Entrevista com Rosana Linhares, Secretária de Saúde: “O coronavírus é o mal do século”

Secretária de Saúde de Itabira, Rosana Linhares, avalia com preocupação a evolução da doença e comenta sobre a rotina estressante dos profissionais da área e sobre as medidas de restrição impostas à população

Entrevista com Rosana Linhares, Secretária de Saúde: “O coronavírus é o mal do século”
Foto: Thamires Lopes/DeFato
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A pandemia provocada pelo coronavírus (Covid-19) mudou a vida da população mundial. O direito de ir e vir foi cerceado em prol do bem comum e ficar em casa, respeitando o isolamento social, é uma medida que pode salvar vidas. O vírus é invisível, mas o estrago que causa é avassalador. Desde o início do surto, houve uma subida vertiginosa no número de casos diagnosticados e mortes.

O cenário futuro ainda é incerto e as projeções trazem apenas números frios, distantes, como apontam os próprios especialistas. Tudo é muito novo, e esse novo assusta. Em entrevista ao Jornal DeFato, a secretária de Saúde de Itabira, Rosana Linhares Assis Figueiredo, afirma que a Covid-19 é o mal do século e que a única forma de amenizar a gravidade da doença, por enquanto, é manter o distanciamento social. Leia a seguir!

Em algum momento da vida imaginou passar por algo parecido com esta pandemia?

Tenho mais de 30 anos de gestão em saúde. Passei por problemas graves, como febre amarela e H1N1. Foram anos muito difíceis, mas o coronavírus é o mal do século. A alta transmissão desse vírus, a dificuldade de governabilidade e de conter o contato são dificultadores. É uma questão de saúde pública gravíssima. Tanto é que está desafiando dos países mais bem falados na governança em saúde pública aos países mais emergentes como o nosso. 

Como tem sido estar na linha de frente de combate à pandemia?

A minha rotina pessoal está sendo muito difícil. A Saúde é uma secretaria em que fala-se muito, mas só quem vive nela conhece a realidade. É um setor muito exigido, que tem profissionais sérios e responsáveis. Mas também lidamos com as dificuldades do processo de trabalho. Na Saúde, os seres humanos são pérolas porque não são substituíveis. E, com isso, a gestão dos recursos humanos, que já é difícil em qualquer setor, se torna um complicador a mais. Eu já tinha um ritmo acelerado, é algo pessoal. Mas, também, porque pegamos a secretaria com grandes dificuldades no início da gestão.Se não tivéssemos saneado os problemas que encontramos em 2017, os hospitais não aguentariam essa crise. Minha rotina diária que era de mais de oito horas, hoje está em torno de 14 a 15 horas. Posso dizer que meu grupo de trabalho da Secretaria de Saúde só teve folga na Sexta-feira da Paixão. Não tivemos um final de semana livre desde o início de março. Todos os dias se tornaram dias úteis. 

Imagino que a pressão deva ser grande…

É muito difícil, é pressão de todas as formas. Tenho que retrabalhar, repensar e replanejar. E isso acontece ao longo dos dias quando surge um caso novo positivo, uma necessidade de equipe ou um fornecedor diz que não vai entregar o que estou importando. Aí, é outra lógica, outra técnica, outra tentativa. O retrabalho exige muito. E na Saúde o estresse é físico, mental e psicológico. Não é verdade que nós não sentimos a cada caso. Tem pessoas que eram pacientes nossos, que a gente acompanha há algum tempo. Não tem como não sentir. Eu tento estimular minha equipe. E quando todos estão cansados digo: “vamos dar um jeito de descansar”. Vamos achar pequenas ilhas de descanso porque o pior cenário nem começou. Temos exigência sobre nós, individualmente, eu sobre a equipe, a equipe sobre ela mesmo, e a população sobre nós no sentido que “errar é pecado”. E nós não somos insensíveis. Quando sento com equipe para conversar, dá vontade de chorar. Quando se fecham as portas, tocam os telefones. Quando todo mundo vai para casa descansar, muitas vezes é o horário que vou chamar a equipe de elite. A gente trabalha 14h, 15h, e não consegue tirar isso do pensamento. Porque está valendo vidas. Então, dentro da pandemia, trabalhamos assim em um ritmo de estresse. Tenho que dar colo para minha equipe que está cansada.

 Há uma projeção de casos para os próximos meses em Itabira?

A gente pode fazer projeção, mas não tem um parâmetro correto. A gente tinha uma projeção inicial para até 10 de abril. Nosso parâmetro vai mudando justamente porque a gente iniciou cedo o isolamento. A projeção do pico da Covid-19 tem interferência também com a chegada do inverno.  O parâmetro mais próximo, que é um dos melhores, para ter ideia da gravidade, é que em torno de 7% da população total de Itabira vá adoecer. O que corresponde a 8 mil, 9 mil pessoas. Destas, um volume vai para internação e um segundo grupo vai para as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Então, temos um grupo dentro do outro.

Todo esse cenário, no entanto, parece não assustar boa parcela da população. O que a senhora tem a dizer?

Eu conclamo a população para que a gente cumpra o isolamento domiciliar. O direito à democracia, de não ter um governo forçando uma postura, não significa que não deva cumprir o que é recomendado. Essa é uma responsabilidade pessoal para não ter o agravo e não levar à morte. E também coletiva, para não disseminar e propagar o vírus nessa pandemia. Estamos ainda no ensaio das escolas de samba, porque o desfile de carnaval ainda nem começou. Se estamos indo para as filas do banco, vamos pagar essa conta. Estamos indo para o comércio toda hora sem necessidade e essa conta virá. E nessa conta, infelizmente, os profissionais de saúde estarão envolvidos.

Cidades que não comprometeram metade de sua capacidade de atendimento  puderam afrouxar as medidas de isolamento. Na região, municípios menores, que dependem da Saúde de Itabira, estão adotando esse novo modelo. Qual a opinião da senhora?

Quando acontece, eu costumo fazer contato e sinto se o colega secretário teve um interesse de que aquilo não acontecesse. Existe uma pressão enorme para a reabertura do comércio em toda a região, assim como em Itabira. É difícil demais tratar todas as demandas, a Covid-19 vem passando por cima como um trator. São questões sociais, financeiras, mas de todas, não tem nada que seja mais prioritário que a manutenção da saúde, da vida, a diminuição do agravo da doença. Tem muitas teorias que citam que quem para a economia mais cedo, depois consegue se reestruturar mais rápido e com uma característica econômica melhor. Se não houver o distanciamento social, tudo que eu gastar com saúde não vai ser suficiente. Vamos ver mortes, vamos ver sofrimento, o desgaste dos profissionais estafados. Será que o que vemos na TV não vai acontecer em Itabira? É só da telinha para lá? Acabou de ter uma morte em Itabira. Será que ninguém achava que tinha o vírus aqui? 

Qual o percentual de comprometimento do sistema de saúde de Itabira?

Itabira tem uma estrutura de trabalho muito boa e é com ela que estamos enfrentando a pandemia. Não é qualquer município que tem isso. Mas temos que prever problemas em um cenário que não tem parâmetros. Em todo o mês de março, tivemos oito casos suspeitos que demandaram UTI. Nenhum se confirmou como Covid-19. Todas as nossas Unidades Básicas de Saúde (UBS) estão abertas para atender pacientes com sintomas gripais. Os casos que se confirmaram de coronavírus foram na rede ambulatorial. Então, por enquanto, tenho capacidade ociosa de atendimento na nossa rede. E temos que permanecer assim. Porque de um dia para o outro pode mudar. Tenho que me preparar para a guerra. A primeira batalha foi passar pelos primeiros parâmetros. A segunda batalha é fazer com que a população mantenha o distanciamento social.