Com dívida de R$ 5 milhões, Valério corre risco de falência e prepara campanha para salvar o clube

Dragão se aproxima dos 84 anos sob intervenção judicial. Credores vão discutir o plano de recuperação em assembleia no próximo dia 23

Com dívida de R$ 5 milhões, Valério corre risco de falência e prepara campanha para salvar o clube
Foto: Giovanna Victória/DeFato Online

Prestes a completar 84 anos no dia 22 de novembro, sem dinheiro em caixa e com uma dívida estimada em R$ 5 milhões, o Valeriodoce Esporte Clube corre risco de falência e tenta arrecadar recursos para manter as atividades. A situação financeira foi confirmada à DeFato pela equipe responsável pela recuperação judicial do clube, que também anunciou que a entidade está preparando uma campanha de arrecadação para quitar o passivo acumulado ao longo dos últimos anos. 

A dívida era estimada em R$ 3,8 milhões quando o Valério entrou com o pedido de recuperação judicial. No entanto, o valor subiu após o levantamento de outras obrigações financeiras, que não estão necessariamente incluídas no processo, como: impostos em atraso, despesas com a participação no Campeonato Mineiro Módulo II de 2026, salários de jogadores e da comissão técnica, encargos trabalhistas e previdenciários, fornecedores de alimentação e materiais esportivos, além de custos administrativos.

As informações foram apresentadas com exclusividade à DeFato pela interventora do clube, Ana Cristina Mendes, sócia da Valhalla Perícia Contábil, com apoio dos advogados Gustavo Matos de Figueirôa Fernandes e Pedro Teixeira, responsáveis pela recuperação judicial. Segundo a equipe, parte das dívidas com jogadores e integrantes da comissão técnica que participaram do campeonato deste ano já foi paga. A quitação dos débitos só foi possível por meio de um aporte de recursos obtido durante as ações de arrecadação. 

“Essa conquista representa um avanço importante no processo de reorganização financeira da instituição e demonstra que, mesmo diante das dificuldades enfrentadas, a mobilização de recursos e a adoção de medidas concretas podem produzir resultados positivos”, disse a equipe de recuperação judicial.

A quitação, no entanto, não representa a regularização de todas as contas. Os responsáveis pela recuperação judicial afirmam que ainda trabalham na conferência dos débitos, com a análise da origem, dos valores e dos documentos de cada obrigação. O objetivo é identificar o tamanho real do passivo e definir as prioridades de pagamento.

O próximo passo do processo será a assembleia-geral de credores, marcada para 23 de novembro. A reunião vai discutir o plano de recuperação judicial apresentado pelo Valério à Justiça, com as condições propostas para reorganizar as finanças e pagar as dívidas. Caso não haja quórum para a primeira convocação, uma nova reunião está prevista para 30 de novembro.

Na primeira convocação, a assembleia só pode ser instalada com a presença de credores que representem mais da metade do valor dos créditos de cada classe. Na segunda, pode ocorrer com qualquer número de participantes. A reunião também poderá ser suspensa para que o clube e os credores continuem as negociações ou discutam mudanças no plano. A legislação estabelece que os trabalhos devem ser encerrados em até 90 dias após a instalação.

A equipe de recuperação judicial esclareceu que uma eventual rejeição do plano não significa que a falência será decretada imediatamente. A lei permite que os credores concedam prazo de 30 dias para a apresentação de uma proposta alternativa. Também é possível suspender a assembleia para novas negociações.

A falência, porém, continua sendo uma possibilidade caso não sejam cumpridas as condições legais para a continuidade da recuperação. A decisão dependerá do andamento do processo e da análise da Justiça.

A equipe responsável pela recuperação judicial também contestou qualquer afirmação de que ex-dirigentes que figuram como credores pretendam votar contra o plano ou provocar a falência do Valério. Segundo os responsáveis pelo processo, nenhum credor declarou publicamente como pretende votar na assembleia. Por isso, consideram incorreto atribuir a qualquer um deles a intenção de levar o clube à falência. 

Casa cheia no Israel Pinheiro: Valério vence o Villa Nova, confirma liderança do Grupo B e segue invicto para o mata-mata
Foto: @ms_fotogr4fia

Campanha tem meta de arrecadar R$ 5 milhões

Para tentar equilibrar as contas, a equipe responsável pela recuperação afirmou que a entidade trabalha com duas frentes de atuação. A primeira é a campanha “5 Mil Dragões – Rumo aos R$ 5 Milhões”, que pretende mobilizar torcedores, empresários, patrocinadores, ex-atletas e a população de Itabira.

A arrecadação deverá ocorrer por meio do Pix do Dragão, do programa Amigos do Valério, de patrocínios, publicidade e eventos beneficentes. A equipe informou que os valores recebidos, as despesas e a destinação do dinheiro serão divulgados em prestações de contas. A meta de R$ 5 milhões, entretanto, ainda é um objetivo de arrecadação, e não um valor já disponível para o pagamento das dívidas.

A segunda frente é a possível criação de uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF), modelo que permitiria a entrada de investidores no clube. A proposta é buscar recursos para reorganizar as finanças, negociar débitos e fortalecer a estrutura esportiva. Segundo a equipe, essa alternativa depende de estudos de viabilidade e é considerada uma medida de médio ou longo prazo.

Entre as ações imediatas está uma feijoada beneficente, marcada para 22 de novembro, na sede do Valério, em comemoração ao aniversário da equipe itabirana. Os ingressos custarão R$ 50 e começam a ser vendidos no dia 11 de novembro, na secretaria do clube. Também será possível fazer o pagamento pelo Pix, por meio do CNPJ 16.844.953/0001-76. A retirada dos ingressos deverá ser feita na secretaria.

Afastamento de Jader Magalhães

A crise financeira também está ligada às mudanças na administração do Dragão. Jader Magalhães foi afastado da presidência por decisão judicial durante o processo de recuperação. A decisão apontou problemas na prestação de contas e dificuldades para que os órgãos internos de fiscalização acompanhassem as movimentações financeiras do clube.

Entre os pontos considerados pela Justiça estão pagamentos sem documentação suficiente, movimentações financeiras sem comprovação adequada e ausência de contratos formais relacionados à administração de imóveis alugados pelo Valério. A decisão também citou dificuldades de acesso a informações por parte dos conselhos Deliberativo e Fiscal.

Um dos episódios mencionados foi o saque de R$ 15 mil em dinheiro, em julho de 2026, sem documentação que identificasse os destinatários finais dos recursos. A decisão também apontou a falta de registros de receitas provenientes de aluguéis. Com o afastamento, a Valhalla Perícia Contábil, por meio de Ana Cristina Mendes, passou a atuar na administração provisória e na fiscalização do clube.

Justiça afasta Jader Magalhães da presidência do Valério; dirigente anuncia recurso para tentar voltar ao cargo
Foto: Guilherme Guerra/DeFato Online

Vice-presidente reconhece risco de falência; Prefeitura acompanha de fora

A situação do clube também foi comentada durante entrevista coletiva na Câmara Municipal de Itabira nesta quarta (3). A vereadora Dulce Citi, que ocupa a vice-presidência do VEC, afirmou que não considera o encerramento das atividades uma solução para a crise. No entanto, Dulce reconheceu que existe risco de falência.

“Fechar o Valério é a pior opção, porque, se decreta falência, as pessoas não vão receber nunca. E aí pode fechar as portas e ponto final. Eu não acredito nesse ponto final agora”, declarou. Questionada se o risco existe, respondeu: “Tem risco”.

Dulce também falou sobre sua relação com o clube e disse que acompanha a situação como torcedora e dirigente. “Eu, independentemente de função, independentemente de estar onde eu estou, sou uma pessoa que ama o Valério. Entrei no Valério com 18 anos. O Valério é meu time do coração e é de Itabira também, pelo que a gente pode sentir”, afirmou. Durante a entrevista, a vereadora explicou que não podia detalhar os aspectos técnicos da recuperação judicial, que devem ser esclarecidos pela interventora e pelos profissionais responsáveis pelo processo.

Já a secretária municipal de Esportes e Lazer, Luiza Cupertino, afirmou que a Prefeitura acompanha a situação de forma externa e não participa da administração do clube.

“O acompanhamento da Prefeitura e da Secretaria é de forma externa, né? Esse é um problema que diz respeito à organização, aos conselheiros, à diretoria, à presidência e à atual interventora do Valério”, disse.