Conhecimento que transforma
Jully Mara desenvolveu método de aproveitar rejeito de minério na construção civil
Matéria publicada na edição 261 da Revista DeFato
"Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. A velha máxima do químico francês Antoine Laurent de Lavoisier é a inspiração para a estudante Jully Mara Graciano no projeto que desenvolve no campus itabirano da Universidade Federal de Itajubá (Unifei). Aluna do 6º período do Curso de Engenharia da Mobilidade, ela desenvolveu um método de aproveitar o rejeito do minério na confecção de concretos para a construção civil.
A jovem é natural de Ipatinga e mora em Itabira. O trabalho faz parte do Projeto de Iniciação Científica (PIC) da estudante e é orientado pelo professor Carlos Augusto de Souza Oliveira, doutor na área de Engenharia de Materiais. No início de agosto, Jully Mara teve a notícia de que seu projeto foi aprovado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Com isso, ela terá o financiamento necessário para seguir com a pesquisa. A ideia é mostrar como o rejeito do minério, que não tem valor econômico para o mercado, pode ser útil e ainda rentável quando aplicado na produção de concreto.
O projeto expõe como uma proporção da areia – cerca de 50% – pode ser trocada pelo rejeito do minério. O objetivo é diminuir o impacto ambiental. Jully Mara argumenta que na extração mineral o descarte do rejeito é o que mais causa conflito com o meio ambiente. Isso porque o material acaba indo para as barragens de rejeitos. Em Itabira, por exemplo, isso pode ser visto entre os bairros Bela Vista e Campestre. “Geralmente é alagada uma área. Mesmo tendo várias legislações que regulamentem essa atividade, há um alto impacto ambiental, porque não deixa de ser um descarte de material que vai ocupar uma área de vegetação”, comenta.
Do ponto de vista sustentável, a reutilização do material estudado pela aluna pode minimizar a construção de bacias de rejeitos, evitando que a barragem seja um fator de risco para a população e o assoreamento de rios. Além disso, também há o fator econômico. É o que explica o professor orientador: “Certamente, a cidade também teria ganhos financeiros, gerando empregos”. Carlos Augusto ainda enfatiza que a obtenção de areia tem fi cado mais difícil, pois os órgãos ambientais estão tornando as regras mais rigorosas.
Parcerias
Toda a pesquisa é feita na Unifei e será disponibilizada para as empresas mineradoras. Conforme Jully, a Vale se mostrou receptiva para que seu rejeito seja trabalhado. “É interesse dela se livrar desse problema. Extinguir esse tipo de condicionamento do estéril nas barragens ou pilhas”, comentou a aluna. Pela região, será feito contato com outras mineradoras para o fornecimento do estéril.
Em contato com a reportagem de DeFato, a Vale informou que o programa de geração de estéril da empresa tem perspectiva de 85.366 milhões de toneladas, somente neste ano. O quantitativo é vultoso, considerando que os impactos ambientais consequentes da atividade minerária são consideráveis. Jully Mara explica que a intenção é de que o trabalho seja desenvolvido em larga escala. Caberá às empresas locais empregar esse material na construção civil. Já neste mês, a aluna inicia a fabricação dos concretos.
O projeto está sendo desenvolvido dentro do grupo de pesquisas Mat Cime, voltado aos estudos de materiais de construção civil e mecânica. Com vários projetos na área, os integrantes do grupo têm adquirido experiências ao longo da carreira acadêmica. Os alunos já trabalharam o aproveitamento de resíduos da construção civil, que no ano passado foi premiado pela Sociedade Mineira dos Engenheiros, além de pesquisar a produção de argamassa a partir de copos descartáveis.
Na pesquisa bibliográfica feita por Jully Mara, entretanto, ao buscar algo sobre o reaproveitamento de estéreis da mineração, ela não encontrou nenhum registro específi co sobre o tema proposto. Pelo menos em Itabira, esse trabalho seria inédito. É a contribuição da Unifei Itabira para a tese de Lavoisier: renovar a natureza através do conhecimento. O meio ambiente agradece.







