Quem não se lembra de seus professores favoritos? Quando um professor ama verdadeiramente sua profissão, ele acaba marcando nossa vida e se tornando uma boa recordação. Seja a professora de Matemática que pegava no seu pé, mas no fundo, você é grato porque foi quem fez você aprender os cálculos. Ou aquela professorinha do jardim da infância que até hoje quando cruza com você na rua, fala seu nome. Quem sabe o professor de História que fazia a aula ser mais divertida e te levava a viajar por épocas passadas… Pessoas que foram não apenas educadores, mas verdadeiros mestres, se tornando inesquecíveis.
Em homenagem ao dia do Professor, comemorado no dia 15 de outubro, DeFato entrevistou três educadores já aposentados, que hoje vivenciam o sucesso profissional de seus alunos já adultos e se sentem parte deste processo de formação. Atuando em uma época em que a educação era totalmente diferente da atual, Aparecida Pinto Coelho, 68 anos, Sebastião Martins Fontes, 74, ambos de Itabira e Geraldo Eustáquio Ferreira, 67, de João Monlevade, contam um pouco de suas experiências e de suas impressões em relação ao futuro educacional do país.
Lembranças
Aparecida começou a lecionar aos 17 anos, na década de 1970, como estagiária e substituta, antes de terminar o Curso de Formação de Professores, no antigo Colégio Municipal de Belo Horizonte. Trabalhou mais de 30 anos como professora de Português e redação.
Em Itabira lecionou nas Escolas Reunidas Professor Manuel Soares, de Ipoema, Grupo Escolar Coronel José Batista, Escola Estadual Dona Eleonora Nunes Pereira, Escola Estadual Mestre Zeca Amâncio, Fide, Funcesi, e Colégio Einstein. Aposentou-se em 2004.
Tornou-se educadora por incentivo da família. Sua mãe e tias lecionavam nas séries iniciais de ensino. Todas começaram a vida como professora na zona rural. Sua casa sempre era cercada por livros e jornais e as brincadeiras infantis eram de escolinha. O pai, rígido, não via outra profissão para a filha, que não fosse professora. “Quando terminei o antigo segundo grau, em Belo Horizonte, meu pai não deixou que eu ficasse na capital para continuar os estudos. Disse-me que ‘mulher tinha que ser professora’, principalmente, se casasse. Entretanto, acredito que o amor à educação vibra alto, do fundo do meu coração. Se fosse optar por uma profissão, seria educadora, novamente”, diz apaixonada.
Com profunda tristeza, para Aparecida, o ensino público nos dias atuais está decadente e falta comprometimento com a educação de qualidade. “Antigamente, os alunos estudiosos saíam das escolas públicas de Itabira, não faziam ‘cursinhos’ e eram aprovados nas escolas federais, tanto nos cursos técnicos profissionais como nas principais universidades, não só as mineiras, mas também nas de outros estados. Acredito que o governo, em todas as esferas (municipal, estadual e federal), precisa investir bastante em educação. Não ficar só no discurso”.
Assim como a educadora, ao falar da educação atual, o professor de Matemática aposentado e engenheiro, Sebastião Martins Fontes, conhecido como Tião Muranga, também se entristece e demonstra grande decepção. Iniciou sua carreira em 1967 em Itabira, dando aulas no Ensino Fundamental, Médio e Superior. Apesar de ter se tornado engenheiro metalúrgico e atuado na área, nunca deixou de ser educador.
Seguindo também o exemplo de grandes professores existentes em sua família, como Lalá Fontes e sua mãe Alice Martins Fontes (que inclusive dá nome a uma escola em Itabira), Tião enfatiza que adorava ter contato com a juventude. Hoje, em sua opinião, a educação toma um rumo lamentável, onde o professor não é valorizado. “Não há como o educador ser um profissional dedicado, exclusivo a esta função, porque senão morre de fome. É duro falar isso, mas é a realidade que eu vejo no Brasil. A profissão do professor se tornou banalizada. Ainda tem exceções de professores preocupados que trabalham com muita garra. No entanto, grande parte não está nem preparada para lecionar”, desabafa.
Lições
Aparecida ainda vai mais longe em seu pensamento e ressalta que é necessário ao Governo adotar medidas que promovam a melhoria do Ensino Fundamental e Médio, valorizando o professor e oferecendo oportunidade de aprimoramento com maior frequência.
Para ela, ainda falta investir nos alunos de baixa renda, dando condições de igualdade aos da rede particular de ensino. “Penso que o sistema de cotas não deveria substituir o sistema do mérito, pois além de agravar a discriminação racial, traz prejuízos ao progresso da educação básica e causa um efeito negativo na democratização da sociedade. Tal mudança coloca em risco as ideias de qualidade e excelência das instituições federais, onde se produz quase toda ciência e a maior parte da tecnologia brasileira”, opina.
Geraldo Eustáquio Ferreira, de João Monlevade, conhecido como Professor Dadinho, prefere ter uma visão um pouco mais otimista em relação à educação atual. Educador desde 1968, por 37 anos transitou da docência à gestão escolar. Deixou as salas de aula em 2005.
Como professor aposentado, diz que tem muito receio de insinuar que em outros tempos as coisas eram diferentes e passar a ideia de que somente eles sabiam lecionar. “Há que se considerar que, historicamente, o professor quase sempre foi a única fonte de informação do aluno. Assim, ele informava e formava ao mesmo tempo. Hoje ele é uma das muitas fontes”, defende.
Ele acredita que a função educativa tem- se desviado e está sendo transferida para a escola e os professores. “Infelizmente, a família, a igreja e outros agentes educacionais têm-se descuidado desta tarefa. Diante do vazio de uma função, outros fatores, valores, influências entram em cena e fica realmente muito complicado e difícil para os professores. Esses elementos, permeados da falta de limites e da grande permissividade reinantes, estão interferindo diretamente no controle da educação”, afirma o professor. E completa: “Não é a educação que está tomando rumos diferentes, mas os agentes educacionais é que estão um pouco desnorteados”.
Banalização da profissão
Dadinho acredita que a profissão do professor pode até ser rejeitada, quando não há vocação pelo magistério ou quando se pensa somente em dinheiro. Mas banalizada, nunca! “No futuro, vão faltar professores. Existem pouquíssimos cursos de Licenciatura e, em Itabira, agora, nenhum”, explica.
Desde os anos 1980, Dadinho percebe que raramente estudantes faziam opção por cursos de licenciatura. Para ele, a situação não mudou, pois os vestibulandos optam pelas carreiras melhores remuneradas.
Giz, quadro negro e livros.
Quando os três educadores começaram a lecionar, computador ainda era algo do futuro. O cotidiano dos alunos era o quadro negro, giz e livros. Realidade que na opinião dos entrevistados fazia com que o estudante pensasse e se esforçasse mais para alcançar ótimos e verdadeiros resultados.
As aulas de Aparecida eram bem preparadas, planejadas com antecedência para garantir a segurança na sala de aula. “Quando o aluno perguntava algo que eu não sabia responder, eu lhes dizia, humildemente, que iria pesquisar sobre o assunto e lhes traria a resposta na aula subsequente. Usava muito o quadro de giz para explicar os conteúdos de minha disciplina, com gráficos para ensinar as orações coordenadas e subordinadas; cartazes, desenhos para ilustrar os conteúdos”, lembra. A professora de Português aprendeu a usar o computador e nos últimos anos de docência utilizou os novos recursos da tecnologia, como o Power Point.
Conforme Tião Moranga, antigamente o aluno mostrava realmente ao professor o que ele sabia e não ficava nas costas de outros. “Não existia trabalho em grupo. Não condeno isso. Esse intercâmbio entre os alunos é muito bom, desde que seja algo muito bem feito. Usávamos livros mesmo. Os deveres de casa exigiam esforços próprios. Hoje em dia os alunos querem assinar o trabalho do outro sem fazer. A internet ajuda os alunos a comprar os trabalhos prontos. É um beneficio, mas precisa ser bem usada. O seu surgimento tem prejudicado os alunos deixando-os comodistas. Quando vão exercer a profissão, são medíocres”, lamenta.
Fatos marcantes
Muitas histórias, assim como alunos, passaram pela vida desses professores. Algumas ficaram marcadas na memória como saudades ou aprendizado.
Geraldo recorda do problema que teve com um aluno que o desrespeitou de maneira muito grave e injusta numa aula. Houve um inquérito e ele foi expulso. O estudante passou por umas duas escolas e não se adaptou. Neste período, o professor assumiu a direção de uma escola municipal e o citado aluno, acompanhado do pai, precisou de uma vaga. “Quando me viu, se assustou e quis recuar, pensando que eu iria recusá-lo. Como havia a vaga, mesmo conhecendo sua pregressa vida escolar, mostrei a ele que a vida estava lhe dando uma nova oportunidade para estudar e que eu contava com o sucesso dele nessa outra escola. E ele realmente se recuperou”.
Na vida de Tião Muranga, o que mais o marcou foi ser professor na ETFG/Sebrae. “Tive recompensas muito agradáveis, de trabalhar com brilhantes alunos. Fui o paraninfo da primeira turma, onde concorri com as maiores autoridades da estrutura na época. Isso é gratificante. E olha que eu não era moleza com os alunos não. Era osso duro de roer. A cobrança era pesada e constante e quanto mais eu cobrava deles, mais gostavam de mim”, sorri.
Aparecida diz que sente-se muito feliz em ver seus ex-alunos se destacando pelo sucesso profissional e que ainda hoje se emociona quando participa de formatura de ex-alunos, corrige as monografias, os artigos científicos ou jornalísticos, as dissertações de mestrado e outros textos. “É muito bom conviver com o aluno, escutá-lo, encaminhá-lo para a vida, para o mundo”. Ela cita Rubem Alves: “Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma, continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor assim não morre jamais”.