Itabira mais uma vez salva o balanço da Vale – Editorial DeFato Online

De todas as plantas da mineradora em Minas Gerais, somente Itabira apresentou números positivos; foram 9,3 milhões de toneladas de minério de ferro produzidos de janeiro a março deste ano

Itabira mais uma vez salva o balanço da Vale – Editorial DeFato Online

A mineradora Vale divulgou nesta quarta-feira, dia 8, seu primeiro balanço operacional de 2019, portanto, são os primeiros números da empresa depois do desastre em Brumadinho. Como esperado, o estrago foi grande, com queda de 11% no volume total de minério de ferro produzido em relação ao mesmo período de 2018.

O resultado só não foi pior porque, mais uma vez, as minas de Itabira salvaram a Vale. De todas as plantas da mineradora em Minas Gerais, somente Itabira apresentou números positivos. Foram 9,3 milhões de toneladas de minério de ferro produzidos de janeiro a março deste ano, o que representa 2,8% a mais que o mesmo período de 2018, quando a produção foi de 9,040 milhões de toneladas.

Ou seja: enquanto a mineradora se ocupava de problemas e mais problemas oriundos de crimes e tragédias ambientais e trabalhistas, queixas comunitárias e embates jurídicos, da parte de Itabira, era só alegria: vagões e vagões saindo carregados de minério rumo aos mercados compradores.

O que Itabira ganhou por ter feito a diferença? Nada.

Em Itabira, ainda que não tenha sido registrado nenhum mar de lama – e ainda que a Vale ateste a segurança das barragens aqui erguidas –, a mineradora continua com igual indiferença. Nitidamente, os resultados da empresa em Itabira não refletem o estado de espírito da cidade em relação à mineradora. As ondas revoltas afetaram a relação da cidade com a Vale, principalmente após o anúncio da exaustão do minério, em 2028, fato confirmado mais de uma vez pela empresa.

Itabira, hoje, lamenta mais do que comemora a condição de cidade-berço da Vale, a gigante da mineração brasileira. Itabira está convencida de que deu e dá muito mais que recebe. Nova prova disso está aí, no balanço divulgado hoje, e que mostra claramente que Itabira só leva para a Vale soluções em vez de problemas.

Só que a cidade vem reagindo. Em entrevista à imprensa no mês passado, o prefeito de Itabira, Ronaldo Magalhães, revelou que o município está decidido a “judicializar” as faltas da Vale com a cidade, já que a via “amigável” tem falhado histórica e sistematicamente.

Uma reação tardia?

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Pode ser, mas Ronaldo Magalhães não deixa dúvidas: Itabira está em seu pior momento na relação de 77 anos de “casamento” com a mineradora. Teve momentos épicos, teve uma era de abundância, mas claro está que os anos dourados já se passaram. Agora, a fase é de contagem regressiva para o fim do relacionamento, já que 2028 é logo ali.

E depois? A Vale vai deixar a cidade a deus dará? A prefeitura, antecipou Ronaldo Magalhães, não vai esperar para ver. Quer que agora mesmo a empresa cumpra tudo o que está pendente com a cidade.

As obrigações e compromissos firmados estão distribuídos em diversos documentos, termos e condicionantes. Alguns são de ordem ambiental; outros, urbanísticos; e ainda há aqueles compromissos de natureza econômica, social e estruturante. O descaso da Vale com Itabira, nestes momentos finais da exploração das minas, leva a cidade a ter mais ressentimento que gratidão.

O lucro não para, nunca parou, mas a atenção da Vale com Itabira talvez nunca tenha sido tão minúscula, e a sensação de abandono ocorre justamente na hora em que a cidade está mais precisando. Mais uma vez se pergunta: onde estão os diretores da Vale que aqui não pisam?

Neste momento em que novamente Itabira salva a empresa de um resultado desastroso nas bolsas, Itabira certamente chamou a atenção dos executivos baseados no Rio de Janeiro.  Mas aqui não pisam. Por aqui, mantém uma gerência com limitado poder de decisão e já dão a “carência” por resolvida.

Ainda há tempo, senhores da Vale, de encerrar este ciclo em Itabira de forma honrosa. Ainda tem como fazer por Itabira o que a cidade merece pelas mais de sete décadas de contribuição imponente ao caixa da empresa e também aos PIBs de Minas e do Brasil.

Ainda há tempo de salvar a reputação da empresa e livrá-la do peso da ingratidão com as terras itabiranas e com a gente daqui que sustentou e sustenta a saga da mineradora.

Apresentem-se aos itabiranos e mostrem que a Vale quer deixar um legado na cidade que vá além das montanhas recortadas, do pico talhado e das muitas chagas ambientais, sociais e estruturais que hoje compõem a paisagem urbana de Itabira.