Ministro das Comunicações omite patrimônio do TSE e causa constrangimento no Planalto
De acordo com apuração feita pelo Estadão, Juscelino Filho escondeu um patrimônio de ao menos R$ 2,2 milhões em cavalos da raça
O ministro das Comunicações do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Juscelino Filho, escondeu do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um patrimônio de ao menos R$ 2,2 milhões em cavalos da raça. Em agosto do ano passado, quando registrou sua candidatura a deputado federal, ele possuía ao menos 12 animais Quarto de Milha, adquiridos em leilões. Os cavalos são criados no haras dele em Vitorino Freire, no Maranhão, onde mandou asfaltar, com dinheiro do orçamento secreto, uma estrada que corta fazendas da família e passa na frente de sua pista de pouso.
Em reportagem, o Estadão levantou o patrimônio oculto do ministro cruzando informações de entidades de criadores e de negociantes de animais. Num primeiro momento, a reportagem identificou registros de cavalos em nome de Juscelino no banco de dados da Associação Brasileira de Quarto de Milha (ABQM). A entidade, reconhecida pelo Ministério da Agricultura, mantém um serviço de certificados, que inclui o nome do proprietário, data de nascimento, sexo e pelagem dos cavalos.
Com os nomes dos animais registrados por Juscelino, a reportagem encontrou os animais em leilões realizados em Alagoas, Ceará, Maranhão, São Paulo e Sergipe, Estados estratégicos para o mercado de animais de vaquejadas. Foram assistidas a 56 horas de gravações, de 14 pregões.
A negociação dos cavalos, atividade paralela à política, não costuma aparecer nas redes sociais do ministro, usadas com frequência para divulgar suas tarefas ministeriais e momentos de sua vida privada. Nos leilões de animais, Juscelino é festejado pelos organizadores, que o tratam como dono do haras em Vitorino Freire. No papel, o estabelecimento pertence à irmã do ministro, a prefeita Luanna Rezende (DEM), e a Gustavo Marques Gaspar, um ex-assessor dele na Câmara.
Gaspar está nomeado na liderança do PDT no Senado. Ainda segundo a apuração do Estadão, um funcionário do haras, por meio de contato telefônico, afirmou não conhecer nenhum Gustavo Gaspar.
Patrimônio
Em declaração à Corte Eleitoral, o ministro informou um patrimônio de R$ 4,457 milhões, com fazendas, carros, 50% de uma aeronave, um apartamento e o terreno onde está instalado o haras O registro não inclui animais nem embriões. O valor declarado por ele é semelhante aos R$ 4,426 milhões que movimentou em leilões desde 2018. No período, além das compras, o ministro vendeu 14 animais da raça Quarto de Milha.
A declaração de bens é exigida pela Justiça Eleitoral para garantir que o eleitor possa acompanhar a evolução patrimonial do seu candidato e também para indicar se o postulante pode ou não doar dinheiro para sua própria campanha. Os dados são apresentados pelo próprio candidato e se ficar comprovado que ele mentiu pode ser responsabilizado.
Os cavalos do ministro estão num haras com 165 mil metros quadrados, o equivalente a 15 campos oficiais de futebol. O terreno pertencia à prefeitura de Vitorino Freire. Em 1999, o então estudante Juscelino Filho, um adolescente de 14 anos, comprou a área por R$ 1 mil (R$ 4,3 mil em valores corrigidos). O pai dele, Juscelino Rezende, era o prefeito — logo, o vendedor do imóvel.
FAB
Outra reportagem publicada pelo Estadão revelou que Juscelino usou um voo da FAB e recebeu R$ 3 mil de diárias para ir a leilões de cavalos no interior de São Paulo. Ele justificou ao governo que tinha compromissos “urgentes” na capital paulista.
Dos quatro dias que passou por lá, porém, sua agenda de trabalho tomou duas horas e meia e envolveu uma visita à sede da Claro e aos escritórios da Telebras e da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A sede da agência fica em Brasília. O restante do tempo foi inteiramente dedicado aos eventos de cavalos.
Em um dos discursos na agenda paralela, Juscelino disse que usaria o cargo de ministro das Comunicações para impulsionar o mercado de cavalos e se apresentou como “integrante da equipe do presidente da República”.
No ano passado, como deputado, Juscelino apresentou um único projeto de lei. Propôs criar o Dia Nacional do Cavalo pelo “papel histórico na humanidade e nos tempos modernos”. Não convenceu seus pares a aprovar. Procurado, o ministro não se manifestou.
Constrangimento ao Planalto
Interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva dizem que ele aguarda explicações do ministro das Comunicações, Juscelino Filho, sobre o uso de avião da FAB e recebimento de diárias para uma agenda majoritariamente privada em São Paulo voltada para sua paixão, os cavalos. A situação provoca constrangimento no Palácio do Planalto, mas a ordem de Lula é para que os ministros não comentem o assunto em público.
Em conversas reservadas, deputados e senadores da base aliada afirmam que Lula deveria demitir rapidamente Juscelino, após série de reportagens publicadas pelo Estadão revelar esquemas envolvendo o titular das Comunicações.
A indicação está na cota do União Brasil, embora a bancada diga que não tenha tido qualquer influência na nomeação. Deputados da bancada disseram que Juscelino não conseguiria 30 assinaturas no partido hoje de apoio.
“Ele tem que responder”, disse o deputado Carlos Henrique Gaguim (União Brasil-TO). A indicação de Juscelino deveria partir da Câmara, mas o senador Davi Alcolumbre (AP) o levou à pasta. O líder da legenda na Câmara, Elmar Nascimento (BA), pediu que os congressistas não comentassem sobre o ministro.
Orientações
Líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA) diz esperar orientações do Planalto sobre como lidar com a crise no Ministério das Comunicações. “Não tenho posição pessoal. Sou líder do governo, eu vou ter que esperar a avaliação que se faz no centro do governo, na Casa Civil”, afirmou. O senador evitou sair em defesa de Juscelino, mas afirmou que é preciso analisar o caso. “Acho que não podemos prejulgar ninguém. Temos que esperar a revelação dos fatos, a investigação, para saber se tudo que estão falando é pertinente ou não”, disse.




