Súplica de itabirano escancara drama do desemprego na cidade

Audiência pública para debater emprego e renda lotou o plenário do Legislativo nessa quinta-feira

Súplica de itabirano escancara drama do desemprego na cidade
Foto: Saimon Leão/Ascom Nenzinho

Ao término de um debate sem plano de ações ou um pacto visando à saída da crise, um itabirano de 58 anos foi até autoridades, narrou o drama da família, refém do desemprego, ajoelhou e implorou por trabalho. O apelo dele foi direcionado ao gerente das Minas Centrais da Vale, Rodrigo Chaves. Desempregado, Geraldo Mendes Magalhaes é um dos personagens da crise que abalou o setor primário da economia local.

Geraldo disse ter participado de seleções de emprego recentes para cargos diversos no chamado “chão de fábrica” da mineração. Afirmou, porém, que perdeu vagas para desempregados de outras cidades. O homem chorou. “Eu me humilho por uma vaga de emprego, qualquer que seja ela”, disse a Chaves.

Rodrigo Chaves respondeu ao homem existir uma luz no fim do túnel. “O que eu posso colocar para o senhor, seu Geraldo, e pra todo mundo, é que o mundo vai melhorar, os empregos vão ser gerados, as oportunidades vão aparecer”. O executivo antecipou que 80 empregos terceirizados devem ser gerados ainda em 2018 na cidade de Itabira, por intermédio da Vale. Outros 210 são previstos para o início de 2019. As vagas são obras no alteamento da barragem de Itabiruçu. “O contrato deve durar até 2019 ou 2020”, continuou o executivo.

Audiência

O diálogo citado ocorreu na audiência pública realizada na noite de quarta-feira, 2 de maio, na Câmara de Vereadores de Itabira, para discutir e propor soluções ao panorama de desempregos na cidade do ferro. O encontro, que lotou o plenário, recebeu representantes da Vale, Prefeitura e Sine, associação comercial e câmara de dirigentes lojistas, além de vereadores. A audiência foi proposta pelo vereador Weverton Júlio de Freitas Limões, o Nenzinho (PMN).

Audiência lotou plenário da Câmara. Foto: Wesley Rodrigues/DeFato

Forasteiros

A tônica das discussões foi cobrar prioridade nas contratações de itabiranos às empresas que se instalam na cidade, sobretudo terceirizadas da Vale. Rodrigo Chaves assegurou que existe uma orientação da mineradora para que as empreiteiras apenas convoquem pessoal por meio do Serviço Nacional de Emprego (Sine) e priorize aqueles que comprovem ser de Itabira.

Rodrigo foi questionado se a Vale pode obrigar empreiteiras a contratar primariamente trabalhadores de Itabira, por meio de cláusula contratual. O executivo esclareceu que a manobra não é permitida em lei. “A legislação não versa sobre privilégios. A criação de cotas, como cobrado, é ilegal”, ponderou. O gerente, que é de João Monlevade, rebateu críticas de “cartas marcadas”, isto é, vagas já direcionadas a candidatos específicos.

Sine

No assunto, o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia, Inovação e Turismo (SMDECTIT), José Don Carlos Alves Santos, responsável pelo Sine, citou que a pasta trabalha alternativas para evitar ainda mais que desempregados durmam na fila do Sine à espera de vagas, e haja a garantia de ampla participação de itabiranos na concorrência pelas oportunidades. A principal ideia dele é que o Sine passe a funcionar por convocação. Ou seja, o trabalhador apenas faz o cadastro na instituição e é chamado conforme o cruzamento de sua inscrição com o banco de dados. O tema deve ser discutido ainda nesta semana junto à Secretaria de Estado do Trabalho e Desenvolvimento Social (Sedese).

O conteúdo continua após o anúncio
Rodrigo Chaves reforçou prioridade da Vale à mão de obra local. Foto: Wesley Rodrigues/DeFato

Quadro local

Gerente das Minas Centrais da Vale, Chaves enumerou dados para destacar a prioridade dada pela mineradora aos nascidos e moradores de Itabira. “Um percentual de 76% do meu quadro é nascido em Itabira. Residentes são 93%. Também temos 822 itabiranos trabalhando na Vale por todo o Brasil, fora da cidade. Quando a gente faz essa conta, eu tenho mais itabirano trabalhando na Vale do que o número de postos de trabalho que eu tenho aqui (na cidade)”.

Hoje, a Vale tem 4.056 trabalhadores em Itabira. Os funcionários estão distribuídos entre as minas de Conceição (1.529), Cauê (1.698) e Periquito (829).

Retomada do fôlego

De janeiro a dezembro de 2017, Itabira perdeu 560 postos de trabalho, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. O número é o resultado de um desequilíbrio entre 6.839 contratações registradas no ano, contra 7.399 demissões, em todos os setores da economia local.

O número de empregos perdidos no ano passado, porém, é bastante menor que o de 2016, quando 2.630 postos de trabalho com carteira assinada foram extintos em Itabira.

Já entre janeiro e março deste ano, o saldo do Caged é positivo: 325 vagas foram geradas. “Começamos a subir. A ladeira já desceu o que tinha que descer. Começamos a retomar aquilo que era antes”, avalia Rodrigo Chaves.

O representante da Vale lembrou que num intervalo de dez anos, a mineração gerou 1.673 novos postos de trabalho em Itabira (2008-2017). Ele pontuou também dados de um estudo feito em parceria com a Acita, que mensurou o desembolso da companhia com empresas locais. “De 2014 até 2016, a Vale dobrou o desembolso com a cadeia de fornecedores. Era algo em torno de 12 milhões/14 milhões por ano com esse grupo de empresas e chegamos a 33 milhões por ano de desembolso. Acabamos de fechar nesse primeiro trimestre algo em torno de R$ 12 milhões/ano somente com empresas locais. Isso evidencia que continuamos privilegiando a economia de Itabira”.

Alerta

Presidente da Acita, Eugênio Muller, por sua vez, alertou todos os participantes a não somente esperarem a recuperação econômica da cidade, ou a geração de vagas em projetos minerários. Se assim o fizer, na avaliação do engenheiro, a cidade está fadada ao fracasso. Muller defendeu o incentivo à economia criativa e ao empreendedorismo, isto é, ao aumento do setor de serviços, por exemplo, com trabalhadores se capacitando e atuando em novas fontes de renda, como um negócio próprio. “Não vamos falar de desemprego. Vamos falar de caminhos alternativos para geração de renda. Não existe mágica. A economia só volta a crescer com o nosso trabalho”.

A audiência foi proposta pelo vereador Nenzinho, do PMN. Foto: Wesley Rodrigues/DeFato

Serviços relacionados