Números inevitáveis

Professor da Unifei explica por que alunos brasileiros não gostam de matemática

Números inevitáveis

Entrevista publicada na edição 254 da Revista DeFato

O professor Ricardo Shitsuka, paulista de família japonesa, é apaixonado por números. Professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) em Itabira, tem mais de 15 livros publicados sobre temas diversos, como xadrez, informática e engenharias, sempre relacionados à matemática. Doutor em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul), Shitsuka também é mestre em Engenharia pela Escola Politécnica da USP (Epusp) e especialista em Tecnologias Educacionais pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap).

Sua mais recente obra, a segunda edição de “Matemática Fundamental para Tecnologia” (Editora Erica/Saraiva), saiu em dezembro passado e é direcionada a estudantes de cursos tecnológicos e técnicos. O livro aborda grandezas e números, operações, juros, porcentagens, funções, logaritmos, gráficos, matrizes, estatística, geometria, áreas e volumes, sempre visando à forma comumente aplicada ao cotidiano das empresas. Apresenta a matemática como ferramenta útil e indispensável por meio de diversos exemplos práticos de medição, controle, lógica, inferência e previsão do futuro.

De acordo com o professor, a matemática precisa ser melhor trabalhada desde a educação básica, com pouca teoria e muitos exercícios atualizados. “Matemática é uma ciência dura, mas pode se tornar mais próxima da realidade das pessoas no seu cotidiano profissional”, afirma. Nesta entrevista a DeFato, ele explica como o desinteresse dos alunos pelos números reflete no desenvolvimento do país e o que fazer para estimular a garotada a gostar mais da disciplina.

Qual era a intenção do senhor ao escrever este livro?

Esta é a segunda edição, provavelmente vai sair uma terceira. Estamos trabalhando em outro livro de matemática, um voltado só para técnicos, nível médio; e outro voltado a nível superior. Este livro foi fruto de um trabalho que começamos quando eu lecionava disciplinas de Matemática em cursos de tecnologia e observei que havia muita dificuldade dos alunos, que tem origem na educação básica. Lá atrás eles tiveram dificuldade de aprender, por algum motivo, e chegam à universidade com problemas. Por mais absurdo e incrível que pareça, eu tinha uma aluna que não sabia dividir por dois na faculdade. Tem muitas pessoas que seguem carreiras humanas, achando que nunca vão fazer cálculos, quando, na verdade, todo mundo precisa ter uma noção de matemática. No caso da divisão por dois, hoje em dia qualquer aparelho que a gente tem – telefone, televisor, computador, tablet – todos funcionam com números binários, ou seja, com a matemática do 0 e 1. Sites, bancos de dados e toda a informação que você imaginar, passando pelos fios e até pelo ar, têm bilhões de 0 e 1. No Brasil estamos com um risco muito grande de perder em tecnologia e a gente virar só montador, aquele que tira uma placa e coloca outra. E quem sabe essa tecnologia? Um chinês, um coreano, ou alguém dos Estados Unidos, da Suécia, da Alemanha. Estamos sendo só montadores. Já ouvi tanta gente dizer: “Ah, não tenho cabeça para isso”. Na verdade, falta é um pouco de carinho e interesse das pessoas. O pessoal que me conhece sabe que sou um professor que dá a mão mesmo ao aluno. Se o aluno chegar e dizer que não sabe, não tem problema. Eu digo: “Você não sabia, agora vai passar a saber”. O maior erro é a pessoa achar que não sabe e nem querer saber. A minha visão é nesse sentido: sempre a gente tem de pegar a pessoa do jeito que está e levá-la a níveis melhores.

Quanto tempo trabalhou no livro?

Na primeira edição foram dois ou três meses. Eu já tinha experiência didática e pedagógica como professor. Sou uma pessoa que escreve muito. Tenho outros livros, artigos nacionais e internacionais. Escrevo muito porque algum dia trabalhei com aquilo e tenho essa bagagem. Vejo gente da Vale, talentosíssima, que às vezes vai escrever crônica. Puxa! O cara trabalhou com logística, poderia escrever os cálculos que ele sabe. Ou trabalhou no RH, poderia escrever um livro sobre RH, com casos e mais casos. Entendo assim: gosto muito de trabalhar com pessoas, chamo muito o pessoal para o debate, para o trabalho em conjunto. Meu livro é voltado para técnico, tecnólogo e universitários, porque são eles que vão usar muito a matemática. As pessoas às vezes têm uma ilusão: decidem fazer um curso de logística e quando entram, falam: “Caramba, vou ter de calcular um monte de coisas?” Logística é organização. É preciso saber o quanto de carga você consegue colocar num vagão, num caminhão baú, num caminhão aberto. E há ainda outros aspectos; como você vai proteger a carga, calcular a tarifa, o frete, o combustível. Tudo isso é cálculo. Também me defrontei com situações interessantes, por exemplo, de advogados. Ele acha que vai estudar Direito porque só vai ler. Aí quando tem de calcular dez anos que o cliente fez de contribuição, pagou a mais ou algo assim, não consegue. Muitos advogados precisam passar para um contador, mas mesmo que ele passe para um terceiro, precisa entender o que o outro fez.

Por que os alunos estão chegando à universidade sem saber a matemática básica? De quem é a culpa?

Seria muito fácil a gente dar uma solução. Tem até acontecido muito isso. As pessoas darem seus palpites até porque elas enxergam pedaços. Mas na verdade são vários fatores. Se você falar que é culpa do passado, quando quem ensinou não tinha material didático bom, sim, é verdade. Material didático precisa ser contextualizado. Se você vai ensinar um técnico em eletrônica, precisa de muitos problemas de eletrônica. Se vai ensinar um de química, a mesma coisa. Juntei no meu livro problemas de cálculos de química, logística, mecânica, sempre envolvendo a matemática daquele tópico que está sendo estudado. Uma das coisas que vários professores elogiaram é sobre o ensino da matriz. Muitas pessoas acham que matriz é um monte de números numa caixinha, mas é a coisa mais importante que existe. Se pegarmos a garagem de um prédio, é possível mapear todas as vagas por meio de conhecimentos de matriz. São problemas que estão no livro. Quando a gente fala de monitor de televisão, computador, tablet, aquelas resoluções 800 por 600, a mesma coisa. Tudo baseado em matriz. E os professores não estão levando isso para as escolas. A tecnologia existe, a gente precisa juntar isso desde a educação básica, para as pessoas falarem: “Caramba, então isso aqui é importante”. A falta de contextualização é uma das coisas que faz com que as pessoas não consigam ensinar e nem aprender. Não trabalho, por exemplo, a teoria de modo profundo. Se você quer ser matemático puro, terá de estudar a teoria. Mas do contrário, trabalho de modo mais leve e com muitas aplicações que facilitem a aprendizagem.

O Brasil está perdendo oportunidade de inovar por causa disso?

Com certeza. A nossa cultura é muito boa, maravilhosa. Mas dentro desta cultura, que a gente leva muito para o lado do futebol, da religião – o que é muito bom –, não há elementos que você vê em outros países, em que a cultura de usar o computador está mais presente. Conheço muitos israelenses, judeus que gostam muito de computador e, desde pequeno, querem aprender programação. Tive em São Paulo alunos judeus que me pediam para ensiná-los a programar. Eram meninos de oito, nove anos que queriam aprender informática desde pequeno. Aqui é diferente; o pessoal usa Facebook. Lá eles querem aprender a programar, a fazer o bonequinho se mexer, não é jogar com o bonequinho. Outro fator que leva a essa dificuldade é a falta de leitura. Realmente o brasileiro lê poucos livros por ano. Acho que isso está mudando um pouco, com essa geração que está chegando. Mas educação é algo de longo prazo. É como se você pegasse um garoto de três, quatro anos para ensiná-lo xadrez. Quando ele tiver dez, 15 anos poderá ser um campeão. Sobre a matemática, acho que precisa ser ensinada desde cedo, uma matemática mais real, integrada à vida, ao cotidiano. Um país campeão em olimpíadas, por exemplo, é a Coreia. São cinco os países melhores do mundo: Coreia Japão, Suécia, Dinamarca e Canadá, que é exceção por ser país grande. Os demais são países pequenos, que também são mais fáceis de administrar.

Num país continental como o Brasil, o que fazer para estimular os alunos a estudarem mais?

Muitas vezes a gente tenta forçar inovação no pobre coitado que está no final da linha. O cara estudou a vida inteira sem aprender bem matemática, sem aprender a se comunicar bem em português, e aí mandam ele fazer um relatório. O relatório será pobre. Temos essa dificuldade cultural realmente. A gente observa muitos professores de escolas públicas dizendo: “Puxa, a gente fala para o aluno, ‘vamos estudar’; o aluno ri na cara da gente”. O coitado do professor está realmente no mato sem cachorro. Está muito difícil fazer educação porque as famílias acham que a responsabilidade é toda do professor e joga para a escola, quando na verdade educação tem de ser um esforço conjunto. Atribuo o sucesso da educação no Japão, em parte, à participação das famílias, que incentivam e valorizam. O grande desafio hoje envolve a sociedade em mudança, novas tecnologias, quebra de valores e o professor engessado, porque tem de trabalhar tudo isso ganhando pouco e em mais de uma escola.

O que o senhor acha das olimpíadas de matemática?

Excelente. Acho que é uma oportunidade de trazer pessoas de outros locais. Como será que está o pessoal de Ipatinga em relação ao de Itabira? É muito importante que num país você tenha esses campeonatos. A gente tem realmente que criar um clima gostoso de confiança, mas principalmente enxergar o que os outros estão fazendo e fazer também. Tivemos o caso de várias escolas bem sucedidas aqui na região, o que é muito bom. Aos poucos a gente vai criando uma cultura, que deveria ter sido criada no passado. A gente tem de criar as competições e dar prêmios realmente às crianças e jovens para que eles prossigam, sejam campeões e levem isso para a vida. Desses campões de matemática vão surgir bons engenheiros, professores, advogados e médicos.

O senhor é a favor de uma olimpíada para os professores?

Uma das coisas mais importantes já está sendo feito, que são as olimpíadas para os alunos. A outra é a melhoria da formação dos professores. Entendo que os professores podem ter, por exemplo, uma certificação. Isso funciona muito bem nos Estados Unidos e em outros países de língua inglesa que estão melhores do que nós – não muito, mas estão. As certificações proporcionam aos professores um salário melhor e eles são contratados com mais rapidez. Seria o equivalente aqui ao que aconteceu na informática, com as certificações Microsoft, Java, entre outras. Acho que a certificação seria um caminho. Nos Estados Unidos chamam de acreditation. O cara tira o certificado e está empregado. Seria uma forma, não sei se a melhor. Acho que também é preciso continuar esse trabalho de investir em educação e fazer isso que vocês estão fazendo, que é divulgar. À medida que vocês divulgam, trazem novas visões, ideias e os resultados aparecem.

O que mais gostaria de ressaltar?

Acho muito importante o papel que a DeFato está fazendo. Vejo que a revista está sobressaindo e nos próximos anos, de repente, poderá ser nacional. Vocês fazem um trabalho muito bom, muito decente, voltado realmente à população. Estão de parabéns. Cada um faz um papel diferente e todos contribuem para uma sociedade melhor. 

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