“Ela morreu rastejando”, diz irmão de brasileira morta tentando entrar nos EUA

Moizaniel Oliveira aguardava a chegada de Lenilda dos Santos, que tentava cruzar a fronteira do México

“Ela morreu rastejando”, diz irmão de brasileira morta tentando entrar nos EUA
Lenilda ao lado dos amigos que a abandonaram no deserto. Foto: Arquivo Pessoal

O corpo da brasileira Lenilda Oliveira dos Santos, de 49 anos, foi encontrado no final de um rastro que ficou marcado na areia do deserto, no Novo México, nos Estados Unidos. Ela era uma técnica de enfermagem que tentava entrar nos Estados Unidos ilegalmente, em grupo, mas foi deixada para trás pelos colegas.

A polícia norte-americana acredita que Lenilda, provavelmente, morreu de sede e fome. As autoridades acreditam que ela tenha desmaiado e, na sequência, se arrastou em direção a uma pedra, para se proteger do sol. O irmão dela, Moizaniel Pereira de Oliveira sabia da travessia e procurou pela polícia quando perdeu contato com Lenilda.

“Nós procuramos um advogado, que entrou em contato com a polícia de Deming (uma cidade do Novo México). Os policiais foram para onde ela tinha mandado a localização, pelo celular, mas a Lenilda não estava no local. Então, eles fizeram uma varredura em um raio de 5 milhas. O corpo dela foi encontrado na direção de uma rocha, ela morreu rastejando, tinha um rastro atrás dela”, disse.

Travessia ilegal

Lenilda tentava entrar nos EUA pela fronteira do México. Ela estava viajando com alguns conhecidos de Vale do Paraíso, em Rondônia, onde morava. O grupo estaria sendo guiado por um “coiote”. Durante a caminhada, Lenilda começou a ficar desidratada e não conseguiu continuar. Ela acabou abandonada pelos colegas e pelo “guia”.

Enquanto esteve sozinha, a brasileira enviou uma série de áudios para a família. Nas mensagens, ela tentava mostrar otimismo e acreditava que o grupo voltaria para buscá-la, conforme prometeram. Mas, sua voz demonstrava que estava debilitada.

“Foi uma covardia grande demais, eles são todos de Vale do Paraíso, tudo gente conhecida. E, agora, não temos informações sobre eles. Apesar dessa crueldade, eles devem estar aqui nos EUA. Eles eram pessoas caminhando pelos mesmos sonhos. Você vai deixar o sonho do outro morrer? O que custa ajudar o outro a sonhar junto?”, lamentou Moizaniel, irmão da vítima.

O irmão de Lenilda tem 46 anos e em Pittsburgh, na Pensilvânia. Era para lá que ela se dirigia. “Ela tentou entrar ilegalmente há um tempo, ficou presa uns três meses no Arizona e foi deportada. Eu sempre dizia para ela não vir assim, não se arriscar, para esperar o consulado abrir e tentar o visto. Mas, quando eu soube ela já estava no México esperando para atravessar a fronteira”, contou Moizaniel.

Não foi a primeira vez

Lenilda já tinha passado pela experiência de atravessar o deserto. Em 2003, ela, o ex-marido e Moizaniel entraram ilegalmente nos EUA e ficaram por lá quase dez anos, até retornarem ao Brasil. Moizaniel decidiu retornar aos EUA, em 2018, em busca de trabalho. Dessa vez, ele estava com o filho pequeno e a imigração autorizou o ingresso dele legalmente.

“Eu e minha mulher trabalhamos com limpeza de casas. Lenilda viria para trabalhar com a gente, mas infelizmente o sonho dela foi frustrado na metade da viagem. Minha irmã não merecia, ela foi uma técnica de enfermagem que ajudou a salvar muitas vidas durante a pandemia”, acrescentou Moizaniel.

Agora, a família de Lenilda precisa arcar com as despesas para trazer o corpo da técnica de enfermagem ao Brasil. As filhas da vítima usaram a redes sociais para pedir ajuda. Uma vaquinha foi criada por elas com objetivo de arrecadar dinheiro. Moizaniel tem recebido doações da comunidade brasileira que vive nos Estados Unidos. Ele calcula em U$ 15 mil o valor total que precisará para despachar o corpo.

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