Bem que a Vale tentou, mas 2008 prova que ninguém está alheio à crise
Como em todo o mercado, o ano da Vale pode ser dividido em dois. Começou muito bem. A demanda parecia sem restrições, os preços em alta, os emergentes decolando. Pela relação com a China, demorou mais para sentir os impactos da crise. Mas sentiu, e o baque foi grande. Após um primeiro semestre próspero, a […]
Para um ano que começou com projeções de alta próxima de 50% nos preços do minério de ferro, o vai-e-vem de 2008 terminou com apostas de recuo até maior nos contratos. Voltando a dezembro do ano passado, o cenário para a Vale nem considerava algum percalço na demanda. Para o mercado, 2008 era o ano das aquisições e dos elevados reajustes.
As aquisições passavam pelas investidas da Vale na rival Xstrata. O noticiário do setor parecia refém da questão nos primeiros meses do ano. Depois de muito negar e pouco convencer, a Vale assumiu que estava atrás da sexta maior produtora de minério do mundo.
As manchetes iam e vinham com as especulações de compra, mas nada de concreto foi anunciado. Por outro lado, a espera pelos reajustes de preço não foi em vão. De maneira surpreendente, a Vale se antecipou às rivais e anunciou uma elevação entre 65% e 70% no valor dos contratos de fornecimento para seus clientes asiáticos.
Elevação tamanha nos preços ignorava que a crise já batia à porta. Mas a série de perdas contábeis dos grandes bancos norte-americanos parecia muito distante de uma China com crescimento econômico exponencial. Enquanto as negociações entre Vale e Xstrata não passavam do impasse, surgiam rumores de que as grandes rivais da Vale, BHP Billiton e Rio Tinto, estavam tentando reajuste de preços ainda maior com seus clientes.
Em março, a Vale oficializou a desistência da aquisição. As ações reagiram bem. O mercado temia quanto ao grau de endividamento da empresa. Mesmo com a incerteza crescente, a Vale consegue fechar o maior contrato de minério já assinado, de 480 milhões de toneladas em 10 anos com a ArcelorMittal, isto já em abril.
Confirmando os rumores, a Rio Tinto consegue o reajuste de 80% em junho, provando que o setor ainda se via blindado contra os problemas da crise. Bom também para a Vale: maior poder de barganha em negociações futuras. Pouco depois, a BHP vai além e anuncia alta de 97% em seus preços.
Diante do fato, as apostas dos analistas para a rodada de negociações de 2009 já relacionavam a possibilidade de mais um aumento de dois dígitos nos contratos. Enquanto isso, a Vale não desistia das aquisições, o mercado voltava os olhos para a Freeport McMoran. Para alimentar ainda mais os rumores, a companhia capta mais de R$ 19 bilhões com uma oferta de ações.
Até agosto, nada parecia mudado. Agnelli comenta os resultados do segundo trimestre afirmando que a Vale deve fechar em 2008 o melhor ano de sua história. Ironicamente, os problemas começariam.
As restrições de crédito derrubam a procura por aço. As siderúrgicas começam a prever cortes na produção e o viés para os preços do minério fica negativo. Como estratégia, a Vale pressiona suas clientes asiáticas para um reajuste extra de 12% nos preços, utilizando o preço maior das rivais e alta qualidade de seu produto como argumento.
Depois de muita discussão com a China, desiste. Não era a melhor hora para pressionar. Agnelli chega a dizer que "ninguém estava em condições de negociar nada naquele momento". Com a incerteza sobrando, as ações caíam.
A devastação dos mercados provocava uma fuga de estrangeiros da bolsa brasileira, que liquidavam suas posições exatamente nos papéis mais líquidos, o que inclui a Vale.
As perdas consecutivas levaram a mineradora a recomprar suas ações. Enquanto isso, ajustava a produção aos cortes das siderúrgicas lá fora. As ações continuaram sofrendo.
Ainda acumulam desvalorização de mais de 50% no decorrer do ano. Demissões, férias coletivas: sobrava para 2009 uma perspectiva de queda forte nos preços. O ano que começou como promessa acabou como incerteza.
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Mês
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Principais notícias para a Vale
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Janeiro
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– Cresce rumor de aquisição da Xstrata
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Fevereiro
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– Vale reajusta minério de ferro entre 65% e 70%
– Resultado recorde: lucro sobe 49% em 2007 |
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Março
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– Rivais tentam reajuste superior
– Fim das negociações com a Xstrata (ações reagem bem) |
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Abril
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– Resultado do 1T08 frustra projeções (volatilidade câmbio e isumos caros
– Fecha maior contrato de minério já assinado, com ArcelorMittal |
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Maio
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– Decide vender sua fatia na Usiminas
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Junho
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– pedido de oferta na CVM
– Rio Tinto anuncia reajuste de 80% |
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Julho
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– BHP consegue reajuste de 97%
– Vale capta R$ 19 bilhões com oferta |
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Agosto
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– Lucro recua, mas receitas batem recorde no 2T08
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Setembro
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– Tentativa de reajuste extra de 12% com chineses
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Outubro
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– Recompra de ações
– Orçamento para 2009 (Vale mostra confiança contra a crise) – Lucro do 3T08 supera projeções |
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Novembro
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– Ajuste na produção
– Corte de 65% na produção da joint-venture Samarco |
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Dezembro
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– Demissões e férias coletivas
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