Deputado Lincoln Portela: “Temos que nos livrar dessa ideia de que quanto pior, melhor. Eu prefiro apostar no quanto melhor, melhor”

Em entrevista, o deputado federal fala de sua trajetória, do cenário em Brasília e do momento sociopolítico de Itabira, cidade da qual mantém forte ligação

Deputado Lincoln Portela: “Temos que nos livrar dessa ideia de que quanto pior, melhor. Eu prefiro apostar no quanto melhor, melhor”
O deputado federal Lincoln Diniz Portela em entrevista ao jornalista Fernando Silva. Foto: DeFato
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O pastor evangélico Lincoln Diniz Portela (67 anos) foi eleito deputado federal pela sexta vez consecutiva, nas eleições de 2018, com 105.731 votos. Lincoln é formado em Teologia pelo Instituto Bíblico das Assembleias de Deus, de Goiânia. Tem doutorado em Teologia pela União Internacional do Brasil e é doutor em Divindade pela Unipaz. É pastor presidente da Igreja Batista Solidária, desde 1992. A sua trajetória política começou em 1999.

Há 28 anos o político mineiro (natural de Belo Horizonte) apresenta um destacado desempenho na capital federal, onde ocupou a função de líder partidário durante quase três décadas. Atualmente, é vice-líder do Partido da República (PR). Antes da política, Portela desenvolveu longa atividade profissional nos meios de comunicação. Foi âncora, comentarista e apresentador na 88,7 FM, 90,7 FM, Rádio Atalaia e Rádio Cidade FM. No período de dois anos, apresentou o programa “Record em Notícias”, na Rede Record de Televisão (entre 1996 a 1998).

Lincoln Portela sempre teve uma intensa ligação política e religiosa com Itabira. Inclusive mantém uma assessoria permanente na cidade. Nessa quinta-feira (10/06), o parlamentar visitou a redação da DeFato e concedeu a seguinte entrevista:

DeFato: O senhor, desde sempre, representa Itabira na Câmara Federal. Quando, e em que circunstâncias, começou esse seu relacionamento político com a cidade?

Deputado Lincoln Diniz Portela: O meu relacionamento com Itabira é realmente muito antigo. Tudo começou na Igreja Batista Central. Uma senhora jovem, casada, chamada Genétia, que frequentava minha igreja local (em Belo Horizonte), mudou-se para Itabira e começou frequentar a Igreja Batista daqui. Ela era irmã de uma assessora minha, chamada Cláudia. Então, ela me trouxe aqui para a Igreja Batista Central, que ainda não era nesse atual prédio maravilhoso. Aqui, eu compartilhei a palavra e fiz muitas amizades. Posteriormente, as coisas foram tomando outras direções. Participei de reuniões e comecei a conhecer Itabira. Vi que o povo dessa cidade era muito maravilhoso, muito acolhedor. Nunca tive problemas com a cidade e nem com os governos que passaram pela Prefeitura. Nunca entrei em querelas com ninguém, porque sempre me preocupei com a cidade e seus moradores.

DeFato: Essa preocupação é oportuna porque Itabira encontra-se na encruzilhada socioeconômica de sua trajetória histórica. Nos próximos anos, as minas da Vale entrarão num processo definitivo de exaustão e a cidade ainda tem uma fundamental dependência da atividade mineradora. Qual a sua avaliação sobre o impacto social, econômico e ambiental do fim da mineração?

Deputado Lincoln Portela: Na realidade, a palavra crise torna-se uma possiblidade de oportunidade, pois cada crise representa um ponto de retorno para o crescimento. Itabira tem a experiência de um povo trabalhador, dinâmico, criativo e que conhece bem de cultura. O povo daqui também conhece muito bem as nuances de toda a região. Então, eu creio que a cidade já está preparada para enfrentar essa crise da exaustão das minas. Itabira procurará por um novo momento, por novas opções, nas áreas de serviços ou trabalhos, que podem envolver cultura e turismo. Assim, Itabira terá uma nova oportunidade para prosseguir a sua vida. O povo daqui tem muita criatividade para vencer esse desafio. Eu, por exemplo, conheci a cidade de Mar de Espanha (Sudeste de Minas Gerais) num momento de crise. Com o fim da lapidação de diamantes, as linhas férreas foram retiradas de lá. A cidade era próspera. Na ocasião, começamos a procurar uma nova vocação para Mar de Espanha. Lembro-me que havia ali umas seis fábricas de lingerie. Procuramos incentivar essa atividade e, hoje, o município tem mais de cem fábricas de lingerie. Então, Mar de Espanha aproveitou a crise e criou uma nova oportunidade.

DeFato: A gente percebe, deputado, que o senhor utiliza muito de emendas parlamentares para beneficiar suas bases. Muitas entidades de Itabira já foram favorecidas com essa iniciativa. Como funciona essa dinâmica? Alguns deputados já anunciaram recursos de verba parlamentar para algumas instituições aqui do município, mas o dinheiro jamais apareceu…

Deputado Lincoln Portela: O interessante é que normalmente não faço uma promessa. Pra mim, o princípio da naturalidade tem um grande valor. As coisas naturalmente acontecem comigo, aqui em Itabira. Tanto comigo quanto com o deputado Leo Portela (deputado estadual, filho de Lincoln). Porque nós temos um relacionamento com a cidade, não temos um envolvimento com a cidade. Estamos comprometidos com a cidade. Apenas esse ano, já repassamos mais de dois milhões de reais em emendas parlamentares para a cidade. Isso sem que as pessoas peçam, sem que o prefeito peça. Nos últimos oito anos, independente do governo de Itabira, eu direcionei emendas de orçamento para o município porque admiramos e respeitamos as pessoas de Itabira e sabemos da seriedade delas.

DeFato: A sua agremiação partidária (Partido da República) faz parte do chamado Centrão. Esse termo (Centrão) surgiu na Assembleia Constituinte de 1988, como uma temática ideológica. A ideia era fazer um contraponto à direita e à esquerda, nas propostas para a nova Constituição. Com o tempo, porém, Centrão virou sinônimo de fisiologismo. Qual é a sua real percepção de Centrão?

Deputado Lincoln Portela: Participando ativamente do sistema politico brasileiro, o nosso entendimento é que sempre haja diálogo. O chamado Centrão se propõe ao diálogo. O Centrão consegue ouvir a esquerda, consegue ouvir a direita. E consegue ouvir também boa parte da sociedade brasileira. Nós sabemos que se atendermos a esquerda, um grupo ficará sem atendimento. Se atendermos a direita, outro grupo ficará sem atendimento. Aí eu pergunto: e aqueles, que não têm uma ideologia de direita e nem de esquerda, onde se abrigarão? Então, o centro existe para dar um equilíbrio nas coisas.

DeFato: Mas, na prática, o Centrão sempre apoia o governo de plantão, mas esse apoio não é incondicional, é circunstancial. Na verdade, o Centrão caminha de acordo com o clamor das ruas. Não é assim que funciona?

Deputado Lincoln Portela: É verdade. Evidentemente que quando você é governo, as votações, às vezes, podem fazer com que parte da sociedade não goste. Então, evidentemente que, aqueles que votam com o governo, precisam ter uma contrapartida para que suas bases sejam atendidas. Esse é um processo natural em qualquer país do mundo. Isso acontece com naturalidade. Então, os deputados que estão nesse Centrão, sem o sentido pejorativo, são o fiel da balança entre a direita e a esquerda. Observe que o centro não tem narrativas.

DeFato: E como Lincoln Portela se define ideologicamente?

Deputado Lincoln Portela: Eu sou um homem de posições de centro. Às vezes, aqueles que se encontram num posicionamento diverso do meu, em relação às questões sociais ou às questões liberais, eu consigo dialogar com eles. Eu sempre fui líder, desde quando cheguei à Câmara Federal, há 22 anos. E fui vice-líder até há um ano e meio, quando pedi para não ter mais cargo de liderança. Eu fui líder em momentos difíceis da Câmara, em momentos cruciais. Então, acho que o caminho da diplomacia está naquilo que é honesto, justo, limpo e agradável. Esse é o caminho do centro. Mas, sendo uma pessoa de centro, a minha tendência é mais à direita.

DeFato: As perspectivas políticas para o próximo ano são de muita tensão e instabilidade institucional, principalmente com uma acirrada polarização na disputa para a presidência da república. Qual a expectativa do senhor para as eleições do ano que vem?

Deputado Lincoln Portela: Na verdade, essa polarização está muito clara. E ela não é só no Brasil, mas no mundo todo. Hoje, é muito difícil uma pessoa trabalhar sem seguir uma tendência. Posso até ser de centro, mas com tendência à direita. Então esta polarização, que já ocorre no mundo todo, vai acontecer aqui no Brasil também. Agora é preciso que se faça essa polarização com respeito mútuo. É preciso que se faça isso pensando nas pessoas, pensando no Brasil. Temos que nos livrar dessa ideia de que quanto pior, melhor. Eu prefiro apostar na ideia de quanto melhor, melhor. Isso a gente aprende até com a Bíblia Sagrada, porque Jesus é melhor que a própria religião.

DeFato: Mas esse cenário não poderia abrir a possiblidade para uma terceira via, que amenizaria um pouco essa tensão política?

Deputado Lincoln Portela: Eu não acredito nessa terceira via. Não vou citar nomes, não me peça pra falar, mas surgiu uma pessoa que poderia encarnar essa terceira via. Mas o Brasil percebeu que essa pessoa não seria a terceira via para mudar o processo. Então não tem jeito. Vai acontecer a polarização.

DeFato: O senhor participa ativamente do cenário político itabirano, inclusive mantém uma assessoria muito atuante, na cidade. Além disso, apoia Rose Félix, uma nova vereadora com carreira bastante promissora.  Como o senhor avalia os primeiros meses do governo Marco Antônio Lage?

Deputado Lincoln Portela: Na realidade, é um governo com ideias novas. É o governo de um prefeito que veio do mercado. Ele não veio da área política, da área pública. Então, é natural que ele queira fazer com que a cidade tome novos rumos, através da experiência que ele (Marco Antônio Lage) tem no mercado de trabalho. Ele pretende trazer essa filosofia para a cidade, mas, evidentemente, isso choca alguns sentimentos, alguns posicionamentos. Essa novidade realmente traz estranheza para algumas pessoas. Mas percebemos que o prefeito está desenvolvendo o seu trabalho. A Moeda Social, por exemplo, foi uma ação de excelência dessa gestão. Esperamos, para o bem de Itabira, uma boa gestão, que será julgada por todos aqueles que votam, moram e amam essa cidade.

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