Entrevista: Universo “sala de aula”

Professor da Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira (Funcesi) está disposto a estudar esse cenário

Entrevista: Universo “sala de aula”

Entrevista publicada na edição 270 da Revista DeFato

A relação entre alunos e professores ganhou novos contornos com o advento de novas plataformas de ensino. O contato que antes era exclusivamente pessoal, cara a cara, passou a ser também digital. Com o ensino à distância, na maioria das vezes, tanto quem ensina quanto quem aprende não sabe sequer a fisionomia um do outro. A comodidade do “delivery educacional” impõe o distanciamento pessoal. Essa mudança exige novos métodos e posicionamentos. O que mudou?

Quais os pontos positivos e o que precisa ser modificado? Perguntas que demandam pesquisas e profundos estudos. O problema é que faltam pesquisadores. Um estudo do Relatório Unesco sobre Ciência, de 2010, mostrou que o Brasil tem a metade da média mundial de pesquisadores que é de mil para cada milhão de habitantes. Um professor da Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira (Funcesi) está disposto a estudar esse cenário. Doutorando em Administração pela PUC Minas, Márcio Cesar Franco Santos, apresentará um artigo científico que analisa a relação aluno/professor em importante congresso na Europa. O estudo, intitulado “Estética em sala de aula: implicações para a relação de ensino e aprendizagem entre professores e alunos revelados em um contexto interacional”, será uma das atrações da 31ª edição do European Group for Organizational Studies (EGOS), no início de julho, em Atenas, na Grécia.

Nascido no Rio de Janeiro, Márcio está há pouco mais de um ano em Itabira. Ele é professor de Relações de Trabalho e coordenador dos trabalhos de conclusão dos cursos de Administração e de Sistemas de Informação na Funcesi. Em 2011, o carioca também representou o Brasil no EGOS, realizado na Suécia, apresentando um artigo sobre Responsabilidade Social Corporativa que, em breve, será publicado em formato de livro e será lançado em Itabira. Márcio Santos recebeu a reportagem de DeFato para uma entrevista sobre o lado pesquisador e o assunto que motivou o estudo. As respostas você confere a seguir.

Em julho o senhor apresenta em Atenas mais um artigo científico de sua autoria. Como contextualiza o tema?

O que vou apresentar em Atenas no European Group for Organizational Studies (EGOS) é dentro de um conceito das organizações e como a educação da Administração é feita. Educação como um todo. Nós aprendemos num ambiente de sala de aula que você tinha o professor e o aluno, como ainda é hoje. Só que, nos últimos anos, surgiu exatamente o Ensino à Distância, o ensino virtual. Esse conceito de estética é o aluno dentro da sala de aula, vivenciando com o professor todas as experiências que ele coloca para o aprendizado. Então, você tem um quadro, você tem um projetor, você tem todo um ambiente em que o aluno está inserido e está participando. O que é essa estética? É você utilizar todos os sentidos humanos, o olfato, a fala, a visão, e estar participando desse aprendizado. Só que quando se coloca num ambiente virtual isso se perde. Você não tem mais esse contato, o professor não sabe mais se o aluno está entendendo,  ele não está vendo o aluno. É preciso estudar isso para saber como a tecnologia pode preencher essa lacuna, favorecendo o aprendizado para aqueles alunos que não têm tempo de estar presencialmente, moram distante, por exemplo. Esses meios interacionais que eu coloco aí são exatamente o meio presencial e o que se dá por meio da internet.

Quando começou a perceber que essa tendência estava muito forte e resolveu trabalhar o tema?

Foi quando comecei a ter alunos presenciais, antes de fazer meu doutorado, e eu tinha toda essa possibilidade de fazer contatos com eles, de verificar se eles estavam prestando atenção no que eu estava colocando na sala de aula. Mas eu também tinha alunos virtuais, aí eu percebi que estava faltando alguma coisa, alguma coisa que precisava ser preenchida. Eu não sabia ainda que isso se chamava estética educacional. Aí eu comecei a pensar nessa possibilidade de entender o que estava faltando, onde eu, como pesquisador, poderia complementar isso, estudar e propor algumas alternativas. E quando você percebe essa lacuna e começa a ler, a tentar entender o que está faltando, você vê que há outras pessoas estudando coisas semelhantes. Começa a ver que tem solução, algo que você pode agregar e construir. Em relação ao artigo científico, vejo que todo o trabalho de pesquisa é trabalhoso e prazeroso. Você começa a ver que não está sozinho, que a gente tem muito que aprender. Ele se mostra prazeroso exatamente porque você começa a entender qual é a sua parcela de contribuição. Para esse artigo, tem aí um trabalho de quase um ano, entre pesquisa e escrita.

Como surgiu a oportunidade de mostrar o trabalho internacionalmente?

Estive na Suécia em 2011, na 29ª edição do EGOS. Foi quando tive acesso a esse grupo de pesquisadores, que é uma turma já consolidada. Eles não têm a proposta só de discutir o que acontece lá na Europa, mas de discutir o que acontece no mundo. Tanto que eles têm uma edição latino-americana, que no ano passado aconteceu no Rio de Janeiro. A proposta deles é entender as organizações mundialmente. Quando tive esse contato, vi que minha pesquisa poderia ingressar com o artigo na área, na linha temática que coloquei, que foi Arte, Design e Organizações. No ano passado, quando fi z a submissão para este artigo que vou apresentar em Atenas, foi que eu vi que essa era uma linha nova e que os assuntos poderiam ser discutidos.

O que pretende trazer da experiência na EGOS, uma vez que apresentará o projeto em uma sessão para outros pesquisadores com grande conhecimento?

E são mesmo de alto nível. São pessoas que eu só conhecia pelos livros. São pesquisadores que a minha maior intenção é de aprender com eles. Pessoas que estudam há muitos anos o assunto que hoje estou pesquisando. Certamente, eles têm muito o que passar, como eu também quero mostrar para eles que um país como o nosso tem interesse nesse segmento que está sendo estudado. Há pesquisadores que estão buscando ingressar nesse universo. Minha intenção é trazer para cá o que tem sido discutido, colaborar e receber as colaborações.

Como tem se preparado para a EGOS, já que as atenções estarão voltadas para o senhor e outro brasileiro, únicos representantes da América da Latina?

São artigos diferentes. Coincidentemente, estamos na mesma sessão temática (Arte, Design e Organizações). Então, a minha preparação é a todo o momento revisar o que vou apresentar. Em alguns dias, todos os pesquisadores dessa sessão vão receber os materiais que serão apresentados. Ao todo, são 16. Temos que ler previamente os materiais exatamente para favorecer as discussões. Cada um tem que preparar perguntas para os outros. É um fórum de discussão. Estou me preparando, estudando em cima do tema para ter uma dinâmica interessante e para que eu possa trazer colaborações e mostrar a eles o que a gente tem pesquisado aqui nesse segmento de ensino-aprendizagem presencial e ensino-aprendizagem à distância. O que eu quero é entender quais competências nós professores precisamos ter hoje para desenvolver assuntos que sejam do interesse dos alunos. Quais competências temos que ter para interagir com esses diferentes meios interacionais? Em sala de aula, eu tenho as minhas competências que me fazem ser docente. E dentro do ambiente virtual?

Quais são, afinal, as questões chaves dessa relação professor/ aluno?

Acho que o desafi o nosso é exatamente associar a teoria à prática. A prática, em qualquer campo do saber, não pode ser dissociada da teoria. A gente está dentro de uma instituição que ensina a teoria, mas a gente não pode esquecer que a prática está aí. Ela é trazida muitas vezes pelo aluno e pela nossa vivência também. A gente não pode pensar em teoria e pensar em prática de forma isolada. Temos que buscar congregar, unir essas duas questões. Essa é a minha maior preocupação. Associar teoria e prática nessa relação entre professor e aluno o tempo todo. Ora o professor ensina, ora aprende com o aluno. Isso mostra que é realmente uma relação. 

Em 2011, você apresentou na Suécia um artigo sobre Responsabilidade Social Corporativa. Isso é levado a sério ou é uma questão apenas para manter a boa imagem da empresa?

A questão da responsabilidade social, que foi o meu objetivo de pesquisa de Mestrado, é uma questão que tem sido muito discutida nos últimos anos. Quando se começou a falar sobre responsabilidade social, ainda não existia a participação das empresas. A responsabilidade social é um dever do Estado. Por mais que o Estado faça seu dever de casa, a população cresceu muito, o Brasil passou por um crescimento populacional nos últimos 50 anos de uma forma muito acentuada. Então, por mais que o Estado tenha feito as suas ações para promover responsabilidade social aos seus indivíduos, isso não chegou para todos. Aí houve um determinado

momento, na esfera da Administração, que as empresas passaram a promover algumas atividades que chegassem próximas de uma responsabilidade social. A questão ambiental também está inserida nesse contexto. Quando eu fui fazer minha dissertação, estava muito descrente com essa coisa de ser levada muito para o discurso e nem sempre na prática. De fato, há algumas coisas que precisam ser melhoradas, mas ainda tem muitas coisas que as empresas fazem. No caso, a empresa que eu pesquisei tinha algumas lacunas para serem preenchidas e outras não, pois elas estavam executando aquilo que elas deveriam executar. Cabe a nós, estudantes, sociedade, administradores, buscar evidenciar o que está errado, o que não está funcionando direito e propor algumas alternativas de visão num contexto mais amplo, visando a responsabilidade social, a questão do meio ambiente, da saúde. Então, eu não sou cético em relação a esta questão. Eu sou otimista. 

Você pretende publicar um livro. A responsabilidade social será o tema?

O meu livro faz o estudo de caso de uma refi naria do Rio de Janeiro, meu estado. Nesse estudo, há pontos negativos evidenciados, sim, e acho que temos de ser transparentes com o nosso olhar. O meu olhar estava muito focado nas coisas que não funcionavam em relação ao retorno para as comunidades. O meu olhar é um olhar da organização, do poder público e um olhar da comunidade, uma tríplice. Aqui diz que a coisa funciona de uma forma e a comunidade está dizendo outra. Então, foi um estudo inovador na época, que vou dar continuidade na minha tese. Por meio de fotos, eu mostrei exatamente qual era o olhar da comunidade em relação ao que estava sendo oferecido a ela. O título do livro é “Polo Petroquímico e Sua Promessa de Desenvolvimento – Duplo Olhar sobre a Refi naria de Duque de Caxias”. A empresa está estabelecida há mais de 50 anos no município, mudou a geografia do local exatamente com a promessa de desenvolvimento. Desenvolvimento esse que não aconteceu para toda a população, inclusive para a população no entorno dessa refinaria, que não teve todas as questões de saúde e de meio ambiente observadas.

Alguma consideração final?

Agora é apresentar esse artigo, que é um dos primeiros frutos da tese que vou defender em 2017. Durante um tempo eu vou fi car em Portugal fazendo uma pesquisa comparativa sobre como é que o Brasil está enxergando o ensino à distancia e essa competência dos profissionais brasileiros de ensino em Administração, e como isso está acontecendo em Portugal, como estão desenvolvendo isso.

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