Impasse no governo alimenta rodovia da morte
Cena de ultrapassagem proibida é comum no trecho entre BH e João Monlevade
Um desentendimento entre dois órgãos da União retrata bem a ineficiência do governo federal para acabar com a matança na BR-381. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) abriu, no início do ano, licitação para contratar o projeto executivo que trata da duplicação dos 301 quilômetros entre Belo Horizonte e Governador Valadares, no Vale do Rio Doce. A previsão é de que a obra seja concluída em 2013. Por sua vez, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) trabalha para licitar a concessão do mesmo trecho à exploração pela iniciativa privada. A intenção é que o processo seja finalizado em 2009, com a expectativa de todo o percurso ser duplicado em seis anos. Uma das duas ideias terá de ser abortada. Enquanto o poder público não se entende, a Rodovia da Morte continuará colecionando vítimas, como os quatro universitários e o motorista da van que perderam a vida, na noite de quarta-feira, no km 435, perto de Ravena, em Sabará. Reveja as imagens da tragédia e saiba quem eram as vítimas.
A duplicação da Rodovia 381, orçada pelo Dnit em cerca de R$ 2 bilhões, foi incluída no capítulo do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) que trata das melhorias e adequações da malha viária do país. O trecho não estava presente na parte do programa que prevê a concessão de rodovias. Por isso, o órgão encomendou um projeto básico, que já foi concluído e do qual consta a construção de alguns túneis, sendo que dois deles já estão confirmados na variante Santa Bárbara, que terá 54 quilômetros e ligará São Gonçalo do Rio Abaixo à Nova Era, passando por João Monlevade, na Região Central, mudando o traçado original da BR-381. Esse trecho, cheio de curvas, é um dos mais perigosos da macabra via, como denunciam as várias cruzes às margens da estrada. O trecho entre São Gonçalo e Monlevade, considerado um dos piores da via (veja mapa), terá seu traçado drasticamente alterado.
O projeto técnico serve como base para o estudo executivo, que foi licitado pelo Dnit e será concluído em até 300 dias. Depois de pronto, o órgão abrirá outra licitação para a obra civil, a ser executada por empresas que vencerem os lotes do certame até 2013. “O projeto prevê mudar o traçado da pista para corrigir pontos críticos, (como) a variante. Dois túneis já estão confirmados em Santa Bárbara. Há possibilidade de outros. Também devemos construir passarelas nas áreas urbanas”, adianta a engenheira Meiry Santos, que participa do projeto. Mas o trabalho de Meiry pode ser em vão se a decisão da ANTT prevalecer.
A programação da agência para a duplicação da BR-381 mostra que todo o trecho só será alargado no sexto ano da concessão. Pelas contas, em 2015. Ou seja: as empresas vão colocar fim à matança na Rodovia da Morte depois que tiverem engordado as caixas registradoras, que serão instaladas em quatro postos de pedágio: no km 198, em Periquito (Vale do Rio Doce); no km 275, em Jaguaraçu (Vale do Rio Doce); no km 352, em João Monlevade (Região Central); e no km 429, em Caeté, na Grande BH, onde moravam as cinco vítimas que perderam a vida na colisão entre a van e o caminhão de Jundiaí (SP).
A concessão pode ocorrer ainda em 2009 e a tarifa para os veículos de passeio será de R$ 4,38. A cobrança de pedágio na via e a previsão de que a duplicação não ficará pronta antes do cronograma projetado pelo Dnit desagradou a muita gente – desde simples usuários até lideranças que empunham a bandeira do alargamento da estrada. É o caso do deputado federal Alexandre Silveira (PPS), que foi diretor-geral do Dnit e superintendente do órgão em Minas. Ele teve participação importante para contratar o projeto básico.
“É imoral falar em cobrança de pedágio numa rodovia que mata centenas de pessoas todos os anos sem que ela seja duplicada. É uma irresponsabilidade requerer (dos motoristas) qualquer centavo sem antes fazer as melhorias necessárias. Ou seja, o modelo da ANTT é de que o corredor será duplicado à medida que se atinja o (chamado) gatilho (aumento do tráfego de veículos)”, disse Silveira. A agência, por e-mail, informou que o projeto executado pelo Dnit “será integralmente aproveitado com as adequações que forem necessárias à época da execução das obras”.