Matéria publicada na edição 256 da Revista DeFato.
Se você quer saber sobre carros antigos em Itabira, pergunte ao Galego – o nome dele é Ricardo Corrêa Moreira, 51 anos, mas quase ninguém sabe. Dono de um Opel Olympia 1951, carro alemão considerado o avô da Chevrolet, ele é o mecânico de praticamente todos os colecionadores itabiranos. Como também é fã dos modelos históricos, tem experiência acumulada e muita informação sobre o assunto, como tabela de preços, contatos para venda e compra, e etc.
Galego comprou seu xodó há seis anos, completamente desmontado, no Rio de Janeiro. Trouxe as peças para Itabira, todas originais, e levou anos para deixar o Opel brilhando. Para ele, é uma terapia. Durante a semana, o mecânico conserta os carros dos clientes; nos fins de semana, cuida do seu. “Tem homem que gosta de passarinho, tem homem que gosta de outro homem, nós gostamos de carros antigos”, compara, aos risos.
Além do Opel que ele trata com carinho, Galego tem outro carro da mesma marca e modelo –ainda a ser restaurado – que o acompanha desde os 12 anos. Em determinada altura da vida ele vendeu o automóvel, mas acabou adquirindo-o novamente anos mais tarde. “Este é o meu karma”, brinca o mecânico. Sua oficina, instalada no final da rua Titina Machado, no bairro Amazonas, é ponto de encontro dos apaixonados por veículos dos mais diversos modelos, anos e marcas.
Caminhão do Exército
O mercado de colecionadores de carros antigos é extenso. São oficinas especializadas, mecânicos treinados, exposições, lojas de peças e até revistas exclusivas para atender ao seleto público. Em qualquer cidadezinha é possível encontrar alguém que tenha na garagem um automóvel com 50, 60, 80 anos de estrada.
Mas e um caminhão do Exército Brasileiro? Pois na busca por personagens que ilustrassem esta matéria, DeFato encontrou o ex-militar das Forças Armadas Edson J. Oliver, 46 anos, que tem um. O Chevrolet 1970, com tração nas seis rodas, inclusive dianteiras, servia ao 17º Batalhão Logístico (B Log) em Juiz de Fora. Quando se aposentou, foi a leilão e Edinho o arrematou.
Durante o tempo em que foi das Forças Armadas, no final dos anos 80, Edinho era motorista de caminhão e ficava impressionado com a qualidade do veículo. Ao deparar com a oportunidade, não pensou duas vezes em ter um. O problema é que faltou espaço na garagem e o velho de guerra ficou na rua mesmo. Por causa disso, o colecionador, mesmo com o coração partido, pretende vendê-lo. “É ótimo para fazer trilha”, conta.
Além do caminhão do Exército, Edinho tem mais cinco carros antigos: um Furgão Ford 1951, um caminhão FNM (o famoso Fenemê) 1959, um Gordini III 1962 e duas motocicletas, uma Honda 125 cc a álcool 1981 e uma Honda 500cc Four 1974.
Algumas dessas peças raras, como o Furgão F1, custou tempo, dinheiro e persistência do ex-militar. Edson quis comprar o veículo em 1990, durante um evento no Mineirão, em Belo Horizonte, mas na época o dono não se interessou pela venda. Anos mais tarde, viu um anúncio do mesmo carro no jornal Balcão e foi atrás.
O dono morava em Contagem, mas quando ele chegou ao endereço anunciado no jornal, não viu nenhuma porta de garagem e ficou na dúvida. Quando foi atendido, a surpresa. O carro estava há 17 anos parado e a garagem tinha sido desativada. O dono da casa construiu uma parede no lugar da porta e precisou quebrá-la para tirar o automóvel de lá.
Ford Bigode
Por causa das duas alavancas presas ao volante, uma do acelerador e outra do distribuidor, ele ganhou o simpático apelido de Ford Bigode. Parece da novela das seis. Pertencente à família do médico Marco Aurélio Drummond, 70 anos, o Ford Modelo A, ano 1929, sai pouco da garagem. Uma das últimas vezes que rodou foi para levar à igreja a noiva de Nelson Drummond, filho de Marco Aurélio.
Marco Aurélio conta que comprou o automóvel em São João del Rei depois de vê-lo numa revista especializada. A admiração pelo modelo, conta o médico, vem desde a infância, quando ele dirigiu pela primeira vez, sentado no colo do tio, um modelo igualzinho.
Ao fazer a aquisição, Marco Aurélio percebeu que várias peças do Ford não eram originais. Para deixar o carro idêntico à época da Revolução Industrial, foi a Belo Horizonte e deixou o veículo numa oficina especializada por dois anos. Quando voltou, o Fordinho estava 99% original. “Falo 99, porque 100% é impossível”, conta. Alguns itens foram trocados para garantir mais segurança, como o sistema de freios, principalmente por causa do relevo acidentado de Itabira.
Se você tiver sorte, pode cruzar por aí com uma máquina dessas que carrega a história da evolução automotiva no Brasil e no mundo. Caso queira fazer uma viagem no tempo, procure exposições e eventos que reúnem colecionadores de várias regiões do estado. Agora, se seu desejo é ter um, saiba que o hobby pode custar caro. De acordo com o mecânico Galego, é aconselhável rasgar ou queimar todas as notas que chegam da oficina. “Pode dar até divórcio”, brinca.