Clube do Fusca de Itabira, tem um 1978 que faz parte da família desde que ele era criança. “Era a condução do dia a dia”, conta ele. Mesmo antes de tirar a carteira de motorista, Jefferson ajudava o pai a manter o automóvel em dia e sempre brilhando. Assim que conseguiu a CNH, em 2008, Jeffinho assumiu o carro em definitivo.
 
O jovem conta que já passou muitos perrengues ao bordo do Fusquinha: um enguiço aqui, um imprevisto ali… Em uma das ocasiões, ele colocou sete pessoas dentro do veículo (isso mesmo, sete pessoas) e foi passear no Real Campestre Clube. Na volta, o carro furou um pneu e não tinha estepe.
 
O carro de Jefferson é mais de 90% original. Só não é 100% por causa dos acessórios de época que dão uma customizada no veículo. Ele conta que recebe frequentemente proposta de vender, mas recusa de imediato. Já recebeu oferta de R$ 13 mil no carro.
 
Amor antigo
Dono de oficina de lanternagem, Jaime Magela Mendes comprou seu primeiro e único Fusca há oito anos. O carro estava meio “caído”, precisando de um trato. Profissional da área, Jaime investiu tempo e dinheiro numa reforma completa. Ele mesmo fez o serviço, atento a todos os pequenos detalhes. O carro ficou “zero” de novo. “Isso aí é amor antigo. Há muito tempo que eu gosto de Fusca”, afirma o empresário.
 
Sempre brilhando, o Fusca chama a atenção por onde passa e desperta o interesse de compradores. Não raras as vezes, Jaime é abordado na rua por alguém interessado em comprar seu carro. Já lhe ofereceram até R$ 15 mil, mas ele achou pouco. “Se aparecer uma proposta satisfatória, quem sabe”.
 
Primeiro carro
Fusca também é uma paixão antiga do médico José Luiz Scaglioni Filho. Foi seu primeiro carro, comprado logo quando se formou em Medicina. “Quando me mudei para Itabira, em 1977, cheguei a bordo de um lindo fusquinha 1300, azul claro. Nunca fiquei muito tempo sem um Fusca na minha garagem”, afirma o médico, que é dono há 12 anos de um vermelho “Ferrari”, ano 1994, modelo 1600 de dupla carburação. “É nele que me desloco no meu dia a dia. Procuro mantê-lo sempre limpo, com visitas regulares ao mecânico. Sempre tem alguma pessoa interessada em comprá-lo”, diz.
 
Dr José Luiz evita andar com o veículo em estradas ruins, não porque ele não aguenta (pelo contrário), mas porque “é o queridinho do pedaço”. “Quando minha filha se casou em 2009, na cidade de Tiradentes, ele foi escolhido para conduzi-la até a igreja matriz. Demos uma caprichada no visual e, como que saído de um salão de beleza, ele ficou todo estiloso, com ares de Herbie do filme “Se meu Fusca falasse”, conta José Luiz.
 
O médico conta que recentemente, uma vovó, ao levar sua neta para uma consulta médica , lhe disse sem muita cerimônia: “É, doutor, o senhor é um bom profissional,  muito antigo e respeitado aqui em Itabira. Só não entendo porque até hoje fica andando de Fusca para todos os  lados, em vez comprar um carro melhorzinho”.
 
“O carro mais bonito que existe”
Apaixonado por Fusca desde 1979, Wilson Meireles tem oito exemplares na garagem de casa. Para ele, quanto mais antigo, melhor – desde que o veículo esteja em bom estado de conservação e seja o mais original possível. “É o carro mais bonito que existe”, diz ele, com sorriso largo no rosto.
 
Muitos colecionadores gostam de deixar seus carros na garagem, quietinhos, bem guardados. Roda só de vez em quando para destravar as rodas. Wilson, não. Todo dia ele sai em um Fusca diferente. E não aceita ninguém bater a porta.
 
Perguntado sobre o motivo de gostar tanto do “besouro”, o colecionador responde que é um carro econômico, de manutenção barata, resistente e que aceita todo tipo de acessório. “Tudo que você põe nele é bem-vindo. Todo mundo gosta de enfeitar o Fusca, tudo combina. Se eu pudesse eu teria 50 fuscas”, brinca.
 
Vindo da Alemanha
O Fusca começou a ser fabricado em terras brasileiras em 1959, seguindo uma trajetória de sucesso até 1986, quando saiu de linha pela primeira vez. Em 1993, o presidente Itamar Franco decretou a volta do Fusca como “carro popular”. Com relativo sucesso, ele continuou a ser produzido até 1996, quando saiu de cena definitivamente do mercado nacional. No México, último país a produzi-lo, o Fusca derradeiro saiu da fábrica em 2003.