Ministério Público questiona uso de royalties do minério em Itabira
Prefeitura de Itabira questionou alguns pontos do relatório do procurador do Ministério Público de Contas

Um relatório do Ministério Público de Contas, órgão ligado ao Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE/MG), aponta uso irregular dos valores arrecadados por Itabira através da Compensação Financeira pela Exploração dos Recursos Minerais (Cfem). O documento, assinado pelo procurador Marcílio Barenco Corrêa de Mello, questiona R$ 15.988.041,04 que teriam sido aplicados, entre janeiro e setembro de 2013, em finalidades que não se enquadram nas destinações corretas dos royalties.
A Cfem é uma porcentagem que as empresas pagam à União, estados e municípios sob o faturamento líquido obtido com a atividade extrativista. No caso do minério de ferro, esse repasse equivale a 2%. Do total repassado, os municípios recebem 65% do valor. Mas há um porém. O dinheiro só pode ser usado em ações relacionadas à recuperação do solo e do subsolo, infraestrutura, saúde, educação, diversificação da base produtiva e melhoria do meio ambiente.
No relatório, o procurador do Ministério Público de Contas afirma que a Prefeitura de Itabira, nos nove primeiros meses de 2013, investiu cerca de R$ 16 milhões em ações como pagamento de servidores municipais, quitação de dívidas da Itaurb e de contratos de prestação de serviço da mesma autarquia, despesas correntes, festividades, sepultamento e manutenção de velório e locação de veículos terceirizados.
Do atual Governo, são citados no relatório, além do prefeito Damon Lázaro de Sena, o ex-secretário municipal de Fazenda, Paulo Henrique Gomes de Figueiredo, o ex-secretário de Administração, Douglas Silva de Oliveira, a chefe de departamento de Finanças, Marilene Regina Souza Dias Lara, o chefe do departamento de Contratos, Roberto Ferreira de Alencar, e a chefe da seção de Tesouraria, Elza de Carvalho Vicente. O documento também inclui dois membros do governo passado: o ex-secretário de Administração, Henrique Duarte Carvalho, e o ex-chefe do departamento de Contratos, Nilo Grisolia Rosa, responsáveis pelos cargos em 2012. Todos tiveram prazo de 30 dias para que apresentassem defesa.
Movimentação inadequada
A primeira observação do procurador é a respeito de transferências não adequadas. Segundo o relator, a Prefeitura transferiu dinheiro dos royalties, que é depositado em conta do Banco do Brasil, para contas da Caixa Econômica Federal, o que dificulta a fiscalização dos órgãos reguladores.
“A Unidade Técnica constatou que as transferências realizadas pelo município das receitas da Cfem para diversas contas bancárias não favorece a operacionalidade das transações, bem como dificulta a fiscalização da aplicação dos recursos, além de não permitir a individualização e o controle das despesas relativas às finalidades da Cfem”.
Pagamentos a servidores e dívidas da Itaurb
De acordo com o relatório do procurador Marcílio Barenco Corrêa de Mello, a Prefeitura de Itabira gastou R$ 282.106,26 do dinheiro da Cfem para pagamentos a servidores municipais. O representante do Ministério Público de Contas também questionou R$ 5 milhões que foram repassados para quitar dívidas da Itaurb. No entanto, apurou-se que R$ 3.346.438,53 se enquadravam em exceções previstas na lei, de que o repasse dos royalties pode ser usado em pagamentos de dívidas com a União. Dessa forma, restaram irregulares R$ 1.653.561,47, referentes aos pagamentos efetuados para quitação de dívidas de processos judiciais trabalhistas.
O procurador cita que, em defesa, a Prefeitura de Itabira argumentou que solicitou ao Banco do Brasil a transferência da conta de ICMS para a conta dos royalties, do valor de R$ 5.282.106,26, com a finalidade de regularização da aplicação dos recursos da Cfem. O município apresentou o comprovante do depósito, mas o MP cobra mais documentos comprovando a transferência solicitada, como os extratos das duas contas bancárias e a cópia do cheque.
R$ 10,4 milhões pagos à Itaurb
Outro questionamento apresentado pelo procurador diz respeito a R$ 10.495.037,34 pagos pela Prefeitura à Itaurb por prestação de serviços de limpeza. O representante do MP entende que os trabalhadores da autarquia são enquadrados no Plano de Cargos e Carreira dos Servidores Públicos de Itabira e, por isso, a ação se configura em pagamento de quadro pessoal com dinheiro da Cfem.
Despesas diversas
Consta no relatório mais uma observação do procurador do Ministério Público de Contas: R$ 3.557.335,97 para despesas correntes, festividades, sepultamento e manutenção de velório e gastos com locação de veículos.
“A utilização dos recursos advindos da exploração mineral para determinado fim, vedado pela lei que os instituiu, configurou desvio de finalidade na sua aplicação e desatendimento ao interesse público”, afirma o procurador Marcílio Barenco Corrêa de Mello em sua recomendação ao Tribunal de Contas.
Em 2012
O procurador explica que dois integrantes do governo anterior, no exercício de 2012, foram citados porque deixaram restos a pagar no valor de R$ 337.846,59, que não se relacionam com a finalidade dos recursos da Cfem. Marcílio Barenco responsabiliza o ex-secretário de Administração, Henrique Duarte, pelo valor de R$ 276.501,28, e o ex-chefe de departamento de Contratos, Nilo Grisolia, por R$ 61.345,31.
Os restos a pagar se originaram em contratos celebrados com a Construtora Vale Verde para prestação de serviços de motoristas, destinados ao transporte de pessoas, pequenas cargas e especiais, por meio de 55 veículos, para atender às necessidades da Prefeitura.
Recomendações
O representante do Ministério Público de Contas termina a análise recomendando que a situação vá logo a julgamento no Tribunal de Contas. Ele opina que haja punição a todos os citados no ofício. A primeira sanção seria multa de R$ 35 mil ao prefeito Damon e aos integrantes do atual governo e de R$ 5 mil a Henrique Duarte e Nilo Grisolia.
Outra recomendação é que haja um prazo de 30 dias para recomposição dos recursos indevidamente aplicados. Caso não haja a recomposição, o procurador sugere que o prefeito Damon seja condenado a ressarcir integralmente os valores apurados. Por fim, o representante do Ministério Público pede a inabilitação de todos os citados para o exercício de cargo em comissão ou função de confiança da administração pública estadual ou municipal, por cinco anos.
Após a manifestação do Ministério Público de Contas, a análise dos gastos da Cfem em 2013 ficará por conta do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais que vai julgar se o uso do dinheiro foi ou não irregular.
Resposta
Procurada por DeFato Online, a Prefeitura de Itabira apresentou extensa explicação sobre aplicação dos recursos considerados irregulares pelo procurador do Ministério Público de Contas. O Poder Público afirma que já apresentou provas de que repôs o dinheiro na conta da Cfem e contesta algumas pontuações do representante do MP.
Confira, na íntegra e com destaques da própria Assessoria de Comunicação, as alegações da Prefeitura de Itabira: