Moradores de vila em extinção em Itabira choram mais uma vez os seus problemas

Virou rotina: autoridades na frente e um público humilde na plateia. Mais precisamente, mulheres compondo o grupo de participação em número de 50, aproximadamente. Tema: extinção da Vila Paciência, o oficial bairro Nações Unidas, em Itabira. O processo é chamado de construção de Zona de Amortecimento da Vale. Para alguns moradores, como ficou claro nesta […]

Virou rotina: autoridades na frente e um público humilde na plateia. Mais precisamente, mulheres compondo o grupo de participação em número de 50, aproximadamente. Tema: extinção da Vila Paciência, o oficial bairro Nações Unidas, em Itabira. O processo é chamado de construção de Zona de Amortecimento da Vale. Para alguns moradores, como ficou claro nesta data, “essa é uma caminhada muito difícil e complicada”.
 
A reunião desta terça-feira, 11 de maio, ocorreu no salão da Associação dos Moradores da Vila Paciência, dirigida pelo vereador Paulo Ferreira Chaves (PSDB), presidente da Comissão de Legislação Participativa da Câmara Municipal. Presente, também, a vereadora Martha Mousinho (PTN), relatora da comissão. Ambos prometeram agilizar o encaminhamento à Vale e aos órgãos públicos das reivindicações feitas durante a reunião em que esteve presente, também, o presidente da associação José Eduardo dos Passos Guerra. Pela Vale, para mais uma vez ouvir pacientemente e anotar reclamações dos moradores, compareceram Mariana Diniz, do setor de Relacionamento Institucional, e Nicolle Guimarães, da Comunicação Social.
 
E como das vezes anteriores, nada resolvido, por enquanto. A situação é a seguinte: a Vale quer adquirir 117 imóveis na Vila Paciência, todos situados na parte de cima. Já adquiriu e demoliu 34, segundo os moradores da região. O processo de aquisição está lento, praticamente parado, informaram pessoas presentes à reunião. Muitos não querem vender os seus imóveis, outros, pelo contrário, esperam resolver o problema logo. “A Vale não esquenta”, disse um participante do encontro.
 
O choro da vila é cada vez mais cheio de argumentos: falta de diálogo, desencontro de informações, contradições em propostas, situação de abandono, falta de coleta de lixo, limpeza e capina em determinadas ruas, insegurança, desvalorização total dos imóveis e estado psicológico afetado. Grande parte dos presentes era da Vila Cisne, região localizada acima da chamada Zona de Amortecimento, mais próxima da mineração. Desses as lamúrias foram ainda mais repetidas.
 
No final de reuniões dessa natureza há sempre um encontro mais informal na porta e aí as reclamações crescem, as pessoas se sentem mais livres. DeFato anotou de uma moradora a seguinte informação: “A Vale construiu um luxuoso campo de golfe para a alta classe de donos de terrenos no Condomínio Morro do Chapéu, no município de Nova Lima. Pesquise isso e responda o que será de nós se não merecemos nada!”
 
DeFato pesquisou: a Vale não construiu; o campo existe há cerca de 50 anos; mas a mineradora está, sim, reconstruindo, ou reformando o luxuoso espaço. O internauta pode conferir no site
 http://www.morrodochapeu.com.br/index.php?pagina=noticias&noticiaId=58&acao=noticia
 
CHUVA DE RECLAMAÇÕES
 
Todas as pessoas que falaran tiveram suas solicitações gravadas, seus nomes anotados e receberam a promessa, tanto da parte da Vale, quanto da Comissão de Legislação Participativa da Câmara Municipal, de encaminhamento ao setor competente. Desta vez, além da empresa, a Prefeitura e a Itaurb deverão receber solicitações sobre problemas que estão sendo criados na Vila Paciência.
 
O primeiro deles parecia estar fora de pauta: o senhor Efigênio Francisco da Costa pediu explicações à diretoria da associação sobre uma suposta dívida da entidade com o fisco estadual. O presidente tentou explicar, mas Valério Adélio, supervisor do Gabinete de Paulo Chaves, desculpou-se pelo fato de terem os proponentes da reunião que cumprir uma pauta diferente.
 
E começou a chover de reclamações, assim resumidas em palavras dos participantes:
 
            — Qual é o critério da Vale para escolher a área a ser adquirida nos próximos dias?
            — A Vila Cisne sempre por último, por quê?
            — Escorpiões, ratos, baratas em algumas casas, resultado da falta de capina e recolhimento do lixo.
            — Por que não negociação conjunta?
            — A Vale não percebe que os moradores da parte de baixo estão perdendo as suas casas, cada vez mais desvalorizadas?
            — Tentei vender a minha casa e ninguém mesmo quer comprar, nem as imobiliárias querem vendê-la.
            — A Vale tem que definir um projeto de atuação aqui no bairro.
            — A Vale nos está arrasando psicologicamente.
            — Eu acordo de manhã e vejo trabalhadores a serviço da Vale demolindo casas em frente à minha. Muito barulho na minha cabeça trazendo a desesperança.
            — Será que a Prefeitura e a Câmara Municipal sabem que a Vila Paciência está acabando?
            — A Prefeitura e a Câmara Municipal precisam se engajar mais em nossos problemas. Afinal, moramos na cidade, pagamos impostos e estamos sendo expulsos de forma cruel.
            — A melhor coisa que temos aqui é a associação comunitária, mas ela está muito devagar, precisa agir mais, falar por nós, nos representar.
            — Há cerca de dois anos estamos nesse lenga-lenga, nessa tortura, nada se resolve, somente reuniões que a nada levam.
            — Estamos com dificuldades de comprar no comércio. Os comerciantes nos julgam pessoas sem endereço. Eles temem nos perder de vista.
            — A Vale vem e nos faz uma proposta. Como é muito baixa, diz que podemos fazer uma contra-proposta. Quando voltam para ouvir a nossa contra-proposta, diminuem a primeira proposta.
            — Não há como discutir com um por um. A Vale deve estar sentindo esse problema. Poderia negociar com todos do bairro e resolver isso. Por que não?
 
FINAL SEM SER FELIZ
           
Entre os presentes, Erasmo Carlos, da Vila Cisne, fez um relato completo e dramático do problema que a comunidade está enfrentando. Falou da situação de todos e se mostrou indignado com a demora, com o “terror negociações, que nunca terminam”. E disse mais: “Será que vamos esperar durante 20 anos para ver esse problema resolvido?”
 
Erasmo Carlos, que tem uma fala fluente — “embora não seja nem cantor nem compositor”, comentou um seu amigo — lembrou que todos deveriam se unir, “porque todos vão sofrer com o que está ocorrendo aqui, moradores de baixo e de cima e mesmo o bairro do Pará”. Lembrou que quando a Vale começou a fazer pesquisas na Vila Paciência, a sua filha mais velha tinha completado 15 anos e agora, de acordo com ele, vai fazer 18.
 
José Eduardo Guerra, Celino Soares, Brígida Almeida, Efigênio Francisco da Costa, Dona Dirce da Vila Cisne, Marlene Duarte, José Aleixo e muitos outros que não se identificaram repetiram, quase em coro, as reclamações que se resumiram em aflição por demora.
 
Os vereadores Paulo Chaves e Martha Mousinho prometeram continuar atentos e afirmaram que seus gabinetes na Câmara Municipal, continuam abertos para receber todos, ajudar e batalhar por cada um ou todos ao mesmo tempo.
 
E para encerrar, Mariana Diniz, que se manifestara antes a cada reclamação feita, voltou a afirmar que aguardaria a oficialização das reclamações gravadas e anotadas pelos assessores do vereador Paulo Chaves. Também ela prometeu encaminhar o choro de todos à direção da empresa. Afinal, ela cumpriu o seu papel: ouviu, anotou e assegurou que buscará respostas e ações.
 
E mais uma vez ficou provado que quem inventou o nome Vila Paciência é um visionário.