Fatores como economia e política influenciam migração recorde de brasileiros para o Paraguai
O atual presidente tem estimulado correntes migratórias, oferecendo uma série de facilidades aos estrangeiros
Longas filas de brasileiros em postos migratórios do Paraguai tornaram se frequentes, impulsionadas por fatores econômico e justificativas de ordem política, a migração de brasileiros rumo ao Paraguai atingiu número recorde em 2025, número que mais que dobrou nos últimos cinco anos: mais de 23 mil pessoas ultrapassaram a fronteira em busca uma “nova vida”, pleiteando residência permanente junto ao governo guarani.
A proximidade entre os países, a facilidade migratória proporcionada pelo Mercosul e os baixos custos tributário e regulatório também fomentam o fenômeno.
Nas redes sociais multiplicam se os vídeos ressaltando os relatos de deslocamentos bem-sucedidos, embora especialistas salientem que os desafios são igualmente diversos.
A comerciante Gleita Barbosa, de 49 anos, há um ano tomou a radical decisão de deixar para trás a casa, o carro e o comércio que tinha em São Paulo, capital, e se mudou com o marido para Ciudad del Leste, segundo maior município do país vizinho, situado na tríplice fronteira com o Brasil e Argentina. Gleita viveu como imigrante nos Estados Unidos e Europa buscando melhores condições de vida, e conta que dessa vez a motivação foi ideológica.
“Estávamos desgostosos e cansados de viver no Brasil por conta da situação política, e viemos sem planejamento nenhum. Tivemos um período de adaptação, mas foi a melhor decisão que tomamos, me arrependo de não ter vindo antes. Não que o Paraguai seja perfeito, mas sentimos que aqui temos mais oportunidades. No Brasil nós tínhamos que matar dez leões por dia, e aqui são só dois. Virei paraguaia de coração“. Gleita agora se aventura como influenciadora nas redes sociais mostrando o dia a dia do país que a adotou.
Ela é parte dos 23.526 brasileiros que receberam autorização de residência em 2025, segundo a Direção Nacional de Migrações do Paraguai. O número corresponde a mais da metade dos 40,6 mil pedidos totais e é cinco vezes maior do que a segunda nação na lista de escolha dos brasileiros, a Argentina, com 4,3 mil.
Desde o fim da ditadura, em 1989, o Paraguai foi sucessivamente governado por presidentes de direita, com exceção do ex-bispo católico Fernando Lugo, entre 2008 e 2012.
O atual presidente, Santiago Peña, tem estimulado correntes migratórias, batizados de Migramóvil, oferecendo uma série de facilidades aos estrangeiros que pretendem se instalar no país.
O professor de Direito Internacional Solando Camargo, da Universidade de São Paulo (USP), explica que o fluxo entre os dois países é, na verdade, heterogêneo:
“Não existe um perfil único. Há empresários e empreendedores que enxergam um ambiente menor de custo operacional, tributação simples e menor burocracia. Há ainda o fenômeno histórico dos chamados “brasiguaios”, ligados ao agronegócio, que são pessoas em busca de terras mais baratas e expansão agrícola. Estudantes brasileiros, especialmente nas áreas de Medicina e Odontologia também vão ao Paraguai por conta das mensalidades universitárias mais acessíveis e o processos de ingresso menos competitivos. E há famílias buscando menor custo de vida, como aposentados e investidores imobiliários interessados em reorganização patrimonial“. Mas o especialista alerta que o país não oferece a mesma estrutura estatal e institucional que o Brasil, como o SUS, um sistema judiciário mais estruturado, um Ministério Público forte, maior digitalização estatal ou uma máquina administrativa mais sofisticada.
Fonte: O Globo/BBC News Brasil




