Em defesa do Morro Escuro
Serra do Morro Escuro, em Santa Maria de Itabira: associação luta pela preservação do local
Matéria publicada na edição 246 da Revista DeFato
A mineradora Manabi vai ter de dialogar abertamente e ser muito transparente em suas ações se quiser seguir adiante com os projetos de mineração em Santa Maria de Itabira. Uma pequena parte (mas muito atuante) da população não está nem um pouco satisfeita com o empreendimento e tem juntado forças para impedir a mineração – ou pelo menos garantir que a fiscalização seja efetiva e o meio ambiente respeitado.
Tão logo se espalhou a notícia, em 2012, de que um grupo de megaempresários havia fundado uma empresa para explorar as riquezas de Santa Maria, a Associação de Conservação Ambiental e Orgânica (Acaó) foi formalizada. A entidade, em ação desde o dia 8 de setembro do ano passado, conta com oito membros, mas tem outras dezenas de pessoas interessadas em aderir.
Ao articular-se em defesa da preservação do Morro Escuro, a Acaó vai ganhando musculatura. Parcerias com outras ONGs experientes vêm sendo formadas, como a Ama Lapinha, de Morro do Pilar, onde a Manabi também tem projeto de exploração. “A gente tem percebido que muita informação é escondida”, afirma a presidente da entidade, Marina de Assis Pires. “Estamos engajados em outros movimentos também para reforçar essa luta”, garantiu.
A maior preocupação da associação santa-mariense é com a água. Locais ricos em minério também são abundantes em nascentes, e segundo levantamentos preliminares, a localidade de Morro Escuro tem dezenas delas.
O investimento da Manabi é um dos maiores do estado: R$ 6,25 bilhões nos projetos Morro Escuro e Morro do Pilar. O complexo para a extração e beneficiamento prevê uma produção estimada em 31 milhões de toneladas anuais a partir de 2016, sendo 25 milhões de toneladas na mina de Morro do Pilar e seis milhões de toneladas na reserva de Santa Maria.
De acordo com a Acaó, era para ser um projeto único, mas a empresa fez o desmembramento para facilitar a obtenção das licenças ambientais. O problema é que, como os técnicos que analisarão os pedidos são de órgãos diferentes, não haverá avaliação de impacto ambiental integrado. Os membros da associação temem problemas de abastecimento na cidade, que deve crescer muito se o projeto minerário vingar. O rio Tanque, que passa no município, servirá à cidade de Itabira, com captação bem perto da nascente. O projeto, inclusive, é a opção mais viável para resolver o problema de desabastecimento que os itabiranos enfrentam. Com a mineração no Morro Escuro, a demanda pelos recursos hídricos para atividades consideradas menos nobres será grande.
O prefeito de Santa Maria, Olacir Aparecido Alvarenga de Oliveira (Grilo), é favorável à mineração, bem como os demais gestores públicos municipais. Para ele, é a oportunidade de a cidade sair do marasmo e crescer, proporcionando a seus cidadãos serviços de melhor qualidade com os recursos gerados dos impostos e royalties. Por outro lado, o prefeito reconhece que o efeito colateral será inevitável, principalmente nas áreas de saúde e segurança.
Há também a expectativa de geração de empregos, mas como se sabe, não há gente capacitada o suficiente para atender a todas as demandas. A intensa movimentação de pessoas de fora em Santa Maria, em decorrência das obras do mineroduto do projeto Minas-Rio, é um exemplo. “A cidade ficou irreconhecível”, afirmam moradores.
Alguns santa-marienses são a favor do empreendimento e acham que o município precisa, mesmo, melhorar. Há também aqueles com discursos ponderados: “Somos a favor, desde que…” O presidente da Câmara Municipal, Vicente Umberto dos Santos, é um dos que se manifestam assim. Para ele, a cidade não pode perder a oportunidade de ganhar dinheiro, contudo, as leis e a população devem se respeitadas. Uma das críticas de Vicente é quanto à falta de diálogo da empresa com os vereadores, representantes eleitos pelo povo para fiscalizar toda e qualquer movimentação de interesse público.
Jamais haverá unanimidade. A empresa defende seus interesses, a prefeitura os interesses da cidade, a sociedade organizada luta pela causas socioambientais e assim se faz a democracia. Ao olhar para a serra do Morro Escuro, coberta de verde e beleza, dá para entender os motivos da Acaó. Será o novo Pico do Cauê?