Entenda por que o BC deve elevar a taxa básica de juros

O que o aumento do preço de conserto do seu carro ou do seu corte de cabelo tem a ver com a elevação da taxa de juros do cheque especial, dos empréstimos bancários e do cartão de crédito? Por incrível que pareça, tudo. Nesta terça e na quarta, o Comitê de Política Monetária (Copom), do […]

O que o aumento do preço de conserto do seu carro ou do seu corte de cabelo tem a ver com a elevação da taxa de juros do cheque especial, dos empréstimos bancários e do cartão de crédito? Por incrível que pareça, tudo. Nesta terça e na quarta, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), decide a nova taxa básica de juros da economia, a Selic, que exerce grande influência nas taxas praticadas pelo mercado. Os economistas apostam numa alta entre 0,5 e 0,75 ponto percentual, o que elevaria a taxa de 8,75% para 9,25% ou 9,5% ao ano. Esse aumento é uma reação a uma economia aquecida, na qual a massa de salários está crescendo e a demanda por serviços e produtos começa a ficar maior do que a oferta, pressionando os preços. Ontem, o relatório Focus, do BC, elevou pela 14ª vez consecutiva a perspectiva para o IPCA em 2010, passando de 5,32% para 5,41%. Por isso, a autoridade monetária está entrando em campo para aumentar os juros e, com isso, desacelerar a economia tentando conter a alta da inflação.

“As famílias estão se sentindo cada vez mais confortáveis para consumir e a economia está crescendo rapidamente. Com isso, há espaço para aumento de preços”, diz André Braz, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV). De acordo com ele, pressionam a inflação os preços dos serviços – oficina mecânica, manicure e cabeleireiro, por exemplo – e os produtos alimentícios, como feijão, carne, leite e arroz, que começam agora um novo ciclo de alta. Para Evaldo Alves, professor da Escola de Administração de Empresas da FGV de São Paulo, a taxa de juros é um instrumento clássico, eficaz e rápido para o controle de pressões inflacionárias como as observadas atualmente. “A rigor, essa medida deveria ter sido tomada anteriormente, quando a pressão de preços já demonstrava consistência. Acredito que na próxima reunião do Copom seja estipulada uma alta de 0,5% da Selic”, observa.

O economista sócio da MCM Consultores Antônio Madeira lembra que com um crescimento da ordem de 10% ao ano na demanda doméstica brasileira, a pressão nos preços preocupa o BC. De acordo com ele, no fim de março a MCM esperava para abril um IPCA de 0,35%, mas teve que rever os seus cálculos para 0,53%. “O mercado, de modo geral, está percebendo a mesma coisa. Os vilões dos preços não deixaram de pressionar os índices inflacionários. Por isso, a desaceleração da inflação ficou bem aquém das expectativas.

Paulo Azevedo Pinto é sócio da Mecânica Santa Isabel, no bairro Santa Efigênia. A última vez que reajustou os preços dos serviços que presta no estabelecimento foi em março do ano passado. O próximo reajuste, que deverá ficar em 8%, será implementado no mês que vem. “Essa correção nos preços acompanha o salário mínimo. Tenho que acompanhar por causa do pagamento do meu pessoal, mas normalmente tento jogar para frente”, explica. A manicure Simone Marçal Mota trabalha num salão no Bairro Sion e diz que o preço para fazer pé e mão vai subir de R$ 15 para R$ 18 dia 1º. “A demanda está crescendo demais”, sustenta. Contribui para isso, segundo ela, o lançamento de novas cores de esmalte. “Um vidro de esmalte que antes do Natal custava entre R$ 1,80 e R$ 1,95 agora custa entre R$ 2,30 e R$ 2,45”, calcula.

Alex Agostini, economista-chefe da Austing Rating, explica que, à medida que a economia cresce, a geração de empregos também sobe, e o nível de renda fica mais elevado. Assim, sobra dinheiro para ir ao salão, para fazer o alinhamento e o balanceamento do carro ou para chamar a turma para uma bela feijoada no fim de semana. A corrida por serviços e produtos, assanha o comércio, que reage elevando preços. “Para a política monetária, permitir que a inflação ganhe corpo é um risco grande . Por isso, o BC aumenta a taxa básica de juros da economia, o que acaba interferindo nos juros praticados pelo mercado e inibindo o consumo desenfredado”, explica. A previsão para a taxa básica da economia no fim deste ano subiu de 11,50% para 11,75% ao ano na semana passada, o que pressupõe novas elevações no decorrer de 2010. Para o fim de 2011, a estimativa permaneceu em 11,25% ao ano.