Inclusão profissional

Ao ser contratado pela MD Predial, Genetion da Silva não fazia parte da cota de deficientes

Inclusão profissional

A legislação é clara: “Empresas com 100 ou mais empregados está obrigada a preencher de 2% a 5% dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência”. O regulamento é referente à Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, que obriga as empresas a contratarem funcionários com algum tipo de deficiência. Essa poderia ser a esperança para muitos portadores de necessidades especiais. Mas em Itabira, a realidade é outra: há muitas vagas para esse público, empresas solicitando trabalhadores nessas condições, porém, a lacuna não tem sido preenchida.

De acordo com Vander Lúcio Faustino, presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CMDPD) de Itabira, as firmas têm divulgado amplamente as vagas, a ponto de se poder escolher, tanto em agências de recrutamento como o Sine e também na mídia itabirana.  As oportunidades ficam em aberto por muito tempo, pois está faltando gente para se admitir – o que não quer dizer que não existam deficientes na cidade. São mais de 1.700 pessoas com algum tipo de restrição física no município. O fenômeno, segundo Vander Lúcio, ocorre devido a alguns fatores: a própria condição física da pessoa, que por vezes a limita, ou ainda pelo fato de não se ter a qualificação necessária. “Elas não tiveram acesso à escola. Muitas delas são adultas analfabetas, não foram inseridas na escola regular, que não os recebeu”, declara. Para ele, isso representa um fator dificultante na inserção dos possíveis profissionais. O presidente cita ainda que alguns se encontram acamados devido à idade, outros se aposentaram e por receberem o benefício do Governo preferem não trabalhar. “Muitos são procurados, mas preferem ficar com o salário que o Governo paga todo mês do que ser inserido no mercado de trabalho”, relata.

Na contramão dos que rejeitam as ofertas, a itabirana Cleide de Jesus Ferreira está encaixada profissionalmente. Ela tem deficiência visual total, e ainda assim, além de trabalhar, cursa o 4º ano de Magistério, técnico em Educação Infantil, na Escola Estadual Mestre Zeca Amâncio (Eemza). Cleide tem 40 anos e, há cerca de um ano, conseguiu uma colocação profissional. “Consegui esse emprego depois de entregar vários currículos em muitos lugares”, revela a estudante. Ela atua na área administrativa da Escola Estadual Efigênia Alves e diz que a cegueira não foi empecilho para carregar na bagagem três cursos profissionalizantes de informática inclusiva com programa de voz, ministrados pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC). Entretanto, reclama da desvalorização dos deficientes inseridos no mercado. “As empresas têm que valorizar o deficiente. Muitas nos ficham em cargos muito inferiores. No meu caso, trabalho no setor administrativo, mas sou fichada em serviços gerais. Somos capazes”, reclama Cleide, que também é contadora de histórias.

Difícil procura

A empresa MD Predial possui 484 colaboradores diretos. Por tal motivo, sua grade de funcionários precisa contar com 3% a 4% de PNE (Portadores de Necessidades Especiais), ou seja, pelo menos 15 pessoas com deficiência para estar quite com a legislação. No entanto, apenas oito fazem parte da empresa no momento.

De acordo com a coordenadora de RH da MD, Poliana Andrade, a construtora enfrenta dificuldade em encontrar esse tipo de profissional e quando consegue, eles não têm a qualificação necessária. Então, o caminho mais acessível é nas áreas operacionais. A empresa tem que atender a uma cota, mas não pode expô-los a ambientes que o coloquem em risco, devido à deficiência. Fica o impasse: a empresa tem que contratar, mas não pode colocá-los em qualquer área. Diante disto, o risco de autuação é iminente. “Mas devido à esta dificuldade, temos que argumentar junto ao Ministério do Trabalho em Emprego”, diz a coordenadora. Poliana revela que algumas vagas, como de auxiliar de serviços gerais, apontador e auxiliar de departamento de pessoal estão em aberto desde junho deste ano. 

Desde que sofreu uma amputação nos dedos da mão direita causada por uma serra elétrica, há aproximadamente 20 anos, Genetion da Silva, 42, passou a fazer parte da cota para deficientes nas empresas nas quais trabalhou. Ele, que está há um ano na MD Predial, já atuou em siderúrgica por dez anos e também em construção civil. Colocando a deficiência em segundo plano, na procura de trabalho, ele nem se lembra de seu estado, tanto que ao ser contratado pela atual, não fazia parte da cota. Passou a ser coteado posteriormente. “Quando busco emprego, não demonstro a deficiência e trabalho normalmente”, esclarece.

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