Caso Alice: Polícia Civil indica transfobia e pede investigação por possível negligência médica na morte de mulher trans em BH

Delegada Iara França detalhou agressões brutais, apontou motivação transfóbica e informou que o MPMG deve apurar atendimento médico prestado à vítima; dois funcionários do Rei do Pastel foram indiciados pelo feminicídio

Caso Alice: Polícia Civil indica transfobia e pede investigação por possível negligência médica na morte de mulher trans em BH
Crédito: PC/Reprodução

A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) apresentou, na tarde desta quinta-feira (4), os resultados do inquérito que investigou a morte de Alice Martins Alves, mulher trans de 28 anos, brutalmente espancada no dia 23 de outubro após ser acusada de deixar uma pastelaria no Centro de Belo Horizonte sem pagar uma conta de R$ 22.

Na coletiva de imprensa, a delegada Iara França, responsável pelo caso no Departamento Estadual de Investigação de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), confirmou que dois funcionários do Rei do Pastel foram indiciados por feminicídio:

  • Arthur Caique Benjamim de Souza, 27 anos;

  • William Gustavo de Jesus do Carmo, 20 anos.

Segundo as investigações, os dois agressores perseguiram e espancaram Alice com extrema violência após ela sair do estabelecimento. A delegada destacou que, embora a dívida tenha sido o estopim da discussão, a motivação do ataque foi transfóbica, o que agravou a brutalidade das agressões.

Delegada aponta violência motivada por transfobia

Durante a coletiva, Iara França afirmou que Arthur, responsável pela mesa de atendimento, coordenou o ataque por temer perder uma gorjeta de R$ 2,20. Ele já possui passagens por tentativa de roubo e uso de drogas.

William Gustavo se juntou ao colega na perseguição e, conforme testemunhas e registros de áudio, se referiu a Alice utilizando o pronome “ele”, reforçando a motivação discriminatória.

“O interesse deles era realmente punir Alice pela identidade de gênero dela. A violência foi gratuita e motivada por transfobia”, afirmou a delegada.

As imagens analisadas pela Polícia Civil mostram que Alice não apresentou reação violenta e tentou fugir dos autores, que estavam em vantagem numérica e física.

Possível negligência médica será investigada

Além das agressões, a delegada destacou que o caso também levanta dúvidas sobre a qualidade do atendimento médico recebido por Alice nos dias seguintes.

Alice procurou ajuda em diferentes unidades de saúde:

  • 23 de outubro: atendimento em uma UPA após as agressões; recebeu alta.

  • 26 de outubro: internada em um hospital particular em Contagem, onde constatou costelas fraturadas e outras lesões graves.

  • 8 de novembro: nova internação em um hospital particular, onde foi diagnosticada com perfuração no intestino.

Alice morreu no dia 9 de novembro, em Betim, por infecção generalizada decorrente das lesões internas.

De acordo com Iara França, o médico que assinou o óbito não comunicou a Polícia, apesar das lesões claramente relacionadas a agressão grave.

O Ministério Público de Minas Gerais deve investigar possível negligência médica e a conduta dos profissionais que atenderam Alice em diferentes unidades”, afirmou a delegada.

A PCMG só foi comunicada oficialmente sobre a morte no dia 10 de novembro, já durante o sepultamento.

Ao concluir o inquérito, a Polícia Civil solicitou a prisão preventiva dos dois agressores. Porém, segundo Iara França, a Justiça de Minas Gerais negou o pedido, sob o argumento de que ainda não estaria estabelecido nexo causal entre as lesões e a morte.

A delegada destacou que o laudo de corpo de delito já comprovava ferimentos compatíveis com violência severa.

O que disseram os investigados

Arthur e William foram ouvidos no DHPP e admitiram estar na cena do crime. Eles reconheceram as próprias vozes em áudios captados por testemunhas, mas tentaram alegar que Alice teria “se jogado no chão”.

A delegada classificou a versão como “incompatível com a realidade”:

Eles não apresentavam nenhuma lesão e tinham clara superioridade física. As imagens, testemunhas e o laudo desmontam completamente essa narrativa”.

Rei do Pastel se manifesta

Em nota divulgada nas redes sociais, o Rei do Pastel afirmou que está colaborando com as investigações:

Ressaltamos nossa solidariedade aos familiares e amigos de Alice e destacamos que não compactuamos com qualquer forma de discriminação, diz o comunicado.

A delegada descartou, até o momento, participação de outros funcionários no crime.