Mineração prevê US$ 76,9 bi; e a reparação ambiental?
IBRAM projeta crescimento dos investimentos até 2030, mas não detalha quanto será destinado à recuperação de áreas degradadas e aos passivos da mineração
O setor mineral brasileiro projeta US$ 76,9 bilhões em investimentos entre 2026 e 2030. O número, apresentado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) durante coletiva à imprensa nesta terça-feira (3), reforça o peso econômico da atividade, responsável por 55% do saldo da balança comercial brasileira em 2025.
No entanto, junto com o volume expressivo de recursos, emerge uma pergunta central ainda sem resposta objetiva: quanto desse investimento será destinado à recuperação ambiental e ao enfrentamento dos passivos da mineração?
De acordo com o documento “Setor Mineral 2025”, divulgado pelo IBRAM, os investimentos projetados representam crescimento de 12,5% em relação ao ciclo anterior .
Além disso, o instituto estima que US$ 21,3 bilhões desse total serão direcionados especificamente a minerais críticos e estratégicos, como lítio, grafita, cobre, níquel, terras raras e nióbio, alta de 15,2% frente à previsão anterior.
Investimentos crescem, mas a reparação ambiental não aparece detalhada
Embora o documento apresente dados detalhados sobre faturamento, exportações, empregos e projeções de investimentos, ele não discrimina valores específicos destinados à recuperação de áreas degradadas, ao descomissionamento de barragens de rejeitos ou à gestão ambiental de longo prazo
Em 2025, o setor mineral faturou R$ 298,8 bilhões, com crescimento de 10,3% em relação a 2024, e gerou 229.312 empregos diretos .
Ao mesmo tempo, arrecadou R$ 103,1 bilhões em impostos e tributos, sendo R$ 7,9 bilhões em Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM).
Ainda assim, o material não apresenta um recorte específico sobre quanto desses recursos retorna diretamente para ações estruturadas de reparação ambiental.
O futuro dos rejeitos entra no debate — mas sem números
Durante a coletiva, dirigentes do IBRAM destacaram que o setor discute soluções para o futuro dos rejeitos e para a redução de riscos associados às barragens. No entanto, o documento técnico divulgado não apresenta uma rubrica clara de investimento dedicada exclusivamente à gestão de rejeitos, reaproveitamento de resíduos ou encerramento seguro de estruturas antigas.
Esse ponto ganha relevância especialmente em estados como Minas Gerais, que concentrou 45% de toda a arrecadação da CFEM em 2025 e liderou o faturamento do setor, com 39,9% do total nacional ,
O estado também abriga centenas de barragens de rejeitos e áreas mineradas que exigem monitoramento permanente e recuperação ambiental contínua.
Assim, embora o setor avance em tecnologia, produtividade e exportações, a dimensão ambiental dos investimentos permanece apresentada de forma agregada, sem detalhamento técnico no documento público.
Rejeitos, barragens e passivos: uma conta de longo prazo
O próprio crescimento do setor amplia o desafio ambiental. Em 2025, o Brasil exportou cerca de 431 milhões de toneladas de produtos minerais, alta de 7,1% em relação ao ano anterior, totalizando US$ 46 bilhões em exportações. O minério de ferro respondeu sozinho por 63,3% desse volume.
Esse nível de produção gera rejeitos em escala igualmente elevada. Ainda assim, o relatório do IBRAM não consolida dados sobre passivos ambientais acumulados nem sobre o custo estimado para recuperação total das áreas impactadas.
Especialistas apontam que a gestão de rejeitos não se limita à segurança de barragens. Ela envolve recuperação de solos, recomposição de cursos d’água, monitoramento ambiental permanente e garantia de recursos para o pós-fechamento das minas — etapa historicamente subfinanciada no setor mineral.
Quanto do investimento vira reparação ambiental?
Diante dos números apresentados, a pergunta se impõe de forma direta: quanto dos US$ 76,9 bilhões projetados até 2030 será convertido em reparação ambiental efetiva?
Os dados divulgados pelo IBRAM não permitem, até o momento, responder a essa questão com precisão.
O documento consolida projeções econômicas robustas, mas não separa, de maneira transparente, os recursos destinados à mitigação de impactos ambientais e à reparação de passivos históricos.
Além disso, parte significativa das ações de reparação no Brasil ocorre por meio de acordos judiciais e termos específicos, especialmente após grandes desastres, o que fragmenta a informação e dificulta a leitura sistêmica do setor.
Mineração estratégica, reparação invisível?
O debate se torna ainda mais sensível no momento em que o Brasil se projeta como fornecedor global de minerais críticos para a transição energética. Paradoxalmente, os mesmos minerais que sustentam tecnologias limpas carregam impactos ambientais relevantes, que exigem planejamento de longo prazo e investimentos dedicados.
Por fim, os números apresentados pelo IBRAM confirmam a força econômica da mineração brasileira. No entanto, enquanto os investimentos futuros seguem claramente quantificados, a dimensão da reparação ambiental permanece diluída nos dados públicos. Assim, a pergunta segue aberta — e estratégica: desenvolvimento mineral sem transparência ambiental é sustentável?




