Ingerência x Transparência

Confira o novo texto da economista e colunista da DeFato, Rita Mundim

Ingerência x Transparência

Na sexta feira (19), quando eu gravei e enviei o vídeo que foi postado aqui, Roberto Castello Branco era o presidente da Petrobrás que deveria ser reconduzido ao posto, por mais 2 anos, na Assembleia de Acionistas que acontece na terça (23/02), e, a prisão do deputado federal Daniel Silveira, era a prioridade a ser debatida pelo meio político, roubando, novamente, o foco da tão necessária pauta econômica.

Na quinta-feira, à noite, na live que faz todas as semanas no programa Pingo nos Is, da Jovem Pan, o presidente Jair Bolsonaro demonstrou irritação e insatisfação com o reajuste de combustíveis anunciado pela Estatal, em especial com o de 15% para o óleo diesel, e deu a entender que a Petrobrás deveria passar por mudanças, e, de forma direta disse não ter gostado do descaso, em relação aos caminhoneiros, contido na fala de Castello Branco.

Na abertura do pregão da B3, na manhã de sexta-feira, um mercado ressabiado e nervoso precificou, desde a abertura, a possibilidade da saída de Castello Branco que foi confirmada por Lauro Jardim, da Revista Veja, e, negada por Sônia Racy, da Agência Estado. Na dúvida, os investidores venderam o papel.

As ações Ordinárias e Preferenciais caíram em média 8%, e, o valor de mercado da empresa sofreu uma queda de R$28,2 bilhões, em apenas, um pregão. O temor dos investidores que já havia sido apontado, na terça feira de carnaval, pela FITCH, uma das 3 maiores agências de classificação de risco do mundo, era o de que a União, enquanto acionista controladora da Petrobras, pudesse interferir na política de preços da empresa, e assim, comprometer a qualidade de sua gestão e de seus resultados.

A FITCH manteve a nota de risco em BB- , mas com perspectiva negativa, por acreditar no “potencial” retorno de uma interferência política mais forte na estratégia da Petrobras, por meio dos preços domésticos da gasolina e do diesel, e, parece que a FITCH pode estar certa.

A destituição de Castello Branco e a condução do general Luna ao comando da empresa tem que passar pela aprovação do Conselho de Administração, que como eu disse antes, se reunirá na terça feira.

Mas vamos aos fatos: quando tínhamos um horizonte de trabalho e de votação das mais importantes pautas econômicas do País, a partir da eleição das novas mesas da Câmara e do Senado, para a solução dos problemas de curto prazo, como é o caso da PEC de Guerra para lidarmos com as despesas da pandemia com responsabilidade fiscal, e das pautas necessárias para colocar o País no trilho do crescimento sustentável, no médio e longo prazo

Aí nós estamos falando das reformas administrativa e tributária , surge uma crise que dada a sua natureza, poderá colocar em xeque toda a promessa de campanha de um governo liberal que foi apregoada, pelo então candidato Jair Bolsonaro, e que tinha naquele que seria o super ministro da economia, o seu posto Ipiranga, Paulo Guedes , um fiador de peso, e, que conseguia dar credibilidade ao discurso de Bolsonaro.

A classe média brasileira, o empresariado que apoiou e votou em Bolsonaro foi na sua maioria compradores do discurso do liberalismo dado o potencial de sua execução, sob a batuta de Paulo Guedes.

O governo Bolsonaro começa, em janeiro de 2019, com a tragédia de Brumadinho, e, com a crise argentina que comprometeram fortemente o desempenho da indústria e consequentemente da economia em geral.

No início de 2020, os números já apontavam que o País poderia começar a decolar e que poderia terminar o ano com um crescimento de 3%, e, em fevereiro, veio a epidemia chinesa que se transformou em pandemia, em março, e a gestão de uma crise econômica mundial sem precedentes passou a ser a prioridade em um País dividido e polarizado que politizou a pandemia tornando mais difícil a votação de decisões políticas capazes de melhorar o desempenho econômico.

Em 01 de fevereiro de 2021, com a vitória dos candidatos apoiados pelo Presidente Jair Bolsonaro, na Câmara e no Senado, apareceram o túnel e a luz no fim do túnel, e, o mercado precificou a volta do diálogo entre executivo e legislativo, e, consequentemente, a volta da priorização da agenda econômica com a expectativa de votação das matérias necessárias para destravar a economia.

E agora José? O desenrolar desta crise provocada pela provável troca de comando na Petrobrás está colocando em xeque todo um programa de governo que foi validado nas urnas com a vitória de Bolsonaro, está sendo colocado em xeque todo um trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Ministério da Economia, pelo Banco Central, pela Caixa, pelo Banco do Brasil e pelo BNDES no sentido de criar um ambiente propício à produção e de diminuir a presença do Estado na economia.

Pouca gente consegue enxergar que este trabalho já gerou resultados inimagináveis há cinco anos atrás. Temos a menor taxa de juros da história, nossas exportações voltaram a crescer fortemente, a indústria nacional dá sinais claros de recuperação, e, as vendas ao varejo bateram o recorde histórico que era de outubro de 2014.

Apesar da pandemia, a recessão em 2020 deve ser menor do que aquela gerada pelo governo Dilma Roussef, em 2015.Isso não pode ser desmontado pelo bem das gerações futuras. E, minha conclusão nessa história toda é: PRIVATIZEM A PETROBRAS, PELO BEM DO BRASIL.

Enquanto a Petrobras for controlada pela União, nossos presidentes, políticos de carteirinha, por mais bem intencionados que possam estar, serão reféns do populismo, da vontade , do desejo de se tornarem senhores do preço de uma commodity , do petróleo, e, de forma imediatista e irresponsável acreditarem estar servindo ao povo enquanto destroem a Petrobras e seu patrimônio que também é do povo brasileiro, em troca de votos que não resolverão a dependência do País do modal do transporte rodoviário, e, muito menos ajudarão na redução do custo Brasil e na melhora da eficiência da própria Petrobras.

Para que o problema seja resolvido é necessária a vontade política de fazer diferente e de implantar o modelo liberal. A PETROBRAS não pode ser a solução e nem o problema do Brasil.

As cenas dos próximos capítulos nos dirão se continuaremos a trilhar a busca do crescimento sustentável via liberalismo, ou se, de novo, seremos largados à deriva no barco do populismo.

Rita Mundim é economista, mestre em Administração e especialista em Mercado de Capitais e em Ciências Contábeis

O conteúdo expresso neste espaço é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião da DeFato.

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