Esperança entre as grades

Equipe da Capelania Prisional, juntamento do diretor do Presídio, Alex Vitor (casaco preto)

Esperança entre as grades

Reportagem publicada na edição 260 da Revista DeFato

Local de privações, distanciamento da família, do convívio social e de cumprimento de pena, a carceragem nunca foi um ambiente prazeroso ou desejado por ninguém. Sentimentos como desamparo, solidão e falta de esperança muitas vezes é o que resta para quem está em uma prisão.

Para tentar amenizar esse cenário, três grupos vão até o Presídio de Itabira com o intuito de levar consolo aos quase 300 detentos, escutar e ajudá-los quando possível. Um deles é a “Pastoral Carcerária Mensageiros da Paz”, mantida pela Igreja Católica, e que faz visitas aos detentos todas as quartas-feiras, de 8h30 às 11h30. Nesse grupo, estão cerca de 20 pessoas.

Entre as ações desenvolvidas, os integrantes realizam evangelização com os detentos e auxiliam na ressocialização, tanto dentro quanto fora do presídio, além de viabilizar questões jurídicas. Quando solicitada, a pastoral concede os sacramentos, como batismo e matrimônio. E, em todas as primeiras quartas-feiras do mês, os presos se reúnem no pátio para celebrações ministradas pelo grupo.  

De acordo com a secretária diocesana da Pastoral, Selma Coura Damasceno, existe uma preocupação com a vida espiritual dos detentos e também com o lado humano, garantindo o cumprimento dos direitos. “A Pastoral Carcerária não vai lá só para orar com o preso. Tem que estar atento às violações de direito dessa pessoa, se ele está sendo torturado, se está faltando comida, água para banho…”, exemplificou.

A secretária esclareceu que os integrantes da pastoral atuam também para preparar os detentos para a saída da detenção, o que inclui trabalhar junto à família do preso. Em muitas ocasiões, o próprio presidiário pede que a equipe visite os parentes para fornecer ajuda material e espiritual.

Um dos maiores desafios da Pastoral Carcerária – e da maioria dos grupos de apoio – é a reincidência. Conforme Selma, mesmo com o trabalho de ressocialização, o retorno à criminalidade chega a até 80%, especialmente por dois fatores: falta de oportunidade porque passou pelo cárcere; e ausência de inserção no retorno ao lar ou desagregação familiar, uma vez que, quando ele retorna, a própria família costuma afastá-lo, pois nem sempre está preparada para o receber.

Mesmo com esse alto índice de reincidência, a Pastoral não desanima e sabe que poderia ser pior se não fosse o trabalho dentro do presídio. “A maior importância desse trabalho é ser presença de Jesus junto à pessoa em situação de prisão e seus familiares. É dizer para ela que, apesar do seu delito, apesar de sua fragilidade, ela tem alguém que a ama e Deus a ama. É poder fazer aquilo que Jesus faria se estivesse no meu lugar”, comenta Selma.

De cela em cela

Com trabalho individualizado, um grupo com cerca de oito pessoas, de várias denominações evangélicas de Itabira, passam de cela em cela levando conforto aos encarcerados no presídio local. Com o princípio de oferecer perspectivas e possibilidade de transformação por meio da Palavra de Deus, o grupo “Capelania Prisional” atua também às quartas-feiras, das 14h às 16h. Liderado pelo pastor Renato Martins da Rocha, da Igreja Presbiteriana de Itabira, o trabalho de capelania existe na cidade há aproximadamente cinco anos.

A iniciativa surgiu ainda na gestão anterior do presídio, quando o então diretor, Alexandre José de Assis, abriu espaço para a atuação. Integrantes das igrejas Batista Central, Assembleia de Deus e Presbiteriana se organizaram e deram início à ação. “Esse trabalho funciona no sentido de levar uma palavra de conforto, de encorajamento, de direcionamento para eles. Acredito que o Evangelho é poder de Deus para mudar o homem”, declara o pastor.

Nas celas, os detentos têm acesso às Bíblias, que são distribuídas pelo grupo. O religioso atesta que, com isso, há mudança de vida, de comportamento e de interesses, não somente nas questões espirituais, mas no comportamento, no contato com os agentes penitenciários, com os outros presos e até com a família. Ao tomar conhecimento de situações de dificuldade, ou quando o próprio detento solicita, a Capelania também auxilia com doação de cestas básicas e outras ações.

Um dos focos do grupo é trabalhar a não reincidência. O pastor conta que às vezes tem a notícia de que determinado detendo saíra da prisão, mas que, após certo tempo, o encontra novamente na Unidade Prisional. O religioso admite que é difícil promover a reinserção, mas se apega em histórias bem sucedidas para continuar com o trabalho. “Os via lá dentro e agora aqui fora. Isso para mim tem sido muito legal, poder encontrá-los. A gente pode se aproximar deles e consegue ver um pouquinho de como eles estão. Isso para mim é um ganho muito grande”, comemora.

Momento de consolo

Desde a fundação do Presídio de Itabira, há cerca de seis anos, o “Grupo de Visita Luiz Sérgio”, composto por integrantes da Fraternidade Espírita Manoel Soares, desenvolve um trabalho focado em levar consolo aos detentos. Todas as quintas-feiras, três pessoas dedicam pelo menos uma hora do dia para visitar os reclusos.

A cada semana, um grupo de aproximadamente 12 detentos saem das celas para receberem ensinamentos focados em um tema da Bíblia previamente escolhido. A coordenadora do grupo de visita, Giovanna Maria Vieira Gonçalves, comenta: “Trabalhamos o lado moral, o comportamental, para eles terem mais calma e sabedoria para enfrentar o dia a dia lá dentro”.

A atuação da equipe iniciou quando uma detenta pediu à direção o envio de uma pessoa da religião espírita para uma conversa. A partir daí, foi formado um grupo que atendia apenas a mulheres. Com a transferência da unidade feminina para a cidade de Rio Piracicaba, o trabalho acabou focando o sexo masculino. A receptividade entre os detentos, segundo Giovanna, é muito boa, tanto que, quando os reclusos têm dúvidas, sempre questionam. Sem pregar religião, o trio atua de forma a lembrá-los do aprendizado, incentivando-os a não voltar à criminalidade quando soltos.

De acordo com a coordenadora, muitos não entendem o trabalho do grupo, às vezes por preconceito. Entretanto, ela chama as pessoas a mudarem a forma de pensar. “Se a gente aplicar no nosso dia a dia o ensinamento de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, consegue-se entender esse trabalho, que é muito importante, porque leva consolo e esperança”, diz.

Voluntários incansáveis

O diretor em exercício do Presídio de Itabira, Alex Vitor da Silva, aprova a presença dos grupos e ressalta a importância junto aos encarcerados. Ele explica que quando uma pessoa vai presa, perde o direito à liberdade, mas permanecem outros direitos. A assistência religiosa é um desses pontos intocáveis. “Esses trabalhos são de suma importância dentro do ambiente carcerário, pois oferecem aos detentos seu tempo, seus ouvidos e um olhar que não os recrimina”. Alex garante que a presença daqueles a quem chama de “voluntários incansáveis”, reflete diretamente no comportamento dentro do presídio, já que a pessoa encarcerada encontra auxílio nos voluntários, que se preocupam com o bem-estar deles e de seus familiares.

Alex conhece de perto a realidade do sistema prisional e, por isso mesmo, também lamenta o alto índice de reincidência. Apesar disso, ele ressalta que o detento não poderá lastimar-se de que, quando esteve recluso, ninguém o visitou ou o mostrou que existe outro caminho. “Gosto de pensar que aprendemos com nossos erros e que os que aqui entram não voltarão, pois é muito triste pensar que alguém não pode mudar. Sendo assim, acredito que esses grupos contribuem para uma mudança na vida dos detentos”, encerrou.

 

 Presídio de Itabira (Foto: Tatiana Santos)