Da publicidade ao forno, o confeiteiro itabirano Rodolfo Almeida deixou o mercado corporativo para focar na culinária
Com mais de 12 mil seguidores no TikTok, Rodolfo consolida sua comunidade e sua marca, DocesBH, atravessada pela memória afetiva e mesclando tradição e inovação
Rodolfo Almeida nasceu em Itabira e tem construído em Belo Horizonte uma trajetória que combina cozinha com afeto, sua formação em publicidade e uma decisão prática de transformar o próprio repertório em trabalho autônomo. Criado com a mãe trabalhando muito, ele descreve a própria infância como a de uma criança “mais solta”, que aprendia a se virar dentro de casa e se aproximava da cozinha por necessidade e por convivência. “Eu via minha avó, minha tia e minha mãe cozinhando desde muito pequeno. Então, se eu sentia fome de alguma coisa, eu ia fazer”, contou. Agora, à frente da DocesBH, ele prepara o primeiro bingo de sobremesa, o Sorte Sobre Mesa, realizado no dia 28 de março com participação da Drag Queen Charlotte.
“Eu falo que a confeitaria surgiu porque já era muito natural na minha vida. Quando eu vim pra BH, eu descobri esse luxo que as pessoas têm de almoçar fora, jantar fora. A gente não tinha esse costume lá em casa e, às vezes, as pessoas falavam ‘eu não sei cozinhar’. Eu falava ‘como assim que você não sabe cozinhar?’”, disse.
A mudança para a capital veio com o objetivo de realizar sua graduação em publicidade, trajetória que foi seguida por experiências de trabalho e um intercâmbio em Dublin, além de outras viagens pela Europa que, segundo Rodolfo, ampliou a percepção sobre possibilidades e influenciou a forma como pensa sabores e repertórios. Para ele, “celebrar a brasilidade” não significa restringir-se ao que é considerado tipicamente nacional, mas trabalhar a ideia de mistura e adaptação.
A confeitaria aparecia ao longo do percurso como renda complementar, Rodolfo vendeu brownies, depois brigadeiros e bombons de morango na faculdade e seguiu fazendo isso em ambientes de trabalho. No entanto, ao relatar a tentativa de se manter no mercado corporativo, o confeiteiro descreve desconforto com relações de trabalho que, segundo ele, não conseguiu sustentar.
“Eu formei, trabalhei em publicidade, fiz intercâmbio. Eu voltei e entrei nesse lado corporativo que eu não me dou bem, não consigo. A última experiência que eu tive, que eu tive um assédio moral dentro da empresa, eu falei, cara, não, isso não vai funcionar mesmo pra mim. Agora eu vou voltar para a confeitaria.”
A primeira tentativa de empreender com doces aconteceu no período da pandemia. Rodolfo relata que a decisão de deixar o emprego e vender produtos foi atravessada por restrições, falta de capital e dificuldade para encontrar um rumo em um segmento amplo, com muitas possibilidades e pouca margem para erro. A escolha, depois, foi reduzir o cardápio e assumir um recorte de produção para ganhar previsibilidade e público.
“Em 2020, no meio da pandemia, eu saí da empresa e fui viver minha vida de doce. Só que foi um momento muito conturbado. Eu estava meio perdido porque eu nunca tinha empreendido, queria vender tudo e a confeitaria tem muitas opções. Aí eu voltei para a publicidade e, depois, eu retornei diferente para a confeitaria, somente com bolos e bombom de morango, porque aí foi mais fácil escolher o público e o nicho.”
Na linha de produtos, ele diz que a marca busca uma identidade apoiada em sabores tradicionais e em um jeito de fazer que remete à cultura de casa, apoiado pela técnica e pelos hábitos aprendidos em família. Rodolfo também afirma que prefere manter no menu combinações que considera menos padronizadas pelo mercado e mais ligadas à memória do que foi comum na sua formação.
“De receita específica eu não tenho nada de família. O que eu tenho da família, que é muito rico e ainda melhor, é o ensinamento de como preparar as receitas. É como quebrar o ovo, separar a clara da gema, como untar uma forma, como não desperdiçar o que está na vasilha.”
A construção da DocesBH também passa pelo ambiente digital, onde Rodolfo mantém rotina de produção e conversa com público. Ele soma mais de 12 mil seguidores no TikTok e relata que usa as lives como espaço para testar, ensinar e consolidar comunidade. As transmissões viraram espaço de troca e de ensino, com perguntas sobre técnicas e detalhes que, para ele, parecem básicos, mas que para o público fazem diferença. A partir dessa demanda, lançou um e-book com dicas voltadas a quem está começando, com foco em processos e não apenas em receitas, e afirma que pretende aprofundar esse eixo no futuro, com aulas e vídeos.
O primeiro evento presencial da marca, o Sorte Sobre Mesa, surgiu como forma de sair da dinâmica exclusiva de trabalho em casa e apresentar os produtos em um encontro com público em um formato que mistura convívio e brincadeira. Rodolfo descreve o evento como um bingo de sobremesas, com prêmios ligados ao próprio trabalho, pensado para ocupar um espaço com clima de casa e não como vitrine de vendas.
“O bingo foi uma ideia muito aleatória. Eu vi um bingo de plantas e pensei ‘por que não bingo de sobremesas?’. Eu queria que fosse algo mais acolhedor, mais íntimo, que o espaço parecesse uma casa. Não é um convite para encontrar só uma mesa de doces, é um convite para ter uma tarde diferente, escutar música, encontrar minhas sobremesas e jogar esse bingo.”
O Sorte Sobre Mesa será realizado em 28 de março, das 14h às 20h, no Poleiro Espaço Cultural, em Belo Horizonte. O ingresso custa R$ 40 e dá direito a uma cartela para o bingo. A compra, segundo o confeiteiro, é feita por Pix, com atendimento via WhatsApp para esclarecer dúvidas e orientar o público sobre o evento.




